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05/11/2021

DESENCONTRO II



No avesso das palavras
na contrária face
da minha solidão
eu te amei
e acariciei
o teu impercetível crescer
como carne da lua
nos noturnos lábios entreabertos

E amei-te sem saberes
amei-te sem saber
amando de te procurar
amando de te inventar

No contorno do fogo
desenhei o teu rosto
e para te reconhecer
mudei de corpo
troquei de noites
juntei crepúsculo e alvorada

Para me acostumar
à tua intermitente ausência
ensinei às timbilas
a espera do silêncio.

Mia Couto
de Poemas Escolhidos
arte Abdullah Evindar

DESENCONTRO I

 

Não ter morada
habitar
como um beijo
entre os lábios
fingir-se ausente
e suspirar
(o meu corpo
não se reconhece na espera)
percorrer com um só gesto
o teu corpo
e beber toda a ternura
para refazer
o rosto em que desapareces
o abraço em que me desobedeces.

Mia Couto
de Poemas Escolhidos
arte Matteo Arfanotti

19/03/2020

FLORES


Ninguém
 oferece flores.

A flor,
em sua fugaz existência,
já é oferenda.

Talvez alguém,
de amor,
se ofereça em flor.

Mas só a semente 
oferece flores.

Mia Couto
de Tradutor de Chuvas

07/03/2020

SEMENTES


Olhos,
vale tê-los,
se, quando em quando,
somos cegos
 e o que vemos
não é o que olhamos
mas o que  o olhar semeia no mais denso escuro.

Vida
vale vivê-la
se, de quando em quando,
morremos
e o que vivemos
não é o que a Vida nos dá
nem o que dela colhemos
mas o que semeamos em pleno deserto.

Mia Couto
de Poemas escolhidos

LEMBRANÇA ALADA


Em alguma vida fui ave.

Guardo memória 
de paisagens espraiadas
e de escarpas em voo rasante.

E sinto em meus pés
o consolo de um pouso soberano
na mais alta copa da floresta.

Liga-me à terra
uma nuvem e seu desleixo de brancura.

Vivo a golpes 
com o coração de asa
e tombo como um relâmpago 
faminto de terra.

Guardo a pluma
que resta dentro do peito
como um homem guarda o seu nome
no travesseiro do tempo.

Em alguma ave fui vida.

Mia Couto 
de Poemas Escolhidos

03/12/2019

JANELAS


Demoro
a fechar janelas
porque me dói
a vida entre dentro e fora.

Meu gesto lento,
sem antes nem depois,
desconhece se abre ou se fecha
a janela de uma outra janela.

Sem longe nem perto,
entre sombra e além,
na casa onde meu corpo começa,
sou eu mesmo a terra que contemplo.

Depois do vidro,
perdida da sua própria imagem,
a paisagem ainda mora toda em mim.
E eu, já, nela.

Mia Couto
de Mia Couto poemas escolhidos
arte Henry Alexander

ÁRVORE


Cego 
de ser raiz

imóvel 
de me ascender caule

múltiplo
 de ser folha

aprendo 
a ser árvore
enquanto 
iludo a morte
na
folha tombada do tempo.

Mia Couto 
de Mia Couto poemas escolhidos
arte Vincent Van Gogh


06/01/2009

IDENTIDADE



Preciso ser um outro
para ser eu mesmo

Sou grão de rocha
sou o vento que a desgasta

Sou pólen sem insecto

Sou areia sustentando
o sexo das árvores

Existo onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro

No mundo que combato
morro
no mundo por que luto
nasço

Mia Couto
In Raiz de Orvalho