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12/10/2012

DELÍRIO




No parque morno, um perfumista oculto
ordenha heliotrópios...
Deixa aberta a janela...

Minhas mãos sabem de cor o teu corpo,
e a alcova é morna...
Apaguemos a luz...

Não sentes na tua boca
um gosto de papoulas?...

Passa o lenço de seda de tuas mãos
sobre minha fronte,
e não me digas nada:
a febre está, baixinho, ao meu ouvido,
falando de ti...

 João Guimarães Rosa
In Magma
tela Carrie Vielle

AMANHECER




Floresce, na orilha da campina,
esguio ipê
de copa metálica e esterlina.


Das mil corolas,
saem vespas, abelhas e besouros,
polvilhados de ouro,
a enxamear no leste, onde vão pousando
nas piritas que piscam nas ladeiras,
e no riso das acácias amarelas.


Dos charcos frios
sobem a caçá-los redes longas,
lentas e rasgadas de neblina.
Nuvem deslizam, despetaladas,
e altas, altas,
garças brancas planam.


Dançam fadas alvas,
cantam almas aladas,
na taça ampla,
na prata lavada,
na jarra clara da manhã...

João Guimarães Rosa
In Magma
foto FixArts FineArt Photography
    

04/10/2012

LUAR


 

De brejo em brejo,
os sapos avisam:
- A lua surgiu!...
 
No alto da noite as estrelinhas piscam,
puxando fios,
 e dançam nos fios
cachos de poetas.
 
A lua madura
rola, desprendida, 
por entre os musgos
das nuvens brancas...
Quem a colheu,
quem a arrancou
do caule longo
da Via-Láctea?...
 
Desliza solta...
 
Se lhe estenderes
tuas mãos brancas,
ela cairá...
 
João Guimarães Rosa
In Magma
tela Justyna Kopania

SONO DAS ÁGUAS


 

Há uma hora certa,
no meio da noite, uma hora morta,
em que a água dorme.Todas as águas dormem:
no rio, na lagoa,
no açude, no brejão, nos olhos d'água,
nos grotões fundos.
E quem ficar acordado,
na barranca, a noite inteira,
há de ouvir a cachoeira
parar a queda e o choro,
que a água foi dormir...
 
Águas claras, barrentas, sonolentas,
todas vão cochilar.
Dormem gotas,caudais, seivas das plantas,
fios brancos, torrentes.
O orvalho sonha
nas placas da folhagem.
E adormece
até a água fervida,
nos copos de cabeceira dos agonizantes...
 
Mas nem todas dormem, nessa hora 
de torpor líquido e inocente.
Muitos hão de estar vigiando,
e chorando, a noite toda,
porque a água dos olhos
nunca tem sono...
 
João Guimarães Rosa
In Magma
tela Monet