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25/12/2013




Homens são passos; mulheres são perfumes
que se aproximam, param e se esquivam
sem lançar raízes nessa treva.
Beijam-se às vezes, como num murmúrio,
e eu abro meus lábios tão precários,
para depois, num mundo só de beijos,
pousar a mão sobre meus olhos mortos,
como se baixasse nesses entrevados
o teu carinho, a medo.
 
Lya Luft
In Mulher no Palco
tela Lorraine Christie

22/12/2012

PAIS E FILHOS




Aqui não cabe  a poesia.Aqui
ficam à mostra as tripas
da nossa dor milenar.Aqui
fala-se de desencontro e impossibilidade,
onipotência e utopia.
Aqui se cantam as verdadeiras feridas
do amor.

Todos os filhos de todos os pais do mundo
estão nas trincheiras cotidianas:
mas temos os braços amarrados,
e não podemos apertá-los ao peito
como quando eram pequenos
e tínhamos a ilusão de que eram nossos.

Lya Luft
In Para Não Dizer Adeus
tela Diane Leonard

CONFLITO




Tenho medo das águas do destino
a invadirem o que penso e faço,
numa linha de infinda
contradição.
Eu sou assim:
quero fugir mas chamo,
quero ficar mais me assusta
não ter em mim nada seguro
e certo.

Nunca receio a alegria,
para a qual todos os milagres
são normais.
Mas quando tarda quem amo,
meu coração fica exposto
e aberto.

E mesmo assim eu persisto,
e ainda assim espero
ainda, como criança sozinha
atrás do muro.

Lya Luft
In Para Não Dizer Adeus
tela Giovanni Dalessi

30/05/2012

DEUSES E HOMENS




Os deuses estavam de bom humor:
abriram as mãos e deixaram cair no mundo
os oceanos e as sereias,
os campos onde corre o vento,
as árvores com mil vozes,
as manadas, as revoadas
- e, para atrapalhar , as pessoas.

O coração bate com força
querendo bombear sangue
para as almas anêmicas.
Mas onde está todo mundo?
Correndo atrás de bolsa de grife,
do ipod, do ipad,
ou de coisas nenhuma.
Tudo menos parar, pensar, contemplar.

(Enquanto isso a Morte revira
seus grandes olhos de gato,
termina de palitar os dentes

e prepara o bote.)

Lya Luft
In A Riqueza do Mundo
tela Roger Suraud

26/02/2012

CANÇÃO DA ESCUTA



O sonho na prateleira
me olha com seu ar
de boneco quebrado.
Paro diante dele muitas vezes,
e sorrimos um para o outro,
cúmplices de tantos desastres.
Quando o tomo nos braços,
como as bonecas, tão antigamente,
para ver se tem conserto ou fica
onde está,
dentro dele ainda bate
um pequeno tambor obstinado:
e marca, timidamente,
um ritmo paralelo nos meus passos.

Lya Luft
In Secreta Mirada
tela Anne Rea

18/01/2012

CANÇÃO EM OUTRAS PALAVRAS



O melhor cuidado com o amor
é deixar que floresça,
pois amor não se cultiva: é flor
selvagem,bela por ser livre.
Como as estações do ano, ele se abre,
dorme, e volta a perfumar a vida.
Amor é dom que se recebe
com ternura, para que não pereça
sua delicadeza em nossa angústia.

O amor não deve encerrar a coisa possuída,
mas ser parapeito de janela, ou cais
de onde se desprendam os revoos
e partam os navios da beleza
para voltar ou não, conforme amarmos:
nem de menos
nem demais.

Lya Luft
In Secreta Mirada e Outros Poemas
foto por @Doug88888  

20/05/2011

MEU JEITO























Quando pareço ausente, não creias:
hora a hora meu amor agarra-se aos teus braços,
hora a hora meu desejo resolve teus escombros,
e escorrem dos meus olhos  mais promessas.

Não acredites nesse breve sono;
não dês valor maior ao meu silêncio
e se leres recados numa folha branca,
não creias também: é preciso encostar
teus lábios nos meus lábios para ouvir.

Nem acredites se pensas que te falo:
palavras
são meu jeito mais secreto de calar.

Lya Luft
In Para não dizer adeus
tela de Sirr John Everett Millais

12/10/2010

DÁDIVA






















Derrama sobre mim tua esperança de homem,
tanto tempo contida:
planta em meu solo a árvore da renovação,
mais alta do que noite escura.

Larga a solidão, apaga a desesperança,
inventa um novo reino
onde as águas não são naufrágio,
nem o amor desengano.

Vem para esta enseada, onde há ventania
e risco, mas podes ancorar teu coração
depois da longa procura,
para que ele pouse e pulse e brilhe

como a estrela-do-mar em seu fundo
de oceano.

Lya Luft
In Para Não Dizer Adeus
tela de  Willem Haenraets

INÚTIL ESPERA



















( para Wally, nos seus noventa anos )

O rumor de uns passos enérgicos,
a voz me chamando no jardim, na sala
rosas com nomes secretos, e um perfume
igual ao dela.
Legou-me sua alegria inesperada,
o amor à vida,
e algo do perfil.Não sua beleza:
essa ficou nos retratos.
Nada lhe significo mais:
quando me vê enxerga outros rostos,
mais reais do que eu na sua ilha.
É minha mãe e não é,
vive e não vive, na clausura da mente
adormecida.

Mas eu,
a cada visita espero o impossível:
que ainda uma vez o seu olhar me alcance,
e por um momento ame, nesta mulher, a sua filha.

Lya Luft
In Para Não Dizer Adeus
tela de Marry Cassat

MATURIDADE























Caminho entre as minhas perdas
que são insetos escuros,
e os meus ganhos: douradas borboletas.

A luz de uma paixão, o dedo da morte,
o grave pincel da solidão
desenharam meus contornos, firmaram
meu chão.

Que liberdade, não precisar pensar;
que alívio não ter de administrar
minha vida:
apenas andar, e olhar,
apenas ouvir essas vozes
que vêm de longe, passam por mim
e não me dão importância.

Porque no vasto oceano,
a minha eventual desarmonia
é só uma gota
desafinada.
Mais nada.

Lya Luft
In Para Não Dizer Adeus

SEMÂNTICA
























Não se enganem comigo:
se digo sul pode ser norte,
chego mas fico ausente,
o triste é também o belo,
procuro o que não se perde
nem se pode encontrar.

Buscar resposta nos livros
é esconder-se entre linhas.
Não creio no que se enxerga,
mas nisso que se disfarça
por mais que se tente olhar:
assim me tem seduzida.

Eis o jogo que eu persigo,
meu jeito de ser feliz,
o desafio que me embala:
sempre que escrevo "morte"
estou falando da vida.

Lya Luft
In Para Não Dizer Adeus
tela de Daeni Pino

04/06/2010


by Vera Sabino

Então algo mudou: o tom de voz, o olhar que se
esquiva, a mão que se afasta.
A porta precisa ser fechada, a ponte levantada,
queimados os navios.Levaremos meses,anos esten-
dendo as mãos para um vazio, interrogando uma
ausência.
Encarar a realidade é um modo de morrer.Mas sem
isso, não haverá renascimento.

Lya Luft
In Secreta Mirada

04/03/2010


blue ballerina by Tom Conway

TRAPEZISTA

A vida chega em silêncio;
desenvolve reflexos,
interroga esfinge
que responde ou nega
num espelho baço.
(A resposta nunca é clara
nem é pequena.)

Não é a mim que vejo:
é o outro, num misto de incerteza
e esperança de que não seja
mais um rosto virado,
uma boca cerrada
- mais um desgosto
a cada passo.

Desejo, sonho e medo,
o amor é salto em rede
entre a razão e a magia,
(E só assim vale a pena.)

Lya Luft
In Para Não Dizer Adeus

20/12/2009


by Willem Haenraets

RECEITA DE CASA

Uma casa deve ter varandas
para sonhar,cantos para chorar,
quartos para os segredos
e a ambivalência.

Um amor precisa espaço de voar,
liberdade para querer ficar,
alegria, e algum desassossego
contra o tédio.

Não se esqueçam os danos a cobrir,
o medo de partir, e o dom de surpreender
- que é a sua essência.

Lya Luft
In Para Não Dizer Adeus

27/09/2009


Foto de Pedro Ruivo no Flickr

A vida tem crueldades, mas também delicadezas que se estendem além da paixão - que, sendo relâmpago e trovão, nem sempre traz a desejada permanência.Em qualquer relacionamento: amizade,família,trabalho,amor,somos realidades em choques.O aprendizado não é fácil. Aqui e ali, tiramos notas baixas, alguma vez somos reprovados num teste importante.Aceitar essa reprovação pode levar todo o tempo de uma longa vida.Queremos o milagre, mais do que o milagre, queremos sempre a salvação.Mesmo quando o chão começa a afundar, e o tapete deslizou sob nossos pés aflitos, teimamos em pensar que ainda há remédio:um pobre band-aid serviu.Ou um passe de mágica que nos tornasse menos expostos, menos humanos.

Lya Luft
In Secreta Mirada

28/07/2009


Foto de mr.f_stop

CANÇÃO DO ESTRANHAMENTO

Baixei as tranças para que viesses,
dei-te a chave para que habitasses
os meus quartos mais secretos.
Mas de repente vejo-te na praia
buscando um horizonte diferente
que nem eu antes disso pressentia.
Quero deixar-te, sem desprender-me
de tudo isso que sou e desejaste,
e me dói, e me espanta e me remorde
abrir a mão para o teu sonho alado
sem te cobrar ternuras nem cuidados
com o que conquistaste e já não queres,
que te libertaria mas te algema
e que te inquieta agora, com desejos
de correr, de voar, de estar ausente.

Quero ser o que ainda ontem fomos,
quero ter o que nós tivemos,
quero que a realidade se recolha
e permaneça,entre nós,a fantasia.

Lya Luft
In Secreta Mirada e Outros Poemas

Foto de As fotos do ...

Parte da magia de viver(se soubermos parar, olhar,
escutar) nos vem da natureza: nuvem,árvore,pedra,
silêncio antes da chuva que chega como um animal
entre as árvores.Ali, no mato, na casa, no mar ou
no aconchego, e sempre no estranhamento, no sagrado
e no assustador, estavam os deuses que manobram,
amam, protegem ou lançam na aventura de descobrir
nosso caminho - e às vezes parecem brincar com os
pobres mortais.

Lya Luft
In Secreta Mirada e outros poemas

25/07/2009


by Pablo Picasso

CANÇÃO EM CAMPO VASTO

Deixa-me amar-te com ternura, tanto
que nossas solidões se unam,
e cada um falando em sua margem
possa escutar o próprio canto.

Deixa-me amar-te com loucura, ambos
cavalgando mares impossíveis
em frágeis barcos e insuficientes velas,
pois disso se fará a nossa voz.

Ajuda-me a amar-te sem receio:
a solidão é um campo muito vasto
que não se deve atravessar a sós.

Lya Luft
In Secreta Mirada

24/07/2009


Angel Window by Tiffany Studios

CANÇÃO DA PEQUENA MELANCOLIA

Um anjo vem todas as noites:
senta-se ao pé de mim e passa
sobre meu coração a asa tensa,
como se fosse o meu melhor amigo.

Esse fantasma que chega e me abraça
(asas cobrindo a ferida do flanco)
é todo o amor que resta entre ti e mim
e está comigo.

Lya Luft
In Secreta Mirada

12/06/2009


Gustav Klimt » Farm Garden with Sunfowers

TÃO SUTILMENTE EM TANTOS BREVES ANOS

Tão sutilmente em tantos breves anos
foram se trocando sobre os muros
mais que desigualdades, semelhanças,
que aos poucos dois são um, sem que no entanto
deixem de ser plurais:
talvez as asas de um só anjo, inseparáveis.
Presenças, solidões que vão tecendo a vida,
o filho que se faz, uma árvore plantada,
o tempo gotejando do telhado.
Beleza perseguida a cada hora, para que não baixe
o pó de um cotidiano desencanto.

Tão fielmente adaptam-se as almas destes corpos
que uma em outra pode se trocar,
sem que alguém de fora o percebesse nunca.

Lya Luft