31/08/2008


by Steven N. Meyers

O VELHO

O velho sem conselhos
De joelhos
De partida
Carrega com certeza
Todo o peso
Da sua vida
Então eu lhe pergunto pelo amor
A vida inteira, diz que se guardou
Do carnaval, da brincadeira
Que ele não brincou
Me diga agora
O que é que eu digo ao povo
O que é que tem de novo
Pra deixar
Nada
Só a caminhada
Longa, pra nenhum lugar

O velho de partida
Deixa a vida
Sem saudades
Sem dívidas, sem saldo
Sem rival
Ou amizade
Então eu lhe pergunto pelo amor
Ele me diz que sempre se escondeu
Não se comprometeu
Nem nunca se entregou
E diga agora
O que é que eu digo ao povo
O que é que tem de novo
Pra deixar
Nada
E eu vejo a triste estrada
Onde um dia eu vou parar

O velho vai-se agora
Vai-se embora
Sem bagagem
Não se sabe pra que veio
Foi passeio
Foi Passagem
Então eu lhe pergunto pelo amor
Ele me é franco
Mostra um verso manco
De um caderno em branco
Que já se fechou
Me diga agora
O que é que eu digo ao povo
O que é que tem de novo
Pra deixar
Não
Foi tudo escrito em vão
E eu lhe peço perdão
Mas não vou lastimar

Chico Buarque

by Klimt

DE NOITE

De noite, amada, amarra teu coração ao meu
e que eles no sonho derrotem
as trevas como um duplo tambor
combatendo no bosque
contra o espesso muro das folhas molhadas.
Noturna travessia, brasa negra do sonho.
Interceptando o fio das uvas terrestres
com pontualidade de um trem descabelado
que sombra e pedras frias sem cessar arrastasse.
Por isso, amor, amarra-me ao movimento puro,
à tenacidade que em teu peito bate.

Com as asas de um cisne submergido,
para que as perguntas estreladas do céu
responda nosso sonho com uma só chave,
com uma só porta fechada pela sombra.

Pablo Neruda

by Joaquin Sorolla y Bastida

O VENTO NA ILHA

O vento é um cavalo
Ouça como ele corre
Pelo mar, pelo céu.
Quer me levar: escuta
como recorre ao mundo
para me levar para longe.

Me esconde em teus braços
por somente esta noite,
enquanto a chuva rompe
contra o mar e a terra
sua boca inumerável.

Escuta como o vento
me chama galopando
para me levar para longe.

Com tua frente a minha frente,
com tua boca em minha boca,
atados nossos corpos
ao amor que nos queima,
deixa que o vento passe
sem que possa me levar.

Deixa que o vento corra
coroado de espuma,
que me chame e me busque
galopando na sombra,
entretanto eu, emergido
debaixo teus grandes olhos,
por somente esta noite
descansarei, amor meu.

Pablo Neruda
In Os Versos do Capitão

DÚBIO



Um dia, alma criança,
do vento indaguei a idade
e foi o tempo de meu pensamento
o que obtive como verdade.
Do sol, a mesma questão lançada,
como solução tive o tempo de meus olhos
de minha pele à luz disposta.
Estranhas, dúbias respostas:
o universo a um seco estalar de minha finitude
se desmancha, então, e passa?
Ou trago , dos cumes da criação,
em tudo que brota, rebrota,
a mais irrestrita ,
a mais eterna proposta?

 
Fernando Campanella
tela by Caspar David Friedrich

IMAGEM



A poesia
como imagem-balão
a subir, subir , até pairar
sobre toda dor e alegria -
criança agora pião
a brincar com a luz,
a rodopiar o dia.

Fernando Campanella
tela Christie's Images

INTERLÚNIO




De onde o viés no peito
( este pranto incrustado)

Viria do oceano premido
de abrolhos
de incursões de tempestades?

ou é vórtice de alma
de luas cegas
de fantasmas desterrados?

de onde esta concha
que idealiza os pássaros

este azul que esfuma os montes
e inventa um céu,
meu poder de ficção,
meu sonho, o que paira tão alto
e que para sempre me escapa....

Fernando Campanella
Foto de job earth

by Ekd.

SI MIS MANOS PUDIERAN DESHOJAR

Yo pronuncio tu nombre
en las noches oscuras,
cuando vienen los astros
a beber en la luna
y duermen los ramajes
de las frondas ocultas.
Y yo me siento hueco
de pasión y de música.
Loco reloj que canta
muertas horas antiguas.

Yo pronuncio tu nombre,
en esta noche oscura,
y tu nombre me suena
más lejano que nunca.
Más lejano que todas las estrellas
y más doliente que la mansa lluvia.

¿Te querré como entonces
alguna vez? ¿Qué culpa
tiene mi corazón?
Si la niebla se esfuma,
¿qué otra pasión me espera?
¿Será tranquila y pura?
¡¡Si mis dedos pudieran
deshojar a la luna!

Federico Garcia Lorca

Foto de Jack Darelly

CANÇÃO DO DIA QUE SE VAI

Que trabalho me custa
deixar-te ir, ó dia!
Vais-te cheio de mim,
voltas sem conhecer-me.

Que trabalho me custa
deixar sobre teu peito
possíveis realidades
de impossíveis minutos!

Pela tarde um Perseu
te lima as cadeias,
e foges sobre os montes
ferindo-te os pés.
Não podem seduzir-te
minha carne ou meu pranto,
nem os rios em que
a sesta de ouro dormes.

De Leste para Oeste
levo-te a luz redonda.
Teu fulgor que sustem
minha alma em tensão fina.
De Leste para Oeste,
que trabalho me custa
levar-te com teus pássaros
e teus braços de vento!

Federico Garcia Lorca
In Livro de Poemas Canções e Outras Poesias

Foto de Franco

BEBENDO À LUZ DA LUA

Um jarro de vinho entre as flores,
bebo sozinho - nenhum amigo me acompanha.
Alço minha taça, convido a lua
e minha sombra - agora somos três.
A lua não bebe
e minha sombra apenas imita meus gestos.
Mesmo assim, são elas as minhas companhias.
É primavera, tempo de festa -
canto, a lua escuta e cintila;
danço, minha sombra se agita, animada.
Enquanto estou sóbrio, juntos estamos os três;
quando me embriago, cada um segue seu rumo.
Selamos uma amizade que nenhum mortal conhece.
E juramos nos encontrar no mundo além das nuvens.

Li Po

POEMA



A minha vida é o mar o Abril a rua
O meu interior é uma atenção voltada para fora
O meu viver escuta
A frase que de coisa em coisa silabada
Grava no espaço e no tempo a sua escrita

Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro
Sabendo que o real o mostrará

Não tenho explicações
Olho e confronto
E por método é nu meu pensamento

A terra o sol o vento o mar
São minha biografia e são meu rosto

Por isso não me peçam cartão de identidade
Pois nenhum outro senão o mundo tenho
Não me peçam opiniões nem entrevistas
Não me perguntem datas nem moradas
De tudo quanto vejo me acrescento

E a hora da minha morte aflora lentamente
Cada dia preparada.

Sophia de Mello Breyner Andresen
In Poemas Escolhidos
Foto de Curlgirl1

POR DELICADEZA



Bailarina fui
Mas nunca dancei
Em frente das grades
Só três passos dei

Tão breve o começo
Tão cedo negado
Dancei no avesso
Do tempo bailado

Daçarina fui
Mas nunca bailei
Deixei-me ficar
Na prisão do rei

Onde o mar aberto
E o tempo lavado?
Perdi-me tão perto
Do jardim buscado

Bailarina fui
Mas nunca bailei
Minha vida toda
Como cega errei

Minha vida atada
Nunca a desatei
Como Rimbaud disse
Também direi:

"Juventude ociosa
Por tudo iludida
Por delicadeza
Perdi minha vida"

Sophia de Mello Breyner Andresen
In Poemas Escolhidos
Foto de Arman Zhenikeyev

30/08/2008


by Sisley

Chegar, como brisa que atravessa a janela.
Soprando de leve, as brumas do passado.

Chegar, como o barco.
Trazendo alegrias, após enfrentar as procelas sombrias.

Chegar, como a saudade.
Que bate, de manso, no coração.

Chegar, como chuva, fininha, mansinha,criadeira, necessária e tão querida.
Ficar, nas lembranças do passado, nas estampas do presente, a retratar nosso ontem no hoje.

Ficar, para sempre.
Na imagem nunca esquecida, dos que nos são tão queridos.

A vida, é chegar e ficar, para sempre.
Vida nunca será partida.

Cecília Meireles

Foto de jvverde

VIAGEM

Era um pássaro triste.
Andorinha exaurida,
A viajar para longe.
Em suas asas tremia
Um prenúncio de morte.

A árvore acenou da distância
Um fraterno chamado.

Repousou a andorinha
E sonhou longamente,
Acordada.
E foi, aquele sonho, a vida.

Helena Kolody
In Luz Infinita

NINFÉIAS




Eu vou aonde as nuvens
de impossíveis tons se embriagam,
eu nado onde aquáticos leques
se irisam em sonhos
e por arte do encanto se dissolvem.

Eu furto cores,
clico roxos que se miram
em espelhos que me expandem.

Bebo a luz, traço a alma,
eu sou o impressionista ambulante.

Então nem me perguntes
por quais cambiantes geografias me espalho:
meus olhos são câmeras mimadas
meus pincéis são artífices do instante.

Fernando Campanella
Foto de Job Earth

Foto de Tanakawho

Sementes de luz...
Girassóis sonham Van Gogh
em sua homenagem.

Delores Pires

by John waterhouse

TRADUZIR-SE

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?

Ferreira Gullar

John Waterhouse

O POÇO

Cais, às vezes, afundas
em teu fosso de silêncio,
em teu abismo de orgulhosa cólera,
e mal consegues
voltar, trazendo restos
do que achaste
pelas profunduras da tua existência.

Meu amor, o que encontras
em teu poço fechado?
Algas, pântanos, rochas?
O que vês, de olhos cegos,
rancorosa e ferida?

Não acharás, amor,
no poço em que cais
o que na altura guardo para ti:
um ramo de jasmins todo orvalhado,
um beijo mais profundo que esse abismo.

Não me temas, não caias
de novo em teu rancor.
Sacode a minha palavra que te veio ferir
e deixa que ela voe pela janela aberta.
Ela voltará a ferir-me
sem que tu a dirijas,
porque foi carregada com um instante duro
e esse instante será desarmado em meu peito.

Radiosa me sorri
se minha boca fere.
Não sou um pastor doce
como em contos de fadas,
mas um lenhador que comparte contigo
terras, vento e espinhos das montanhas.

Dá-me amor, me sorri
e me ajuda a ser bom.
Não te firas em mim, seria inútil,
não me firas a mim porque te feres.

Pablo Neruda

Abbott Thayer, Winged Figure -11507

DENTRO DE MIM MORA UM ANJO

Quem me vê assim cantando
não sabe nada de mim
dentro de mim mora um anjo
que tem a boca pintada
que tem as asas pintadas
que tem as unhas pintadas
que passa horas a fio
no espelho do toucador
dentro de mim mora um anjo
que me sufoca de amor

Dentro de mim mora um anjo
montado sobre um cavalo
que ele sangra de espora
ele é meu lado de dentro
eu sou seu lado de fora
Quem me vê assim cantando
não sabe nada de mim

Dentro de mim mora um anjo
que arrasta as suas medalhas
e que batuca pandeiro
que me prendeu nos seus laços
mas que é meu prisioneiro
acho que é colombina
acho que é bailarina
acho que é brasileiro.

Cacaso

Foto de tanakawho

MENOS A MIM

Conheço a aurora com seu desatino
Conheço o amanhecer com o seu tesouro
Conheço as andorinhas sem destino
Conheço rios sem desaguadouros
Conheço o medo do princípio ao fim
Conheço tudo, conheço tudo
Menos a mim

Conheço o ódio e seus argumentos
Conheço o mar e suas ventanias
Conheço a esperança e seus tormentos
Conheço o inferno e suas alegrias
Conheço a perda do princípio ao fim
Conheço tudo, conheço tudo
Menos a mim

Mas depois que chegaste de algum céu
Com teu corpo de sonho e margarida
Pra afinal revelar-me quem sou eu
Posso afirmar enfim
Que não conheço nada desta vida
Que não conheço nada, nada, nada
Nem mesmo a mim

Ferreira Gullar
In Toda Poesia

29/08/2008


Foto de Cotton Candy

BAMBU

Pendido, tristonho,
na touça, leve, balouça,
à pesca de um sonho.

Delores Pires


PRIMAVERA

Ouro flutuando
pelos ramos desfolhados
nos ipês floridos.

Delores Pires

SIMPLICIDADE

















Singela e formosa
Num torvelinho de espinho
Desabrocha a rosa.

Delores Pires
Foto de amichael645su

É MELANCOLIA




Te chamarás silêncio doravante.
E o lugar que ocupas no ar
se chamará melancolia.

Escreverei no vinho rubro um nome:
o teu nome que esteve junto a minha'alma
sorrindo entre violetas.

Agora olho ao longe, absorto,
esta mão que andou por teu rosto,
que sonhou junto a ti.

Esta mão distante, de outro mundo,
que conheceu uma rosa e outra rosa,
e o tépido, o lento nácar.

Um dia irei buscar-me, irei buscar
meu fantasma sedento entre os pinheiros
e a palavra amor.

Te chamarás silêncio doravante.
Eu o escrevo com a mão que aquele dia
ia contigo entre os pinheiros.

Eduardo Carranza
by John Waterhouse

QUERO




Quero
Nos teus quartos forrados de luar
Onde nenhum dos meus gestos faz barulho
Voltar.
E sentar-me um instante
Na beira da janela contra os astros
E olhando para dentro contemplar-te,
Tu dormindo antes de jamais teres acordado,
Tu como um rio adormecido e doce
Seguindo a voz do vento e a voz do mar
Subindo as escadas que sobem pelo ar.

Sophia de Mello Breyner Andresen
tela Matteo Arfanotti

by Mucha

SONHAR

Sonhar é transportar-se em asas de ouro e aço
Aos páramos azuis da luz e da harmonia;
É ambicionar o céu; é dominar o espaço,
Num vôo poderoso e audaz da fantasia.

Fugir ao mundo vil, tão vil que, sem cansaço,
Engana, e menospreza, e zomba, e calunia;
Encastelar-se, enfim, no deslumbrante paço
De um sonho puro e bom, de paz e de alegria.

É ver no lago um mar, nas nuvens um castelo,
Na luz de um pirilampo um sol pequeno e belo;
É alçar, constantemente, o olhar ao céu profundo.

Sonhar é ter um grande ideal na inglória lida:
Tão grande que não cabe inteiro nesta vida,
Tão puro que não vive em plagas deste mundo.

Helena Kolody

by Renoir

A ARTE DE SER FELIZ

Houve um tempo em que minha janela
se abria sobre uma cidade que parecia
ser feita de giz. Perto da janela havia um
pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra
esfarelada, e o jardim parecia morto.

Mas todas as manhãs vinha um pobre
com um balde e, em silêncio, ia atirando
com a mão umas gotas de água sobre
as plantas. Não era uma rega: era uma
espécie de aspersão ritual, para que o
jardim não morresse. E eu olhava para
as plantas, para o homem, para as gotas
de água que caíam de seus dedos
magros e meu coração ficava
completamente feliz.

Às vezes abro a janela e encontro o
jasmineiro em flor. Outras vezes
encontro nuvens espessas. Avisto
crinças que vão para a escola. Pardais
que pulam pelo muro. Gatos que abrem
e fecham os olhos, sonhando com
pardais. Borboletas brancas, duas a
duas, como refelectidas no espelho do ar.

Marimbondos que sempre me parecem
personagens de Lope de Vega. Às
vezes um galo canta. Às vezes um
avião passa. Tudo está certo, no seu
lugar, cumprindo o seu destino. E eu me
sinto completamente feliz.

Mas, quando falo dessas pequenas
felicidades certas, que estão diante de
cada janela, uns dizem que essas coisas
não existem, outros que só existem
diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a
olhar, para poder vê-las assim.

Cecília Meireles

by Renoir

TEMPESTADE

SUSPIRAM as rosas
e surpreendidas e assustadas
esconderam-se nos seus veludos.

Não eram borboletas!
Nem rouxinóis!
Não eram pavões que passavam pelo jardim.

De um céu ruidoso
caíam essas grandes asas luminosas e inquietas.
Relâmpagos azuis voavam entre os canteiros,
retalhando os lagos.

Tremiam veludos e sedas,
e o pólen delicado,
na noite violenta,
alta demais,
despedaçada,
despedaçante.

Ah, como era impossível
suster a forma das rosas!

Cecília Meireles
In Flor de Poemas


CANÇONETA

Eu diria – são flores as pedras
Em que pisam teus pés viajores...
Tuas dores – diria – são quedas.
Eu diria – nas pedras de flores.

Sobretudo no vento que passa
como brisa tu passas no tempo.
Porque voas tão cheia de graça
Eu diria – nos braços do vento...

E diria que a estrada é tão curta,
quem sabe não seja uma estrada.
Eu diria – uma entrada noturna
do caminho de alguma alvorada...

Peregrina, são flores as pedras
na cantiga de amáveis cantores.
As veredas – diria – são breves.
E diria que as pedras são flores...

A. Estebanez

by Manet

Sonho que vens comigo a este passeio.
Vamos os dois andando, lentamente.
De mãos dadas sorrindo pela estrada.
Dentro em pouco, de trás dos altos montes,
A noite chegará.

Vens de branco. Tuas mãos longas e leves -
Tuas mãos de lírio - muito frias são.
Não te posso dizer nem uma só palavra.
Mas que felicidade e que doçura imensa
Há no meu coração!

Tanto tempo esperei este amado momento
De me encontrar sozinho assim, ao pé de ti -
À margem do caminho as árvores amigas
Juncam de flores e folhas os lugares
Em que pisam teus pés.

Vamos andando os dois, respirando o perfume
Que vem da natureza neste instante.
Neste instante, parece, é que nascemos -
Pois estamos os dois serenos, esquecidos
De toda a dor e de todo o mal.

A noite já desceu. Veio cheia de estrelas.
Há um silêncio bom que envolve a solidão.
Os nossos corações falam-se mudamente:
Que lindas coisas dizem nesta hora
Os nossos corações!

Hei de ser sempre teu - hás de ser sempre minha.
Nunca um momento só deixarei de te amar...
Viveremos os dois tão unidos e fortes,
Tão serenos e bons, que nem a morte
Os nossos corações separará.

Sonho que vieste a este passeio...

Augusto Frederico Schmidt

27/08/2008



À noite como deve sentir-se solitário o vento
Quando todos apagam a luz
E quem possui um abrigo
Fecha a janela e vai dormir.

Ao meio-dia, como deve sentir-se imponente o vento
Ao pisar em incorpórea música,
Corrigindo erros do firmamento
E limpando a cena.

Pela manhã, como deve sentir-se poderoso o vento
Ao deter-se em mil auroras,
Desposando cada uma, rejeitando todas
E voando para seu esguio templo, depois.

Emily Dickinson
In Poemas Escolhidos
by Starry Night over the Rhone, c.1888
Artist: Vincent van Gogh

DAS ROSAS




Brindemos, amantes, a cada manhã,
com um suave tilintar de rosas
ora brancas, ora carmim,
ora singelamente rosa.
Que símbolos melhor alinhavados
Para o bordado do amor
Poderia no mundo haver
Que os motivos da rosa:
Cor em choque, rubros beijos,
Alvos,raros pássaros
Que que às vezes pousam em meu jardim.
Que outras formas mais completamente
Revelariam o que se sente,
o amor em cores tantas,
em tão múltiplas instâncias:
Rosa dos ventos em caprichos de lua
Ora a negar, ora a conceder
Por inteiro o seu perfume, a sua face.
Brindemos, pois, amantes,
Com o mais fino licor das rosas,
Tão finitas & sempre vivas,
Tão óbvias & super novas,
Tão dolorosamente espinho
E ainda amorosamente rosas:
Eis o amor
Em sua mais redundante,
a ainda irretocável metáfora -
o resto é meramente prosa.

Fernando Campanella
tela  Jack Vettriano

26/08/2008


by Claude Monet

A NOITE NA ILHA

Dormi contigo a noite inteira junto do mar, na ilha.
Selvagem e doce eras entre o prazer e o sono,
entre o fogo e a água.
Talvez bem tarde nossos
sonos se uniram na altura e no fundo,
em cima como ramos que um mesmo vento move,
embaixo como raízes vermelhas que se tocam.
Talvez teu sono se separou do meu e pelo mar escuro
me procurava como antes, quando nem existias,
quando sem te enxergar naveguei a teu lado
e teus olhos buscavam o que agora - pão,
vinho, amor e cólera - te dou, cheias as mãos,
porque tu és a taça que só esperava
os dons da minha vida.
Dormi junto contigo a noite inteira,
enquanto a escura terra gira com vivos e com mortos,
de repente desperto e no meio da sombra meu braço
rodeava tua cintura.
Nem a noite nem o sonho puderam separar-nos.
Dormi contigo, amor, despertei, e tua boca
saída de teu sono me deu o sabor da terra,
de água-marinha, de algas, de tua íntima vida,
e recebi teu beijo molhado pela aurora
como se me chegasse do mar que nos rodeia.

Pablo Neruda
In O Rio Invisível

by Henri Rousseau (La Douanier)

A NOSSA CANÇÃO DE RODA

A nossa canção de roda
tinha nada e tinha tudo
como a voz dos passarinhos-
mas que será que dizia?
A nossa canção de roda
era boba como a lua.
Mas a roda dispersou-se
cada qual perdeu seu par...
Agora,nossos fantasmas meninos
talvez a cantem na lua...
talvez que junto a algum leito
a morte a esteja a cantar
como quem nana um filhinho...
A nossa canção de roda
tinha nada e tinha tudo:era
uma girândola de vozes
chispando
mais lindas do que as estrelas
era uma fogueira acesa
para enganar o medo, o grande medo
que a Noite sentia da sua própria escuridão.

Mario Quintana
in Baú de Espanto

Photo: Yves Leduc

SUSSURO

Aquiete-se para ouvir o silêncio;
a clorofila escorre pela haste,
a sombra e o sol ecoam um contraste
de quentes e frios na linha divisória.
Tente escutar a história da brisa
quando passa empurrando
a bruma,que,tola,embaça a púrpura da rosa.
Esta conta prosa de sacerdotisa.
Faça atenção ao momento de explosão
da metamorfose
que irrompe em grande dose
de véus e açúcares.
Sinta o cochilo dos nenúfares.
Se conseguir atingir
o ponto mais profundo da quietude,
vai poder ouvir o coração do colibrí.
Ele bate minúsculo num peito passarinho.
A Terra se mobiliza para entoar
uma sonata azul em homenagem
a esse músculo coberto de plumagem,
que tão pequenininho é tão capaz de amar.

Flora Figueiredo

25/08/2008

AZUL DE TI




Pensar em ti é azul, como ir vagando
por um bosque dourado ao meio dia:
nascem jardins na fala minha
e com minhas nuvens, por teus sonhos, ando.

Nos une e nos separa um ar brando,
uma distância de melancolia;
eu alço os braços de minha poesia,
azul de ti, dorido e esperando.

É como um horizonte de violinos
ou um tépido sofrimento de jasmins
pensar em ti, de azul temperamento.

O mundo torna-se cristalino,
e te vejo, entre lâmpadas de trino,
azul domingo de meu pensamento.

Eduardo Carranza
In Antologia Poética
tela Felix Mas

by Monet

O TEMPO DAS ESTRELAS

Um compasso de espera
tão longo e musical
por estrelas destas a tocar-me o rosto
E aprender a aceitá-las,e eu ser um céu imenso
onde elas se pudessem passear,
encontrar uma casa,um pequeno silêncio
de folhas,e poeiras, e cometas

Na desordem mais cósmicas
das coisas,
organizar inteiro:
o coração

Porque, a tocar-me o rosto,
o tempo das estrelas
será sempre,
mesmo que tombem astros,
ou outras dimensões se lancem
em vazio,
ou raízes de luz se precipitem
o nada mais atónito

Terá valido tudo
a desordem do sol,
terá valido tudo
este lugar incandescente
e azul

Porque, a tocar-me o rosto,
agora,
e em silêncio tão terreno:
paraíso de fogo:
estas estrelas

Transportadas em luz
nas tuas mãos

Ana Luiza Amaral

Foto de Hélder Cotrim

33

As gaivotas da manhã acordaram-me. O canto
é delas ou foi recolhido
nas águas? Um raio
de sol atravessa o quarto e trepa hesitante
pela cama; deita-se conosco
como se fosse um gato. Estendo a árvore
flexível do corpo
e penso como é bom esquecer-me da idade
e dos outros e do mundo
que felizmente se esquece muitas vezes
de mim. Não sei de que lado estou se
me deitei
à direita ou à esquerda
da minha amiga. Agrada-me
o rumor dela
quando se aconchega ao meu corpo
sem ter ouvido ainda o piar das gaivotas
nem as patas perfumadas do sola nosso lado.

Casimiro de Brito
In Opus Affettuoso

Foto de Joe Baba

POEMA ESCRITO NA ÁGUA

Minha mão volta a escrever
entre as páginas das águas
onde o amor me volte a ler
a história de suas lágrimas.

Que nunca me falte a tinta
para o branco da memória
que amor é mágoa distinta
da mágoa de toda história.

E entre as páginas viradas
que inundam meu coração
deixo mágoas derramadas
com sabor de uma canção.

Quantas delas já verteram
das águas todas passadas
e de espuma converteram
dor em flores restauradas.

Minha mão vem descrever
como faz a flor das águas
que reescreve o alvorecer
da vida isenta de mágoas.

A. Estebanez

A MÉDIA LUZ



Sempre reneguei o tango
e os entusiastas de Gardel,
(longe de mim a passional postura
eivada de desolação e dor),
o amor sempre em mim a eterna nuvem
e um campo de mais alvos lírios
onde jamais choveu.
Cerrei as tendas, afastei o bruxo,
mas na contrapartida
adiei o fruto, me ceguei à cor.

Violinos eternos , bandoneóns,
toquem-me hoje um tango crepuscular
e tardio, toquem, que desaprendi
o me bastar e o meu cismar sozinho,
à meia-luz
meu coração
são girassóis que dançam-
todo chama, e torvelinho.

Fernando Campanella
Foto de Hazel

Foto de Cauks

TRÊS ORQUÍDEAS

As orquídeas do mosteiro fitam-me com seus olhos roxos.
Elas são alvas, toda pureza,
com uma leve mácula violácea para uma pureza de sonho triste, um dia.
Que dia? Que dia? Dói-me a sua brevidade.
Ah! não vêem o mundo. Ah! não me vêem como eu as vejo.
Se fossem de alabastro seriam mais amadas?
Mas eu amo o terno e o efêmero e queria fazer o efêmero eterno.

As três orquídeas brancas eu sonharia que durassem,
com sua nervura humana,
seu colorido de veludo,
a graça leve do seu desenho,
o tênue caule de tão delicado verde.
Que elas não vêem o mundo, que o mundo as visse.
Quem pode deixar de sentir sua beleza?
Antecipo-me em sofrer pelo seu desaparecimento.
E apira sobre elas a gentileza igualmente frágil, a gentlileza floril
da mão que as trouxe para alegrar a minha vida.

Durai, durai, flores, como se estivésseis ainda
no jardim do mosteiro amado onde fostes colhidas,
que escrevo para perdurares em palavras,
pois desejaria que para sempre vos soubessem,
alvas, de olhos roxos (ah! cegos?)
com leves tristezas violáceas na brancura de alabastro.

Cecília Meireles
In Flor de Poemas

02/08/2008


foto de Marcia Malaguti

IREI POR MEU CAMINHO

Irei por meu caminho sem sentir minhas dores,
sem sentir minhas dores que ficarão atrás.
Irei pelas beiradas recolhendo as flores,
deste longo caminho que já não verei mais.
As sarças do caminho cavarão seus espinhos,
farão verter o sangue do meu corpo cansado.
E enquanto velozmente passem as andorinhas
verão meus membros rotos e meu corpo curvado.
E na imensa jornada desta longa vereda
o espírito apagado se tomará de brios.
As sarças me perfuram e por isso as venero
como venero as flores sob o sol do estio.
Contudo, as aridezes deste longo caminho
farão cicatrizar minhas feridas abertas:
minh'alma afundará num suave letargo
e o olvido passará sobre as paixões extintas...

Pablo Neruda
In: Primeiros Poemas