
by Botticelli
TERCEIRA MEDITAÇÃO
Suave é o silêncio noturno
Receber o infinito íntimo
Quando a alma do homem
Despida provisoriamente da contingência
- Ocultos na penumbra o jornal e o relógio -
Se debruça sobre si mesma,
Procede à prospecção do seu pecado
E adivinha seu abismo.
Nobre é no silêncio noturno
Quando o espírito pálido percebe
As tesouras da morte se movendo
Palpar o que Deus desdobra na penumbra
Ao homem que de joelhos aceita.
Nobre é no silêncio noturno
Captar o que da antiga origem recebemos,
Pensando a imóvel eternidade.
Suave é no silêncio noturno
Voar sem mecânica de asas,
Voar sem remover a vidraça do quarto,
Voar sem observação e pela fé.
Pois na fé que distruiremos nosso corpo,
Que romperemos a miragem de Babilônia
E queimaremos o trajo pestífero
Herdado um dia do primeiro pai.
Pela fé vivemos: substância e criação,
Oh visibilidade do invisível,
Pórtico e prelúdio de futuros mundos...
Investimentos assim a novidade
E a totalidade do Senhor.
Nobre é no silêncio noturno
Esquadradrinhar os espelhos da fé.
Pela fé viveremos em temor e tremor,
Cobertos de andrajos e de angústias,
Tidos como mortos, ainda vivos.
Pela fé enfrentaremos o terror atômico
E ousaremos interpelar o próprio crucifixo.
Pela fé esvasiaremos nossa habitação terrestre,
Pela fé o infinito íntimo
Se tornará nossa ração cotidiana.
Murilo Mendes
In Poesias Completas
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