15/09/2008


Franz Dvorak

ANJO

Havia um anjo solto no terraço
comendo sol e rindo para os pássaros.

Seu olho esquerdo (o olho bom dos anjos)
capinava o amanhã, armava o canto

com o brando metal propício aos frutos
e o ardor da brisa quando se ama e luta.

Pelo outro olho ele era só um anjo,
ave barroca, luva de cerâmica.

Pode-se promover um anjo a homem
libertá-lo das asas e do sonho?

Transfigurado assim, ele sucumbe
ou alegremente voa para o lume?

Aquele apenas brinca no terraço
cavalgando o verão preso no pasto

restrito e sobrenatural dos anjos:
de trombeta e de rifle, mais humano.

Fernando Pessoa Ferreira

Nenhum comentário: