
Gilbert Michaud
XVI
SINTO teu corpo como o chão maduro
onde delira, exausta, a primavera
multiplicando em nós a sua velha
manhã. Na carne em floração escuto
trêmula e tênue liberdade e nela
o que de mim se faz eterno e arguto.
Não sei se é meu silêncio que procuro
ou a certeza de tê-lo descoberto
na solidão contida no teu ventre,
na semente de tempo que há em ti.
Dormes. Contemplo-me em teu corpo e aprendo
que, antes e além desse pudor oculto,
somos apenas ávido e maduro
chão: fonte extrema que elabora a vida.
Fernando Pessoa Ferreira
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