Tico era o nome de meu sabiá. Tio Raimundo trouxera-o para mim ainda filhote, um tico, um tiquinho de ‘gente’, cabendo inteiro dentro de minha mão fechada. Fora encontrado no chão, caído de algum ninho. Certamente não sobreviveria perto do milharal do sítio do tio Raimundo, presa, quem sabe, de alguma impiedosa cascavel .
Logo conseguimos uma gaiola para ele, e todos torcíamos para que sobrevivesse, meu avô alimentando-o, e eu e minha avó bulindo com ele, cercando-o do carinho de que precisava para compensar a falta dos pais. Não somente sobreviveu o meu amiguinho, como tornou-se um belo espécime de pássaro, em plena cor pardo-acinzentada.
Tico foi o melhor presente que me lembro de haver recebido naquela época. Porém, não cantava como os outros sabiás do sítio do tio Raimundo. Emitia uns sons que mais pareciam um assovio monocórdio ao passo que os outros sabiás cantavam uma alegre, rica melodia, voando soltos pelos laranjais. Tio Raimundo explicou-me, então, que os filhotes de sabiás aprendem a cantar com os pais e os adultos de seu bando, necessitando de convívio, de um modelo que possam imitar. Prometeu, então, trazer um CD gravado com cantos de vários sabiás para que o Tico pudesse ouvir e aprender.
Eu imaginava que ele se comportava daquela maneira por sentir uma espécie de saudade, uma falta de seus pais e companheiros de liberdade. Até que um belo dia descobrimos o motivo de sua aflição. Foi em um domingo, quase na hora do almoço. Vovó estava conversando com uma vizinha na rua e eu em meu quarto jogando vídeo game. De repente, escutei um tremendo alvoroço no quintal. Corri para lá em sobressaltos, chegando a tempo de impedir uma tragédia. Um gavião tentava agarrar o Tico pelas grades da gaiola. Felizmente o vilão, assustado, foi embora antes de conseguir seu intento .
Não, não era de saudades que o Tico gemia às vezes. Ele percebia o canto de algum gavião voando por perto. E sua memória antiga, herdada, disparava o alarme. Ao contrário do canto, ele já nascera com esse instinto, o medo dos predadores do céu. Era algo que não precisava aprender ou imitar.
Logo conseguimos uma gaiola para ele, e todos torcíamos para que sobrevivesse, meu avô alimentando-o, e eu e minha avó bulindo com ele, cercando-o do carinho de que precisava para compensar a falta dos pais. Não somente sobreviveu o meu amiguinho, como tornou-se um belo espécime de pássaro, em plena cor pardo-acinzentada.
Tico foi o melhor presente que me lembro de haver recebido naquela época. Porém, não cantava como os outros sabiás do sítio do tio Raimundo. Emitia uns sons que mais pareciam um assovio monocórdio ao passo que os outros sabiás cantavam uma alegre, rica melodia, voando soltos pelos laranjais. Tio Raimundo explicou-me, então, que os filhotes de sabiás aprendem a cantar com os pais e os adultos de seu bando, necessitando de convívio, de um modelo que possam imitar. Prometeu, então, trazer um CD gravado com cantos de vários sabiás para que o Tico pudesse ouvir e aprender.
Eu imaginava que ele se comportava daquela maneira por sentir uma espécie de saudade, uma falta de seus pais e companheiros de liberdade. Até que um belo dia descobrimos o motivo de sua aflição. Foi em um domingo, quase na hora do almoço. Vovó estava conversando com uma vizinha na rua e eu em meu quarto jogando vídeo game. De repente, escutei um tremendo alvoroço no quintal. Corri para lá em sobressaltos, chegando a tempo de impedir uma tragédia. Um gavião tentava agarrar o Tico pelas grades da gaiola. Felizmente o vilão, assustado, foi embora antes de conseguir seu intento .
Não, não era de saudades que o Tico gemia às vezes. Ele percebia o canto de algum gavião voando por perto. E sua memória antiga, herdada, disparava o alarme. Ao contrário do canto, ele já nascera com esse instinto, o medo dos predadores do céu. Era algo que não precisava aprender ou imitar.
(F. Campanella, 08 de Junho de 1995)
foto por Fernando Campanella
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