" Minha carroça, seu moço, é o que levo da vida / corro o mundo pela beirada, / ali meu cavalo é o vento, a poeira que me levanta da estrada."(F. Campanella)
Seu Jorge se achega, vindo do nada, da névoa de seus cento e um anos, que lhe impingiu uma catarata nos olhos. Uma relíquia, um esperto fantasma que puxa prosa comigo. Estou de visita, lhe digo, não sou daqui - mas pra que explicação? O homem firma espaço de mansinho, fala da idade avançada, da esposa que já partiu e não lhe deixou filhos, e da ‘mulherzinha’ que mantém em casa, sua única companhia: um radio de pilha onde ouve músicas de seu tempo.
Seu Jorge almeja, na verdade, uns trocados, eu sei: para quantos se orgulhará da longevidade? Quantos não ouvirão seus ‘causos’, seu passado quase se confundindo com memórias ouvidas da Estrada Real, antiga rota do ouro de Minas, e suas próprias lembranças das grandes matas que então havia? Mas é ele quem me paga com o veludo da sua oratória , o encanto da voz, com os relatos da catarata avançada e da descrença que traz dos doutores - minha pouca visão, meu filho, abro com a bênção das águas desta cidade.
Dou umas moedas então ao homem e ele me diz que sou alma boa, que vai rezar por minha saúde. As contribuições dos turistas do balneário complementam a renda da pensão que recebe, ajudando nos duzentos ‘mirréis’ do aluguel e em outras despesas da casa. Vai comprar uma abóbora madura e pão com o dinheirinho arrecadado, não sem antes fazer uma ablução diante da imagem de Nossa Senhora da Saúde ali no parque. Acima das águas, só ela pra lhe deixar mais firmes os olhos e a articulação. Enfatiza que nunca fumou nem bebeu e que o Divino Espírito Santo é seu companheiro no prolongado obscurecimento dos dias.
O avôzão passa-me, assim, uma boa lábia, na captura de mais um turista atento, derramando lições já ouvidas , reouvidas, de que da vida nada se leva, nada permanece. Mas vindas daquele homem centenário, adquirem tais verdades um outro quilate , uma autoridade, por exemplo , de quem abriu um mar , ou de um vaga-lume só com a própria luz a contar. Seu Jorge me lembra um monge urbano, um museu itinerante, um coração que alcançou o sossego. Matreira sabedoria em extinção. Com sua figura, o calcário dos olhos, um intrincado desenho de raízes na face, o homem é um mito que de repente toma corpo , um sopro de um vento, algo, um sino de Minas. Fortaleza na vastidão.
Ao deixar o parque das águas, após nosso breve encontro, despeço-me então de um bruxo – a benção, meu grande pai, até mais ver nas encruzilhadas do mundo. E levo comigo a imagem de uma chama que não teme a cinza, a fagulha dos olhos de um encantador de sereias. Um tempo que tudo viu, o anonimato dos santos, um perdão.
.
Dou umas moedas então ao homem e ele me diz que sou alma boa, que vai rezar por minha saúde. As contribuições dos turistas do balneário complementam a renda da pensão que recebe, ajudando nos duzentos ‘mirréis’ do aluguel e em outras despesas da casa. Vai comprar uma abóbora madura e pão com o dinheirinho arrecadado, não sem antes fazer uma ablução diante da imagem de Nossa Senhora da Saúde ali no parque. Acima das águas, só ela pra lhe deixar mais firmes os olhos e a articulação. Enfatiza que nunca fumou nem bebeu e que o Divino Espírito Santo é seu companheiro no prolongado obscurecimento dos dias.
O avôzão passa-me, assim, uma boa lábia, na captura de mais um turista atento, derramando lições já ouvidas , reouvidas, de que da vida nada se leva, nada permanece. Mas vindas daquele homem centenário, adquirem tais verdades um outro quilate , uma autoridade, por exemplo , de quem abriu um mar , ou de um vaga-lume só com a própria luz a contar. Seu Jorge me lembra um monge urbano, um museu itinerante, um coração que alcançou o sossego. Matreira sabedoria em extinção. Com sua figura, o calcário dos olhos, um intrincado desenho de raízes na face, o homem é um mito que de repente toma corpo , um sopro de um vento, algo, um sino de Minas. Fortaleza na vastidão.
Ao deixar o parque das águas, após nosso breve encontro, despeço-me então de um bruxo – a benção, meu grande pai, até mais ver nas encruzilhadas do mundo. E levo comigo a imagem de uma chama que não teme a cinza, a fagulha dos olhos de um encantador de sereias. Um tempo que tudo viu, o anonimato dos santos, um perdão.
.
F.Campanella, 03 de junho de 2007
foto de Fernando Campanella - Seu Jorge
foto de Fernando Campanella - Seu Jorge
Nenhum comentário:
Postar um comentário