02/11/2008


by Camille Jacob Pissarro

ROSAL DE UM SÓ DIA

Amor, El viento em las vidrieras,
Amor mio!
Federico García Lorca

Desci as longas escadas
para colher-te dormindo
entre ovelhas sossegadas
e campos frescos sorrindo.
Na terra no corpo lindo
era o céu que amanhecia.

Amor, rosal de um só dia,
velho amor!

Desci depressa ofegante
turvando as águas da vida.
Teu corpo claro diante
da estrela se oferecia.
Num canteiro agonizante
bebendo o sangue do dia.

Amor, rosal de um só dia,
doido amor!

No vilarejo esquecido
se outros diziam malícias
orgulhoso envaidecido
eu só pensava carícias
como a ninguém não daria.

Amor, rodal de um só dia,
meigo amor!

Desci as longas escadas
e aos pomares sumarentos
às uvas já decepadas
possuídas pelos ventos
levei a minha ternura
minha cantiga macia.
Tua carne era tão pura
que a própria aurora a queria.

Amor rosal de um só dia,
claro amor!

E os olhos negros pousados
no meu desejo na minha
volúpia de descampados
onde a luz se alucinasse...
Beijei os campos molhados
como quem, madrugadinha,
teu corpo claro beijasse.

Amor, rosal de um só dia,
meu amor!

Alphonsus de G. Filho
In Água do Tempo

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