
Foto de Sandro Andretta
MADRUGADA
Há que deixar no mundo as ervas e a tristeza,
e ao lume de águas o rancor da vida.
Levar conosco mortos o desejo
e o senso de existir que penetrando
além dos lodos sob as águas fundas
hão de ser verdes como a velha esperança
nos prados de amargura já floridos.
Deixar no mundo as árvores erguidas,
e da tremente carne as vãs cavernas
aos outros destinadas e às montanhas
que a neve cobrirá da álgida ausência.
Levar conosco em ossos que resistam
não sabemos o quê de paz tranquila.
E ao lume de águas o rancor da vida.
Jorge de Sena
In Versos e Alguma Prosa
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