25/02/2009


by Briton Riviere

A POESIA

Recita "Eu tive um cão", depois "Morrer dormir", ele dizia.
Eu recitava toda poderosa.
'Eh trem!' ele falava, guturando a risada, os olhos
amiudados de emoção, e começava a dele:
"Estrela, tu estrela, quando tarde, tarde, bem tarde,
brilhaste e volveste o teu olhar para o passado,
recordas-te e dirás com saudade: sim, fui mesmo ingrato.
Mas tu lembrarás que a primavera passa e depois volta
e a mocidade passa e não volta mais."
A última palavra, sufocada.O que estava embaçado
eram seus óculos. Ó meu pai, o que me davas então?
Comida que mata a fome e mais outras fomes traz?
Eu hoje faço versos de ingrato ritmo.
Se os ouvires por certo me dirias com estranheza e amor:
'Isso,Delão,isso!'O bastante para eu começar a recompensada:

Agora as boas,pais agora as boas:
"Eu tive um cão," "Estrela, tu estrela".
'Morrer dormir, jamais termina a vida",
jamais,jamais,janais.

Adélia Prado
In Bagagem

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