25/02/2009


by Burne-Jones

UMA ASA DE ANJO
(A Edgar de Godoy da Mata Nachado)

Uma asa de anjo, o carinho inefável
De uma asa de anjo, a corola suspensa,
Riso do orvalho em plena madrugada
Canção que não contém senão saudade,
Uma asa de anjo me inquieta.

Não basta ver o mundo e amar o mundo
Ou adiá-lo por ter em cada instante
A mesma sombra, o mesmo desalento.
É preciso senti-lo além da carne,
No mistério, no sonho, na agonia...

Eis que uma asa me envolveu. O anjo
Passou , de leve. O vento, suspirando,
Colhe o irreal. O corpo se desdobra
Em luzes como em céus. Chove pureza...

Já não me reconheço. Sou a sombra
Que se deitou, chorando,num silêncio
Feito de rios plácidos.Procuro
Me descobrir no mundo asfixiado
E antes me tenho claro e numeroso,
Multiplicado em luzes. Uma asa
Passou de leve sobre a paisagem
E o mundo renovado me parece
Um caminho perdido entre rebanhos,
Água caindo sobre grutas, riso
De uma criança que persegue a luz
E vai, descalça, sobre a terra fresca,
Umedecida ainda da pureza
Inicial...

Alphonsus de Guimaraens Filho
In Nostalgia dos Anjos

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