
by Vera Sabino
CHAVES
As chaves passeiam na cidade grande
distantes
de suas portas e seus destinos
Chaves novas, envelhecidas
chaves esquecidas
dos cofres, casas, coisas
deslembradas dos arquivos órfãos
e das salas
Chaves estranhas
desconhecidas
chaves inúteis
inertes
Chaves sentidas
carentes da mão acolhedora
mão mestra
da chave mestra
Chaves lembradas
procuradas
chaves presentes
doídas
não abrem corações
nem almas
ou libertam fechados pensamentos
Chaves dos dias passados
das noites quebradas
das despedidas
do eu dividido
Chaves escondidas
não voltarão
não girarão os segredos
não abrirão caminhos de esperança
não selarão os gestos
de tranquilidade
não protegerão documentos
nem velarão o sono da família
Chaves inúteis
não significarão a partida
nem anunciarão a chegada
Chaves do adeus
semeados na rua
não darão flores
perdidas
no mistério do táxi amarelo
ou do meio-fio
ou do canteiro
ou do esgoto
no rumo das coisas
que voltam mais.
Mauro Salles
In O Gesto
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