04/06/2010


by Vera Sabino

CHAVES

As chaves passeiam na cidade grande
distantes
de suas portas e seus destinos

Chaves novas, envelhecidas
chaves esquecidas
dos cofres, casas, coisas
deslembradas dos arquivos órfãos
e das salas

Chaves estranhas
desconhecidas
chaves inúteis
inertes

Chaves sentidas
carentes da mão acolhedora
mão mestra
da chave mestra

Chaves lembradas
procuradas
chaves presentes
doídas
não abrem corações
nem almas
ou libertam fechados pensamentos

Chaves dos dias passados
das noites quebradas
das despedidas
do eu dividido

Chaves escondidas
não voltarão
não girarão os segredos
não abrirão caminhos de esperança
não selarão os gestos
de tranquilidade
não protegerão documentos
nem velarão o sono da família

Chaves inúteis
não significarão a partida
nem anunciarão a chegada

Chaves do adeus
semeados na rua
não darão flores
perdidas
no mistério do táxi amarelo
ou do meio-fio
ou do canteiro
ou do esgoto
no rumo das coisas
que voltam mais.

Mauro Salles
In O Gesto

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