28/01/2012

MADRIGAL ESCRITO NO INVERNO


No fundo do mar profundo,
na noite de longas riscas,
como um cavalo cruza correndo
o teu calado calado nome.

Aloja-me em tuas costas, ai, refugia-me,
aparece-me no teu espelho, de repente,
sobre a folha solitária, noturna,
brotando do escuro, atrás de ti.

Flor de doce luz completa,
socorre-me a tua boca de beijos,
violenta de separações,
determinada e fina boca.

Afinal, no longe do longe,
de olvido a olvido residem comigo
os trilhos , o grito da chuva:
o que a escura noite preserva.

Acolhe-me na tarde de linho,
quando ao anoitecer trabalha
o seu vestuário e palpita no céu
uma estrela cheia de vento.

Chega-me a tua ausência até o fundo,
pesadamente, tapando-te os olhos,
cruza-me a tua existência, supondo
que o meu coração está destruído.

Pablo Neruda
In Residência na Terra - I
foto por @Doug88888  
Tradução Paulo Mendes Campos

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