10/06/2012

O INVERNO FERE O OUTONO



I

Ao vento
               dança
a romãzeira. É o inverno
que ignora tratados e fere o outono em pleno
maio.
                Atormentada,
ela fustiga-me a memória com seus galhos,
frutos e flores. Com
seu delírio.
                     Chora
sobre o chão
folhas que o vento dispersa.
                                              E eu sou
uma sombra
                    pequenina
à sombra
de outros galhos
                           frutos
                                      flores
e respiro
frio hálito de dezembro.

II

Com seu delírio
viajo. Os anos chovem
das nuvens pesadas
de ira. Há poeira no ar
vindo
dos quintais, da praça
sem calçamento.
                            Há pó
nos meus cabelos,
olhos e boca.
                    A mão recolhe uma vara,
o fruto cai, se parte. A vida
é simples
e sumarenta. Os muros
me conhecem, me observam
com seus rostos gretados.
                                        Um dia
partirei
no denso rubro pó da rodovia
e eles ficarão
comigo
com seus rostos feridos
                                    às  vezes úmidos,
para sempre.

III

Tomo
o calor de tua mão
                            e te  conduzo
junto aos muros leprosos,
                                          através
das  árvores inquietas de sanhaços
e te digo
o que nunca te disse,
o que
em mim rugia silencioso,
e te beijo e canto
                            uma canção
de
virgens abandonadas, cavaleiros mortos;
enquanto girassóis velam
por nós
nesse campo de lenda que me canto,
ao calor
de tua mão jamais por mim
tocada.

IV

                E desperto.
                                O inverno apaga as luzes
da tarde. Aquela estrela
me punge
de ti,
          ó desaparecida, ó
irmã
dos ramos torturados!
                                   E
é noite, noite, tudo de noite.
                                              Fecho
de novo os olhos
                           e sorrio
em ruínas
para os anjos finais.

Ruy Espinheira Filho
In A Canção de Beatriz e Outros Poemas

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