I
Com essas mesmas palavras
vejo a varanda secando
suas penugens ao sol. Vejo ainda
quanto é inútil o ser e o não-ser:
Minha perplexidade desiste de tudo
e mastiga violentamente
os primeiros sons
da
manhã.
II
Retorno da natureza
esta branca nostalgia.
Viajo pela matéria
de braços com satanás:
Ó anjo anunciador, levai-me ao passado
onde desmancharei a vida futura,
onde serei sinistro como
o coito
dos girassóis.
III
Com essas mesmas palavras
dirijo a revolta dos deuses.
Aqui plantei um violino,
refiz donzelas, dei de beber aos planetas.
Ó realidade,
há séculos eu te procuro!
Nas regiões do dia e da noite
sou uma lâmina que respira.
O tempo amordaçado
me espera.
IV
Quero a palavra que traduza
a medicina dos anjos,
a virgindade anterior ao pensamento.
Quero a nuvem que habita,
não
sua forma profanada.
Desta pirâmide
assistirei o absoluto desfolhar-se
como as grinaldas da tarde.
V
Minha morada é o silêncio.
Esta notícia que levo
já não diz que houve lutas
entre o bem e o mal.
Sete trombetas proclamaram
a união das sementes:
Essas bodas que iniciam
os tempos de danação.
Tanto remorso me engasga.
Adeus, mundo, eu não sou daqui.
Rio, 1966
Cacaso
In A palavra Cerzida
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