05/10/2014

PASSEIO NO FIM DO OUTONO


Chuva de outono esgravatou o bosque cinza,
ao vento da manhã o vale tem arrepios de frio,
caem do castanheiro os duros frutos
e racham-se e gargalham úmidos e pardos.

O outono tem esgravatado minha vida,
o vento puxa as folhas em frangalhos,
sacode galho por galho: onde está o fruto?

Dei flor de amor, o fruto foi de dor.
Dei flor de fé, o fruto foi de ódio.
O vento me repuxa os galhos secos:
rio-me dele e ainda resisto aos temporais.

Para mim, o que é fruto? O que é meta? - Eu dei flor,
e minha meta era florir.Agora eu murcho,
e minha meta é murchar: nada mais.
Escassas metas se propõe o coração...

Deus vive em mim, Deus morre em mim, Deus pena
no peito meu: para mim, é meta bastante.
Caminho e descaminho, flor ou fruto,
é tudo a mesma coisa: palavra apenas.

Ao vento da manhã o vale tem arrepios de frio,
caem do castanheiro os duros frutos
a rir em alto e bom som. E eu, com eles, me rio.

Hermann Hesse
In Andares
Tradução Geir Campos 

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