05/12/2010

AMOR? CUIDADO!



Não cuides, não, que o amor te faz melhor:
no teu jeito de ser, de ver a vida
e sobretudo no de conviver
com quem te faz nascer, ai, como é fácil,
a grande aurora desse sortilégio.

Amor é só a semente que caiu
inesperada no teu chão. Quem sabe
o que achar vai nas sombras do teu peito,
morada de contradições? Não nasce
a flor, meigo milagre, em terra dura
que não sabe guardar o dom do orvalho.
Até pode vingar, mas será flor
fechada para a luz e cuja seiva
não chama o coração da mariposa.

A semente do amor pede o aconchego
do teu ser inteiriço, não apenas
do teu candor, do teu cântico doce,
do teu cântaro farto, teu encanto.
Ela quer ( e o fruto que se sonha
dentro dela) também o que te mancha,
teu sonso desagrado de entregar
e o áspero pó da tua indiferença.

Cuida bem dela, para que apodreça
a água suja empoçada em teu porão,
o diamante de espinhos invisíveis
- e tudo em rico estrume transformado
possa urdir na semente o amanhecer
não só da flor, mas  do teu próprio ser,
capaz de bem saber o bem de amar.

Thiago de Mello
In O Estatuto do Homem
foto de Suzannes_Images no Flickr

Um comentário:

Priscilla Marx disse...

Amo esse poema! Obrigada por postar! =)