30/03/2010


foto by Claudio Marcon

JARDIM TROPICAL

Monjas lunares os lírios rezam de mãos postas
pelos cravos degolados
cujas cabeças estão içadas nos chuços das
hastes escorrendo o sangue das pétalas.
Corusca a lâmina jalde do grande sol carrasco
entre a guarda régia
dos girassóis guerreiros escamados de ouro.

Fremem ao vento os paveses de ouro.

As papoulas roxas com seus pluviais de seda
são graves arcebispos inquisidores.

A plebe miúda e bulhenta das madressilvas
apinha-se em todos os galhos
para espiar o sacrifício cruento.

E contra o monstruoso atentado
apenas se ergue na sombra
timidamente
o protesto aromal das violetas.

Menotti Del Picchia
In Entardecer

foto by kaycatt*

Meu coração se perde de carinho
Por ti, ó pássaro oculto na noite!
Tua voz pressaga é também uma elegia
Sem mistério; a morte de todas as coisas.

Vive no teu soluço de amor, mas o teu canto
É na realidade consolo e contentamento.

As palavras que antes escutei
Eram apenas música e traziam esquecimento
Tu me levas à poesia, ave pousada na treva.

Vinícius de Moraes
In Jardim Noturno

29/03/2010


foto by kaycatt*

aqui não há folhas no chão
outono é uma esperança que não chega
como amigos
mas o frio me agasalha de noite
uma vodca
(moscou não acredita em lágrimas
diz o filme)

danço pela calçada com as estrelas
imagino pares
partes do continente
em mim

o jeito é lembrar
uma música do pat metheny
chile 1970
esperar amigos de outono
juntar as folhas

Renato Tapado
In Poemas Para Quem Caminha

foto by Galeria de kaycatt

Nós perdemos também este crepúsculo.
Ninguém nos viu à tarde com as mãos unidas
enquanto a noite azul caía sobre o mundo.

Vi, de minha janela,
a festa do poente nos montes distantes.

Às vezes, qual moeda,
acendia-se um pouco de sol em minhas mãos.

Eu te recordava com a alma apertada
por essa tristeza que conheces em mim.

Então, onde estarias?
Junto a que gente?
Dizendo que palavras?
Por que me há de vir todo este amor de um golpe
quando me sinto triste e te sinto distante?

Caiu-me o livro que sempre se escolhe ao crepúsculo,
e como um cão ferido rolou-me aos pés a capa.

Sempre, sempre te afastas pela tarde
até onde o crepúsculo corre apagando estátuas.

Pablo Neruda
In Vinte Poemas de Amor

foto by kaycatt

Recordo-te como eras no derradeiro outono.
Eras boina gris e o coração em calma.
Nos teus olhos lutavam as chamas do crepúsculo,
E caíam as folhas em água de tua alma.

Aos meus braços colada qual uma trepadeira,
as folhas recolhiam tua voz úmida e em calma.
Oh fogueira de pasmo em que ardeu minha sede.
Doce jacinto azul torcido na minha alma.

Sinto o viajar dos olhos teus e é longe o outono:
boina gris,voz de pássaro e coração de casa,
para onde emigravam meus profundos anseios
e caíam meus beijos alegres como brasas.

Céu, visto de um navio. Campo, visto do monte,
Tua lembrança é de luz, de fumo e lago em calma!
No fundo de teus olhos ardiam os crepúsculos.
Folhas secas de outono giravam na tua alma.

Pablo Neruda
In Vinte Poemas de Amor

28/03/2010


Foto by Benny Sølz

QUANDO EU ESTAVA

"Quando eu estava te esperando,
sentia muita vontade
de comer terra;
arrancava pedacinhos
de adobe das paredes
e comia"

Esta confissão de minha mãe
despedaçou meu coração.
Mamei leite de barro,
por isso minha pele
é cor de barro.

Humberto Ak'abal

Galeria de Osman Said

AQUELA GOTA D'ÁGUA

Aquela gota
que se desprendia do teto
da minha infância
a única que ficava
depois da chuva

continua pingando
na minha memória.

Humberto Ak'abal

foto by zeke dea

A LUA

A lua
triste na sua solidão,
a despeito de viver
entre as estrelas,
balangando no céu,
deseja
desesperadamente
estar na Terra.
Se deita no fundo
de qualquer poça.

Humberto Ak'abal

foto by marcia.piva

A IDADE

Falou e disse um pássaro
dois sóis, uma pequena estrela.
Falou para que calássemos
e disse amor, penúria,brevidade.
E disse disse disse
a idade da eternidade.

Carlos Nejar
In Melhores Poemas

foto by giselle azevedo

Na grama cortada
os passarinhos atentos
procuram manjar.

Delores Pires

foto by kaycatt*

Fugindo do galho
folha seca circulando
suspensa nos ares.

Delores Pires
in Pétalas de Ipê

by CaptPiper

XIV

É preciso partir da manhã
para o escuro de Deus.
Das coisas
para as coisas.

Pisar na dor
para o equilíbrio
da terra e os frutos.

É preciso amar sempre
e de novo.
Que os pensamentos voam raso,
embaixo das estrelas.
Não há religião ou ambição
nas profundezas.

Quem ama
corre o risco.

Carlos Nejar
In Melhores Poemas

foto by CaptPiper

O FUTURO DOS CORPOS

Quando não tivermos
mais nenhum desejo
ficaremos juntos
onde estiver Deus

no desfiladeiro
que saqueia as almas
e devolve aos corpos
a nudez final.

Quando apenas formos
o sopro do vento
e a pureza da água

a nossa união
resplandecerá
no céu libertado.

Lêdo Ivo
In Crepúsculo Civil

27/03/2010


Galeria de CaptPiper

CONSELHO

Esconde a tua vida.
Guarda o teu segredo.
Tudo, neste mundo,
é engano cego e ledo.

De manhã é noite.
Mesmo à tarde é cedo.
A vida é meandro
sem qualquer enredo.

A ninguém confesses
teu amor ou medo,
teu sonho acordado.

Sê um caracol
fechado em si mesmo
na manhã de sol.

Lêdo Ivo
In Crepúsculo Civil

foto by CaptPiper

OS DIAS DIVIDIDOS

Após o meio-dia, vem a noite
e, brandindo uma foice, vem a morte.
E uma constelação pousa na página
da via-láctea prometida à fábula.

Após a noite os corpos se levantam
e avançam rumo ao páramo da tarde
e os guia o sol que os cega no caminho
que bebe a sombra da alma perdulária.

E assim a vida passa: sucessão
de dias divididos, estandarte
que freme no alto mastro do navio.

As estrelas caídas ressuscitam
e a noite e a morte gêmeas se separam
e se mudam em sol, amor e vida.

Lêdo Ivo
In Crepúsculo Civil

mixpraladebacana.blogspot

Doce encantamento:
o mundo, o carinho, a paz
cabem num abraço.

Delores Pires
in Vôo


RECLAME

Se o mundo não vai bem
a seus olhos, use lentes
...ou transforme o mundo.

ótica olho vivo
agradece a preferência

Chacal

26/03/2010


by Pierre Auguste Renoir

FLUTUAÇÕES

O sonho aprendeu a pairar bem alto,
lá onde o sobressalto nem sequer nasceu,
Namorou a trôpega ilusão,
até que, trêfego e desajeitado,
desprendeu-se de seu reino idealizado,
veio pousar tamborilante em minha mão.
Assim,aquecido e aconchegado,
parece que se esqueceu de ir embora.
Na hora em que ressona distraído,
eu lhe pingo malemolências ao ouvido,
à sua inquietação eu me sujeito.
Eis que o sonho dorme agora aqui comigo,
seu corpo repousando no meu peito.

Flora Figueiredo
In Amor a Céu Aberto

by Pierre Auguste Renoir

O SILÊNCIO

Peço apenas o teu silêncio,
como uma criança pede uma flor
ou um velho pedinte um bocado de pão.
Um silêncio
onde a tua alma se embrulha, friorenta,
trémula, à aproximação das invernias.
Um silêncio com ressônancias de antigas primaveras
de outonos descoloridos
e de chuva a cair no negrume da noite.

- Vá, motorista de taxi,
transporte-me
através das ruas da cidade inextricável,
vertiginosamente,
buzinando, buzinando,
abafando o ruído de um outro silêncio!

Saul Dias
In Essência

Ragazze in riva al mare, 1894 by Pierre Auguste Renoir

OS RELÓGIOS

um amigo pode salvar o mundo
a rota perdida de um sonho
com seus gestos bailarinos
mãos de unguento e unicórnio

um amigo pode atravessar a pele
a dura estrada da pele
dura como um carvalho
e tocar de leve na alma
como se toca uma planta rara
como se toca o inesperado
no meio do vale

um amigo pode para os relógios
na hora do medo

Roseana Murray
In Paredes Vazadas

24/03/2010


Mensch und Vogel by Joan Miro

Sonhei com um general de ombros largos
que rangia
e que no sonho me apontava a poesia
enquanto um pássaro pensava suas penas
e já sem resitência resistia.
O general acordou e eu que sonhava
face a face deslizei à dura via:
vi seus olhos que tremiam, ombros largos,
vi seu queixo modelado a esquadria
vi que o tempo galopando evaporava
(deu pra ver qual a sua dinastia)
mas em tempo fixei no firmamento
esta imagem que rebenta em ponta fria:
poesia, esta química perversa,
este arco que revela e me repõe
nestes tempos de alquimia.

Cacaso

Leute und Hund by Joan Miro

VENTO

Grafar uma música
é como querer
fotografar o vento

a música existe no tempo
a grafia existe no espaço
o vento no vento

Chacal

23/03/2010




















É PRECISO AMAR

Sim...É preciso amar algo nesta vida
com a convicção e o ardor de um crente,
um amor todo feito de ternuras
sem sombras profanas e irreverentes...

Amar o sol, as flores, as estrelas,
o mar, a imensidão e a humanidade,
encher tudo de paz e de bondade
e as almas, uma a uma acendê-las,
para que o mundo tenha claridade.

Amar o próprio chão, a natureza,
e todo o fulgor da beleza sempiterna;
levar o coração como tocha acesa
e encher tudo de luz e cores
como de flores enche a terra a primavera.

Amar!...Amar e se extinguir no amor
como um símbolo Daquele que no calvário
fez uma canção de sua dor
e da cruz do amor fez um sacrário!...

Sim!... É preciso amar constantemente;
o coração que ama assim não tem idade:
ele vai de leve, bem suavemente
atingindo a meta - a sua divindade!...

Zoraida H. Guimarães
In Semeadura
foto by Jem G.

22/03/2010


by Claude Monet

CARAVANA

poesia é arrumar o cotidiano
com alegria feroz
abrir as janelas para o sol entrar
feito caravana
poesia é arrumar o cotidiano
é fazer a cama
recolhendo nas mãos
os pedaços esparsos da noite
que porventura ficaram
esquecidos atrás dos móveis
poesia é arrumar o cotidiano
encher os cântaros com água fresca
até a borda
e trocar os panos gastos
por outros panos
poesia é refazer o mundo
cada dia.

Roseana Murray
In Paredes Vazadas

Mont Saint Victoire, 1900 by Paul Cezanne

TRANCOS,PLANÍCIES E BARRANCOS

Terrenos acidentados e planos
vêm escrevendo a minha história.
Alguns danos sei de cor,
outros, a memória jogou fora.
Dos sucessos, guardo agora
fitas,flores e fatos,
sorrisos no porta-retratos,
um rosto suando conquista.
(Página dupla pra qualquer revista.)
Envelheço em todo fevereiro,
que prefiro receber de frente,
que costumo sentir de corpo inteiro.
Quando chegar minha data final,
que se transcreva exatamente igual
em minha cripta:
"Intensamente, amou e viveu.
Felizmente não morreu invicta."

Flora Figueiredo
In Amor a Céu Aberto

La Promenade (Argenteuil) by Claude Monet

DESAFIO

De que vale esse abandono
se não conduzimos o tempo
nem as forças das paixões?
De que vale essa firmeza
se não prevemos vontades
nem dispomos dos dias que vão ser?
Destino
Futuro
Amanhã
tudo é desafio
a que não fogem os homens
os ventos
e amores que julgamos eternos

Mauro Salles
In O Gesto

21/03/2010


foto by http://atoouefeito.com.br/site

SONETO DE LUCIANO


Seu olhar se fechou para este mundo
Para a Branca de Neve e os 7 anões
Para as estrelas, para os pássaros cativos
Para o mar azul e as montanhas e os céus.

Seu olhar se fechou para as florestas
Onde há tigres e leões na noite escura
Para os campos em flor e para as mansas
Ovelhas do Senhor, quietas e humildes.

Seu olhar se fechou e a noite veio
E envolveu o seu corpo pequenino,
Tão mal coberto para tanto frio

E ele se foi, com seu olhar inquieto
Cheio de assombração e de segredos
A procura, talvez, de outros brinquedos.

Augusto Frederico Schmidt
In Mar Desconhecido

Foto de Rafa,ela. no Flickr

GRAFITE

Não seremos marido e mulher,
nem mesmo amantes.
Que tal apenas namorados intermitentes,
docemente nos amando, intinerantes?
Trocaremos afagos, quando o dia adormecer,
na encruzilhada;
deixarei em você meus cheiros de mulher.
Lançaremos olhares disfarçados,
que certamente passarão despercebidos,
pois namorados são de Deus os protegidos.
Quando nossas mãos roçarem-se furtivas,
vão insinuar desejos abafados,
pelas regras da vida censurados,
mas que sãos flores no canteiro, sempre - vivas.
Ao nos encontrarmos pela tarde rua acima,
lá onde a mangueira domina a rotatória,
assinarei um verso sublimado
a grafitar nossa parede divisória.

Flora Figueiredo

Galeria de natureluv

O VENTO E A CANÇÃO

para Tania Franco Carvalho

Só o vento é que sabe versejar:
Tem um verso a fluir que é como um rio de ar.

E onde a qualquer momento podes embarcar:
O que ele está cantando é sempre o teu cantar.

Seu grito é o grito que querias dar,
É ele a dança que ias tu dançar.

E, se acaso quisesses te matar,
Te ensinava cantigas de esquecer

Te ensinava cantigas de embalar...
E só um segredo ele vem te dizer...

- é o que o voo do poema não pode parar.

Mario Quintana
In 80 Anos de Poesia

Autumn by Diane Romanello

A folha à janela
carregada pelo vento
anuncia o outono.

Delores Pires — Garoa de Outono

Cosmic Dancer by Tom Conway

CIRCO CLANDESTINO

Às vezes eu virava
a primeira bailarina,
e dançar debaixo da lona
com sapatilhas de prata
era como acender cristais
numa noite muito escura,
e ia voando,tocando estrelas,
domando as nuvens,
rodando o mundo,
no meu circo clandestino.

Roseana Murray
In Recados de Corpo e Alma

Purple Orchid by Assaf Frank

SORTILÉGIOS

Caminho sobre o fio
dos telhados ao entardecer,
quando a luz é substância
de sonhos
e tinge o coração de orquídeas.

Caminho e sussuro
sortilégios,
toco invisíveis borboletas
e, no minuto exato
em que o sol se desfaz
e uma lua líquida
levanta suas âncoras,
tuas mãos me alcançam.

Roseana Murray
In Recados de Corpo e Alma

20/03/2010


1872 by Dante Gabriel Rossetti

POEMA DE AMOR

que minha passagem pela tua vida
não seja leve
ou indelével.

é preciso que seja funda
e as marcas
como cicatrizes de guerra.

que não seja um amor de circunstância
ou apenas lembranças agradáveis
de alguns momentos de pureza.

quero te dar um destino irrecuperável:
não a embriaguez momentânea
mas o vício permanente.

que sejas, depois de mim, outra mulher
um ser marcado
e massacrado
por um amor contínuo
e que seja em ti bênção e uma angústia.

tentacular,
serei não apenas o dia de sol
mas também as noites de inverno
e as luzes sufocantes de verão.

passarei e talvez me esqueças
mas te deixarei pesadelos e alucinações
e, passada a noite, uma aurora de plenitude.

lembrarás as palavras de ternura
mas também os estertores e as asperezas
e esta minha dureza semilíquida
de cactos e flor mineral.

e te farei ter saudade e angústia de tudo
que eu disse e não disse,
que fiz e não tive coragem de fazer.

serás reconhecida como um mapa
de uma terra distante
que apenas um explorador de fato
circunscreveu e disse
os acidentes e os sonhos líquidos.

e sobretudo te sentirás incorporada
a um mistério que não saberás explicar,
um desejo brutal e a ternura estelar
compostos na cosmogonia
de ser o que pensavas e o que temias
dentro da absurda realidade
de amar e ser amada
sem qualquer razão e sem qualquer sentido
que não sejam estes
da permanência na imortalidade.

Álvaro Pacheco
In A Balada & Outros Poemas

Red Rose Duo by Maria Mosolova

INSTANTE

Se havia o que testar, já foi provado
nos mistérios do amor:
o fado, o feito
o solo, o duo, o trio,
a frente e o verso
o inusitado
o fogo e o fátuo, o achado e o perdido
o curto e o longo, o certo, o errado
o gozo, o gasto e o consumido.

Se o amor tudo foi visto
em plenitude
e decifrado o jogo
e o não jogado
de onde então a carência a este vazio
nos caminhos de tardes como esta?

Na beira da calçada ao mar do leme
o gesto não completo, o olhar, o poema
e a voz que diz e cala sem promessas
( certeza de que a busca vale a pena)

Mauro Salles
In Gestos

Trees in forest at Autumn by Assaf Frank

OUTONO

Estação das névoas e da plena fecundidade,
amiga íntima do sol que amadurece;
e com quem tramas benzer e carregar
de frutos as vinhas que rodeiam os beirais de palha.


John Keats

15/03/2010


An Autumn Afternoon by Robert Herdman

OBSTINAÇÃO

Vou em silêncio
plantando minhas sementes
nas pedras rubras da estrada
nos ventos ocres do outono
nos olhos céu da manhã.

Sei que alguém me ouvirá

Álvaro Pacheco
In Balada & Outros Poemas

by natureluv

PRECEITO

Poeta, nunca deixes crescer em ti o silêncio ou a morte
nem tua alma, nem os homens te pedem silêncio
nem silêncio de gestos
nem silêncio de gritos,
teu destino é maior.

Mergulha em teu ser e busca lá no fundo
e dá aos que esperam seja lá o que for.

Dá-lhes mesmo um peixe vermelho ou uma borboleta azul.

Álvaro Pacheco
In A Balada & Outros Poemas

14/03/2010


1868 by Dante Gabriel Rossetti

SEDUÇÃO

A poesia me pega com a sua roda dentada,
me força a escutar imóvel
o seu discurso esdrúxulo.
Me abraça detrás do muro, levanta
a saia pra eu ver, amorosa e doida.
Acontece a má coisa, eu lhe digo,
também sou filho de Deus,
me deixa desesperar.
Ela responde passando
língua quente em meu pescoço,
fala pau pra me acalmar,
fala pedra, geometria,
se descuida e fica meiga,
aproveito pra me safar.
Eu corro ela corre mais,
eu grito ela grita mais forte.
Me pega a ponta do pé
e vem até na cabeça,
fazendo sulcos profundos.
É de ferro a roda dentada dela.

Adélia Prado
In Bagagem

Foto by natureluv

GUIA

A poesia me salvará.
Falo constrangida, porque só Jesus
Cristo é o Salvador, conforme escreveu
um homem - sem coação alguma -
atrás de um crucifixo que trouxe de lembrança
de Congonhas do Campo.
No entanto,a poesia me salvará.
Por ela entendo a paixão
que Ele teve por nós, morrendo na cruz.
Ele me salvará, porque o roxo
das flores debruçado na cerca
perdoa a moça do seu feio corpo.
Nela a Virgem Maria e os santos consentem
no meu caminho apócrifo de entender a palavra
pelo seu reverso, captar a mensagem
pelo arauto, conforme sejam suas mãos e olhos.
Ela me salvará.Não falo aos quatro ventos,
porque temo os doutores, a excomunhão
e o escândalo dos fracos. A Deus não temo.
Que outra coisa ela é senão Sua face atingida
da brutalidade das coisas?

Adélia Prado
In Bagagem

foto by natureluv

DESEJO

Para bebê, colo de mãe.Para mãe,
riso de filho.Para cabelos, vento.
Para chuva, parabrisa. Para brisa,
rede.Para olhos,paraísos.Para
isolados,visita.Para visita,atenção.
Para teimosia,não.Para adolescente,
chão.Para adulto, ser criança.Para
sobreviver,trabalho.Para trabalho,
pagamento.Para pobreza,justiça.Para
cima,elevador.Para baixo, tobogã.
Para casados,liberdade.Para solteiros,
companhia.Para companhia,uma boa pessoa.
Para pessoas em geral,alegria.
Para coisas,nomes.Para menina,cor
de rosa.Para flor, um regador.Para dor
anestesia.Para prazer,suspiros.
Para as mãos,apertos.Para os pés,
descanso.Para o cansaço,sono.Para
mertiolate,sopro.Para agonia,calma.
Para a alma,céu.Para o corpo,outro.
Para a boca,beijo.
E comida para todos.

Adriana Falcão
In Pequeno dicionário de Palavras ao Vento

Fantástica a galeria de fotos de natureluv,
vale a pena conferir!
http://www.flickr.com/photos/stanzim/

CONTABILIDADE

Viver é perder a vida.
Mais estou vivo e mais perco.
Na minha vida perdida
quanto mais ganho mais devo.

Quanto mais estou vivendo
mais cresce o meu não-viver.
À sombra do que estou sendo
mais vou deixando de ser.

Cada vez sou menos mais
e sou mais menos na conta
de somar que me subtrai.

Morrer é perder a morte?
No recorte das montanhas
o crespúsculo desponta.

Lêdo Ivo
In Crepúsculo Civil

foto by natureluv no Flickr

RESPIRAÇÃO

Não minto nem digo a verdade
Sou como o vento que sopra
e a chuva que cai.
Sou a luz que ao anoitecer
devolve claridade.

Sou como as escadarias
que aparecem nos sonhos:
um clarão entre degraus,
uma sombra entre dois passos,
uma nuvem esbraseada.

Sou como a erva que cresce
e o frio que une os corpos.
Não falo nem silencio.
Desperto para sonhar.
Não respondo nem interrogo.

Apenas respiro
junto ao dia que nasce.

Lêdo Ivo
In Crepusculo Civil

Pintura de Hermann Hesse

CITAÇÕES DE HERMANN HESSE

"Nada posso lhe oferecer que não exista em você mesmo. Não posso abrir-lhe outro mundo além daquele que há em sua própria alma. Nada posso lhe dar, a não ser a oportunidade, o impulso, a chave. Eu o ajudarei a tornar visível o seu próprio mundo, e isso é tudo."

"Quem quiser nascer tem que destruir um mundo; destruir no sentido de romper com o passado e as tradições já mortas, de desvincular-se do meio excessivamente cômodo e seguro da infância para a conseqüente dolorosa busca da própria razão do existir: ser é ousar ser." (Demian)

- Ao lidar com malucos, a melhor coisa que podemos fazer é fingir que somos sãos.

"O acaso não existe. Quando alguém encontra algo de que verdadeiramente necessita, não é o acaso que tal proporciona, mas a própria pessoa; seu próprio desejo e sua própria necessidade o conduzem a isso. (Demian)

"Toda pessoa humana é digna de ser amada, tão logo comece realmente a falar-nos."

"Intolerante deveria o homem ser, segundo penso, apenas para consigo mesmo, não para com os outros ."

"Tudo quanto não for por nós levado até ao fim, tudo quanto não tiver uma solução completa, um dia ou outro retornará."

"A cultura humana surge graças ao enobrecimento dos instintos animais transformados em ânsias espirituais, através da vergonha, da fantasia, do conhecimento ."

"Quanto menos tivermos medo de nossa própria fantasia, que na vigília e no sonho nos faz criminosos e animais, tanto menor é o perigo de, na verdade, sucumbirmos a este mal."

"As verdadeiras virtudes sempre incomodam e provocam ódio."

"Não devemos fugir da vida ativa para nos refugiar na contemplativa. Nem vice-versa. Antes, devemos oscilar entre uma e outra, sentir-nos em ambas como em casa, compartilhar de ambas."

"Um dia ou outro, todos têm de dar o passo que os separa de seus pais, de seus mestres. Cada um de nós precisa provar da aridez da solidão, embora a maioria dos homens mal a possa suportar e, tão logo a saboreiam, voltam a rastejar."

'Sofremos o amor, mas quanto mais generosamente o sofremos, mais fortes ele nos faz."

"Sabemos todos, por experiência, quão fácil é nos apaixonar e quão difícil e belo é amarmos realmente. Como todos os valores reais, não se pode vender o amor. Há prazeres que se vendem; o amor, não."

"Os artistas e os poetas são, com freqüência, amantes apaixonados, mas raramente bons maridos. É que o artista vive antes de tudo para sua obra. O amor que lhe resta para dar aos outros é, antes, bastante escasso, visto o muito que dele exige a dedicação ao trabalho artístico."

"O mal surge sempre lá onde não chega o amor."

"O que é mais importante em nossa vida, nós o vivemos antes dos nossos quinze anos."

"O macio é mais forte do que o duro. A água, mais forte do que a rocha. O amor, mais forte do que a violência."

"A luta entre operários e capitalistas é uma luta interessante e árdua, se de ambos os lados existe um pouco de boa vontade, se o capitalista, embora rico, for sempre um homem honesto. Já se o capitalista roubou o dinheiro que tem, o problema é inteiramente outro: a luta perde sua motivação cultural e transforma-se num caso de polícia."

"A trajetória de nossa vida pode parecer definitivamente marcada por certas situações. Nossa vida, entretanto, conserva sempre todas as possibilidades de mudança e conversão que estiverem ao nosso alcance. E tais possibilidades são tanto maiores, quanto mais abrigarmos em nós de infância, de gratidão, de capacidade de amar."

by Site Para Ler e Pensar

by feminina.files.wordpress

OCEANO SECRETO

Quando te amo
obedeço às estrelas.
Um número preside
nosso encontro na treva.

Vamos e voltamos
como os dias e as noites
as estações e as marés
a água e a terra.

Amor, respiração
do nosso oceano secreto.

Lêdo Ivo
In Crepúsculo Civil


foto by lh5.ggpht.com

Quero dizer-te uma coisa simples: a tua ausência dói-me.
Refiro-me a essa dor que não magoa, que se limita à alma; mas que não deixa, por isso, de deixar alguns sinais - um peso nos olhos, no lugar da tua imagem, e um vazio nas mãos, como se as suas mãos lhe tivessem roubado o tato. São estas as formas do amor, podia dizer-te; e acrescentar que as coisas simples podem ser complicadas, quando nos damos conta da diferença entre o sonho e a realidade. Porém é o sonho que me traz a sua memória; e a realidade aproxima-me de ti, agora que os dias correm mais depressa, e as palavras ficam presas numa fração de instantes, quando a tua voz me chama de dentro de mim - e me faz responder-te uma coisa simples, como dizer que a tua ausência me dói.

Nuno Júdice

13/03/2010


by Van Gogh

POEMAS DO VENTO

Gastar-me no tempo
diluir-me no vento
evolar-se no sonho
deixando
- haverá quem o colha? -
um resíduo...

Memória.
Levarei por onde ande
uma inquietação mais nada
impulso vital que extingo
dentro de um pouco de lama.

Tal que o vento que baila
fazendo seu corpo efêmero
com a poeira das estradas...

Menotti Del Picchia
In Entardecer

11/03/2010


Venus et les Trois Graces (Detail)
by Sandro Botticelli

MUITO DE MIM

Há um pouco de mim
na ternura esquecida
no sonho das almas
buscando distâncias.
Há um pouco de mim
no vazio da esperança
nos olhos que choram
antigas ausências.
Há um pouco de mim
na espera frustrada
nas horas que fogem
marcando destino.
Há um pouco de mim
no murmúrio das águas
escorrendo cantigas
minando promessas.
Há um pouco de mim
na carícia do vento
despedindo papoulas
queimando rosais.

Há muito de mim
na tristeza dos tristes...

Na angústia do Mundo
há muito de mim!

Lia Corrêa
In Horas Brancas

by Verso e Prosa

MAIS QUINTANARES

"Eu sempre me apaixonei, mas paixão é incompatível com o amor...O apaixonado é ciumento, insuportável...O amor é um sentimento diferente, o amor é vivido a dois, sem conflitos..."

"Sempre que me perguntam por que nunca me casei, respondo com uma piada boba, mas essa piada, às vezes, causa efeito: digo que prefiro ser a esperança de muitas do que a desilusão de uma só..."

"A solidão é uma coisa necessária. É uma coisa do temperamento, não é? Eu não posso ficar muito tempo numa reunião, me dá vontade de sair. De vez em quando sinto necessidade de estar sozinho. Não que a minha companhia seja grande coisa, mas é a necessidade de estar sozinho".

Mario Quintana
In Blog De Notícia em Notícia
de Adriana Cavalcante

foto by natureluv

O OUTONO

O outono já chegou - aos arrufos do vento
as folhas num desmaio embalam-se pelo ar...
- vão caindo...caindo...uma a uma em desalento
e uma a uma, lentamente, vão no chão pousar

O céu azul perdeu o azul - vestiu-se de cinzento
e envolveu-se na neblina a luz baça do luar...
- na alameda onde vou, de momento a momento,
há um gemido de folha a cair e a expirar

O arvoredo transpira as carícias dos ninhos,
e o vento a cirandar na curva das estradas
eleva o folhareu no espaço em redemoinhos...

Há um córrego a levar as folhas secas em bando...
- e a aragem que soluça entre as ramas curvadas,
parece que o arvoredo em coro está chorando!...

J.G.de Araújo Jorge

09/03/2010


by William Waterhouse

CANÇÃO

Se de novo passares,
não procures por mim.
Preservemos o fim
dos saudosos olhares.

Bem sei que a noite e os rios
engedram muita flor
parecida com amor,
em seus ermos sombrios.

Mas nem penso aonde vais,
Adormeço nos prados
com os lábios ocupados
no néctar do jamais.

Um tempo sem fronteiras
se abriu diante de nós.
Quando tiveram voz
as verdades inteiras?

Ai, talvez noutro instante
chegue perto de ti,
para ver que perdi
minha alma antiga, - e cante.

Talvez chegue, talvez,
mas que não seja agora,
quando quem foste chora
aquilo que não vês.

Uma vaga canção
cantarei com doçura,
e será morte escura
sobre o meu coração.

Cecília Meireles
In Retrato Natural