26/02/2011

PARA HELENA





















Vi-te uma vez, só uma, há vários anos,
já nem sei dizer QUANTOS, mas NÃO MUITOS.
Era em junho; passava a meia noite
e a lua, em ascensão, como tua alma,
nos céus abria um rápido caminho.
O luar caía, um véu de seda e prata,
calma, tépida, embaladoramente,
em cheio, sobre as faces de mil rosas,
que floresciam num jardim de fadas,
onde até o vento andava de mansinho.
Caía o luar nas faces dessas rosas,
que morriam, sorrindo, no jardim
pela tua presença enfeitiçado.

Toda de branco, vi-te reclinada
sobre violetas; e o luar caía
sobre a face das rosas, sobre a tua,
voltada para os céus, ai! de tristeza!

Não foi Destino, nessa meia-noite,
não foi Destino (que é também  Tristezas)
que me levou a esse jardim, detendo-me
com o incenso das rosas que dormiam?
Nenhum rumor. O mundo silenciara.
Só tu e eu ( Meu Deus!como palpita
o coração, juntando estas palavras!)
Só tu e eu...Parei...Olhei...E logo
todas as coisas se desvaneceram.
(Lembra-te: era um jardim enfeitiçado.)

Fugiu a luz de pérola da lua.
Os canteiros, os meandros sinuosos,
flores felizes, árvores aflitas,
tudo se foi;  o próprio odor das rosas
morreu nos braços do ar que as adorava.
Tudo expirara...Tu ficaste... Menos
que tu: a luz divina nos teus olhos,
a alma nos olhos para os céus voltados.
Só isso eu vi, durante horas inteiras,
até que a lua fosse declinando.
Ah! que histórias de amor se não gravavam
nas celestes esferas cristalinas!
que mágoas! que sublimes esperanças!
que mar de orgulho, calmo e silencioso!
e que insondável aptidão de amor!

Mas, afinal,Diana se sepulta
num túmulo de nuvens tormentosas.
Tu, como um elfo, entre árvores funéreas,
deslizas. SÓ TEUS OLHOS PERMANECEM.
NÃO QUISERAM fugir.E não fugiram.
Iluminando a estrada solitária
de meu regresso, não me abandonaram
como o fizeram minhas esperanças.

E ainda hoje nos seguem, dia a dia.
São meus servos - mas eu sou seu escravo.
Seu dever é luzir em meu caminho;
meu dever é SALVAR-ME por seu brilho,
purificar-me no seu fogo elísio.
Dão-me à alma Beleza (que é esperança).
Astros do céu, ante eles me prosterno
nas noites de vigília silenciosas;
e ainda os fito, em pleno meio dia,
duas Estrelas d'alva, cintilantes,
que sol algum jamais extinguirá.

Edgar Allan Poe
In Poesia e Prosa
tradução deOscar Mendes e
Milton Amado
tela de Isaac Ilyich Levitan


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