12/12/2009


Foto de b_lenharo no Flickr

SOU MEU HÓSPEDE

Sou meu hóspede noturno
em doses mínimas
e uso a noite
para despojar-me
da modéstia
e outras vaidades

procuro ser tratado
sem os prejuízos
das boas-vindas
e com as cortesias
do silêncio

não colecioso padeceres
nem os sarcasmos
que deixam marca

sou tão-só
meu hóspede
e trago uma pomba
que não é sinal de paz
mas sim pomba

como hóspede
estritamente meu
no quadro-negro da noite
traço uma linha
branca

depois assopro minha brisa
e os postigos e os ramos
tremem

como hóspede de mim
sei de mim o que penso
não é grande coisa

armo minhas barricadas
contra o sono
muito embora o sono
as derrube

sou meu hóspede
por que negá-lo
mas
às vezes também sou
um estranho de mim

quando meu rústico
anfitrião
me olha
sinto que estou
sobrando
e saio fora.

Mario Benedetti
In Antologia Poética

10/12/2009


by Sandra Bierman

PAZ

Deixa-me pousar a cabeça
em teu peito descoberto
Divide comigo esta paz
de corpos saciados
Suspiremos juntos
realizando a dádiva
amadurecida
em anos de espera,sofrimento,indecisões

Sorri
que o momento foi bom
E vamos esquecer o mundo
assim
na plenitude da graça
dos que viram a luz

Mauro Salles
In O Gesto

by Mieke Chantrel

QUANDO MERGULHAS EM MIM

Quando mergulhas em mim
(de olhar a dentro)
não pisas em terra estranha

Há lembranças de amor
em cada canto
e pétalas sofridas pelo chão
por onde passas em mim

E reconheces
rostos e vultos que ficaram
esmaecidos de outras caminhadas

Tristes nomes esquecidos
correm no sangue que te leva de mim a dentro

Peregrinos do amor que não me cabe
e transborda de mim
nos olhos tristes

Desse amor que repousa
no teu rosto
e em ternura recolhes
nos teus braços
- quando mergulhas em mim.

Mauro Salles
In O Gesto

Mucha (Moon) by Alphonse Mucha

PERGUNTAS
Ao poeta Schmidt

De onde vem a poesia
que não sustento nem comando?
Qual o mistério que me faz
sentir as coisas ainda informes?
Que rumo é esse que distingo
ao mergulhar dentro de mim?
Por que desfilam no meu mundo
corpos de seres intocáveis?
Como entender-me o designado
se é só miséria o meu acervo?
Em que destino acreditar?
Que explicação é imprescindível?
E qual o gesto inelutável?

Quem dará tantas respostas?

Mauro Salles
In O Gesto

by Zhaoming Wu

I

Ateio fogo em campo fechado,
E em solo sagrado.
Falando a ti, pensando em ti,
Alcanço este espaço fascinante,
Onde te encontro, onde te abraço.
Mas o que viso está mais longe,
Mais-além do lugar onde te espero.

A fulgurância de Eros
Aliada à exuberância,
Além...no olhar,
Hesita.

Viso possibilidades reiteradas
Expansão do Amor que me habita.

Estendo-me a ti.

O amor que a ti destino,intenso-fica,
Porque todo o Amor diz antes,
De uma paixão pelo infinito.

Ruth M.Dutra
In Geographia Feminina

09/12/2009


foto by Fernando Campanella

AMIGO/AMIGA

Vem, amiga
e habita o murmúrio deste voo
de memórias de toques e sussuros
do que une e separa os indecisos

Traze aqui o feito e o inacabado
o sexo, o sonho, a história
a lembrança do havido
o proibido
o que restou de claro
a luz, a água, o brilho

Que venham também todas as sombras
dos minutos difíceis
o pranto largo, a insônia, as esperanças
frustradas, o vazio, o adeus, o impossível
encontro, a volta inexorável

Vem amiga ao silêncio do amigo:
descobre o corpo e acolhe o sangue
forte e dividido

Desnuda a alma e vive em teus mistérios
os instantes definitivos
e inexplicáveis

E recebe, lá longe,
a mensagem do amor que não desiste.

Mauro Salles
In Gestos

foto by Fernando Campanella

PAISAGEM

Vem um e diz: quando passarem por uma porta aberta
fechem-na com decisão
Só assim se multiplicarão
As bem-aventuranças.

Vai outro e refere: se um desconhecido vos fizer sinal
Num lugar quase deserto
olhem para o céu e façam uma figa
Só assim as cigarras romperão a cantar.

E diz então o que primeiro falara: nos campos
Atirem muitas pedras para o ar
E ponham o chapéu sobre um maciço de dálias
E gritem alto o nome de um animal extinto
Só assim os pássaros os pombos os cavalos
Começarão a perceber
Que o contentamento não tem razão de ser
Excepto se as almas se transformarem
Num enorme barulho entre o arvoredo.

E o que respondia dirá então: se uma janela
Numa qualquer rua da cidade
Vos parecer que tem todos os vidros partidos
E que de lá sai um negro clarão
Ponham no ar a mão e riam baixinho

Pois só assim começará a madrugada.

Nicolau Saião
In Olhares Perdidos

07/12/2009


by Susan Rios/Lunaroza Galeria

RECEITA PARA UM NATAL

Primeiro,ficar parado
durante um momento,de pé
ou sentado, numa sala ou mesmo
noutra dependência do lar.
Depois preparar
os olhos, as mãos, a memória
e outros utensílios indispensáveis. A seguir
começar a reunir
coisas, por ordem bem do interior
do coração e do pensamento:
a ternura dos avós, uma mancheia;
rostos de primos distantes, uma pitada;
sons de sinos ao longe, quando baste;
a recordação duma rua, uns bocadinhos
um velho livro de quadrinhos
duas angústias mais tardias, alguns restos de azevias,
a lembrança de vizinhos ainda vivos mas ausentes
e de uns já passados.
Quatro beijos de seres amados ou de parentes
um cachecol de boa lã cinzenta aos quadrados
e um pouco de azeite puro e fresco
igual ao que a mãe usava noutro tempo saudoso.
Mexe-se bem,leva-se ao forno
e fica pronto e saboroso

- mesmo que, nostálgica, se solte uma pequena lágrima.

Nicolau Saião
In Olhares Perdidos

by Helena Coelho/Lunaroza Galeria

O POEMA

A tarde cai,
silenciosa,
morosa.

Na alma do poeta,
o poema,
estranha rosa,rubra e preta,
abre...

Afinal,
escrever um poema
é fixar uma pena,
sentindo estoirar
o calabre
do coração,
nostálgico do éden...

- Vá, poeta,
deixa o coração sangrar!

Para que negar
a esmola que te pedem?

Saúl Dias
In De ainda a vislumbre

by Cicely Mary Barker/Lunaroza Galeria

ESTRELA CADENTE

Senhor, dize-me
o segredo da noite
o mistério do sonho
a magia dos vultos
duendes,gnomos,bruxos
que me esperam no sono

Dize-me,Senhor
se do sono que me espera
voltarei
Se os anjos da noite vão mostrar-me
as terras do porquê, do talvez, do jamais

Dormirei outra vez sem que me digas
se o que me espera é o sono derradeiro?
Pressentirei na véspera o grande amanhecer?

Senhor, dize-me
aonde vai aquela estrela
que dormiu tão cedo?

Mauro Salles
In O Gesto

by Susan Rios/ Comunidade Lunaroza Galeria

DE NOVO

Partir de novo
percorrer velhas estradas
refazer conversas interrompidas
remontar projetos perdidos
olhar o recanto escondido
onde talvez estivemos
juntos
separados
no dia que ficou distante
e esmaecido

Lá onde rostos novos
repetem antigos provérbios
e dizem verdades
aos que unidos
procuram
o inacessível

Mauro Salles
In O Gesto

06/12/2009


by Gary Benfield/Lunaroza Galeria

XI

Meus olhos,
Dilatam-se no infinito,
Teu olhar vislumbra belezas efêmeras,
Minha voz guarda o âmago de todo silêncio.
Tua música revela
o que está oculto em meus véus.

Em noites enluaradas cumprimos
nosso rito,
olhando as estrelas bordadas no céu.

Testemunhamos o Tempo.
Princípio e governo.
Regência e criação.

Consagramos as horas indomáveis.
E o pensamento nos traz um tempo,
De nítida alegria, míticas aragens
Que faz iluminar nossa retina.

Radiante Olhar.

Ruth M. Dutra
In Geographia Feminina

by Daniel Gerhartz/ Lunaroza Galeria

XIII

Quão doces podem ser as notas planetárias.
Arias que retinem o pulsar dos cimos

A terra cala.
O céu fala.
O ar é azul distante.
Nas extremidades - silêncio.

Há um tempo em que se escuta
a floração dos pessegueiros
Ouve-se as flores rosadas se
Transformando em fruto.
Seiva estala.
Fruto e flor a destilar sentido.

Lambo-te nesta néctar oloroso.

Pausas breves em alvoradas inconclusas
Estão sendo geradas
Para a harmonia flores-ser,

Ritmo incessante,
Amor.

Ruth M. Dutra
In Geographia Feminina

02/12/2009


by Richard S. Johnson/Lunaroza Galeria



É melhor silenciar...Esquecer o passado,
Esperar o porvir e viver o presente,
Foi sempre este o dever de um coração magoado
Que não sabe o que quer e não diz o que sente!

Pela seara sem fim das carícias ditosas,
Nosso idílio foi bom como as águas que correm...
Cresceu! Viçou! Floriu e viveu entre rosas
Para morrer depois como os pássaros morrem.

Sob a abóbada azul do sonho que eu sonhava,
Foste a luz da manhã dos meus límpidos dias!...
Afastaste de mim o terror que eu guardava
Da indolência brutal das longas travessias!...

Palmilhaste comigo a estrada florescente,
Salpicada de arminho, aljofrada de beijos...
E comigo plantaste a radiosa semente
Que faz brotar o amor e florescer desejos!...

Vivemos muito tempo à sombra apetecida
Das flores do vergel do nosso amor profundo!
Eu - pensando no mundo, esquecido da vida!
Tu - pensando na vida, esquecida do mundo!...

Hoje o triste tufão das negras derrocadas
Nos tentou separar e o fez perversamente...
-Malditas sejam, pois, as ilusões passadas
Que me fazem lembrar de um ser que vive ausente!...

Na enseada desta vida eu de tudo me escuso,
Conduzindo no peito um coração sem dono...
Um nefando batel pobre, escabroso e rudo,
Que o tempo espátifou nas rochas do abandono!

É melhor olvidar!... A solidão discreta
Incutiu no meu todo a paciência de Job!
Quero agora cumprir o meu fado de poeta:
Viver só! Sempre só! Eternamente só!

Jansen Filho
In Poesias Escolhidas

Foto de Maria Branco no Flickr

OS PÃES

Sabem os trigais:
do joio do trigo,
do plantio, da colheita,
da massa do pão?

Sabe da noite:
da vigília dos padeiros,
do sono do pão
que de ontem pra hoje
amanhece seu breve
endurecimento,
da velhice que ele encerra?

Caco de Oliveira
In Acaso Sublime