03/11/2009

NO CORAÇÃO TALVEZ



No coração, talvez, ou diga antes:
Uma ferida rasgada de navalha,
Por onde vai a vida, tão mal gasta.
Na total consciência nos retalha.
O desejar, o querer, o não bastar,
Enganada procura da razão
Que o acaso de sermos justifique,
Eis o que dói, talvez no coração.

José Saramago
In Os Poemas Possíveis
by Jon Arnold

PASSADO,PRESENTE,FUTURO



Eu fui. Mas o que fui já me não lembra:
Mil camadas de pó disfarçam, véus,
Estes quarenta rostos desiguais.
Tão marcados de tempo e macaréus.

Eu sou. Mas o que sou tão pouco é:
Rã fugida do charco, que saltou,
E no salto que deu, quanto podia,
O ar dum outro mundo a rebentou.

Falta ver, se é que falta, o que serei:
Um rosto recomposto antes do fim,
Um canto de batráquio, mesmo rouco,
Uma vida que corra assim-assim.

José Saramago
In Os Poemas Possíveis
by Tanya Alberto

Foto de Phugu S3IS &...

O CANTO

Leve, breve,suave,
Um canto de ave
Sobe no ar com que principia
O dia.
Escuto, e passou...
Parece que foi só porque escutei
Que parou.

Fernando Pessoa

01/11/2009


Foto de dianabog no Flickr

CEMITÉRIO RÚSTICO

Trepadeiras galgando as cruzes inclinadas,
sol manso, doce aroma e zumbido de abelhas.

Felizes de vós, que jazeis em segurança
aconchegados ao bom coração da terra!

Felizes de vós, que tranquilos e sem nome
descansais retornados ao seio materno!

Mas escutai: no vôo de abelhas e nas flores
pulsa uma ânsia de vida e um prazer de existir,

do fundo sono das raízes vem à tona
o anelo da substância há longo tempo morta,

há destroços de vida enterrados no escuro
a se transfigurar e a clamar por presença,

e regiamente vai a mãe-terra cedendo
em meio à urgência de tão vários nascimentos.

Não: no fundo da cova o tesouro da paz
não pesa mais que um sonho no fundo da noite.

Turva fumaça apenas é a ilusão da morte,
e por trás dela a vida é que é o fogo forte.

Hermann Hesse
In Andares

30/10/2009


Foto by Paula Ferrari/Museu da Bicicleta de Joinville

WOLFGANG AMADEUS MOZART EM
JOINVILLE NO ANO DE 1791

Mozart convenceu-se naquele domingo:
- Comporei uma bicicleta com instrumentos de sopro.

Ele andou rente aos muros da cidade de Joinville
à procura de inspiração.

Naquele domingo, Mozart,
leve de vodca e tonto de brisa,gritou:
- Todos desconfiam, mas eu posso compor uma bicicleta
com instrumento de sopro.

Hoje se vê Mozart,
na clavícula um pintassilgo,
pedalando o adágio das ruas.

Fernando José Karl
In Casa de água

Foto de Marthy - M no Flickr

ANDARES

Como emurchece toda flor, e toda idade
juvenil cede à senil - cada andar da vida
floresce, qual a sabedoria e a virtude,
a seu tempo, e não há de durar para sempre.
A cada chamado da vida o coração
deve estar pronto para a despedida e para
novo começo, com ânimo e sem lamúrias,
aberto sempre para novos compromissos.
Dentro de cada começar mora um encanto
que nos dá forças e nos ajuda a viver.

Devemos ir contentes, de um lugar a outro,
sem apegar-nos a nenhum como a uma pátria:
não nos quer atados, o espírito do mundo
- quer que cresçamos , subindo andar por andar.
Mal a um tipo de vida nos acomôdamos
e habituamos, cerca-nos o abatimento.

Só quem se dispõe a partir e a ir em frente
pode escapar à rotina paralisante.
É bem possível que a hora da morte ainda
de novos planos ponha-nos na direção:
para nós, não tem fim o chamado da vida...
Saúda, pois, e despede-te , coração!

Hermann Hesse
In Andares

Foto by Fernando Campanella

LIVROS

Todos os livros do mundo
felicidade alguma hão de trazer-te,
pois te remetem misteriosamente
em retorno a ti mesmo.

Aqui tens tudo de que necessitas:
sol,estrelas e lua
- pois a luz que querias
em ti mesmo reside.

Sabedoria, que tanto buscavas
em bibliotecas,
em cada uma destas folhas brilha agora:
e é tua, toda.

Hermann Hesse
In Andares

29/10/2009


Foto by Eduardo Amorim

ARRABALDE

As cores alinham-se obedientes mas meio tortas
Como nos meus primeiros exercícios de caligrafia...
Chego a sentir o cheiro da tinta azul nos dedos
Em invisíveis borrões. Olho os meus dedos:
Leque metafísico.Quando deixarei de olhar os meus dedos?
O mundo é mais vasto.A vaca muge,
Puxa-me ao presente...Vasto,vasto é o pasto!

Mario Quintana
In Apontamentos de História Sobrenatrural

by Eduardo Amorim

CAMINHO INTERIOR

Quem descobre o caminho interior.
quem na mais fervorosa introspecção
vislumbra o cerne da sabedoria,
passa a sentir Deus e o mundo
à sua imagem e semelhança:
para ele, cada ação ou pensamento
será um diálogo com a própria alma,
que a Deus e ao mundo em si mesma contém.

Hermann Hesse
In Andares

by Gary Benfield

O AMANTE

Agora está teu amigo na calma da noite acordado,
ainda morno de ti envolto em teu aroma,
em teu olhar e em teu cabelo e no teu beijo - ó meia-noite,
ó lua e estrela e ar de névoa azulada!
De ti, amada, eleva-se o meu sonho
alto como do mar o monte e o precipício,
salpicado em ressaca e esvaído na espuma,e é sol, bicho, raiz,
só por estar contigo,
por estar junto de ti.
Saturno e Lua gravitam longe, e eu não vejo:
só vejo a pálida flor do teu rosto,
e em silêncio me rio e embriagado choro,
nem alegria nem tristeza existe mais,
só tu, só tu e eu, imersos
no imenso Todo, no profundo mar,
e dentro nos perdemos,
e aí morremos e aí renascemos.

Hermann Hesse
In Andares

Foto de Eduardo Amor... no Flickr

HORAS MÁGICAS

Quando a noite vem caindo assim
de mansinho sobre os arvoredos
e a passarada em bandos se entrecruza
no alaranjado do poente

quando as cigarras estridentes
se põem a cantar seu último suspiro
e o sino da igreja rebervera
ao longe pelos montes.

Nessas horas, amor, nessas horas de sonho
me sinto flutuar pelo infinito,
como um barco repuxado por anjos
vagando iluminado pela eternidade.

Luna

28/10/2009



MUNDO

E eis que naquele dia a folhinha marcava uma data em
caracteres desconhecidos,
Uma data ilegível e maravilhosa.

Quem viria bater à minha porta?

Ai, agora era um outro dançar, outros os sonhos e incertezas,
Outro mar sob estranhos zodíacos...

Outro...

E o terror de construir mitologias novas!

Mario Quintana
In Poesias

Foto by Blogger Aprendiz de Poeta

A-MAR

Uns dias ama-se,outros faz frio, um frio de gelar
os mortos. A indiferença é mais mortal.Durmo na praia
com os excrementos do mar; a vida tão perto
da morte.Decompomo-nos infinitamente
desde o princípio, somos o paraíso de pequenos seres:
somos o paraíso.Uns dias ama-se e é com esses
que atravessamos o milénio.Sabes que este século
terá o coração aberto, poderemos vê-lo trabalhar,
olear as suas peças, vigiar as válvulas, ver como se fecha
o ciclo, como recomeça.Não, este século
não terá um coração mecânico, não se alimentarão dele
as metáforas sofisticadas da moda: apenas um órgão
onde os outros se reconhecem e a unidade do corpo
se refugia.Neste milénio o coração não terá válvulas,
não será bombeado o sangue. Acima das nuvens
há-de pairar como um pequeno animal
a quem esvaziaram os ossos.
Talvez não tenhamos palavras para tanto sangue.
Uns dias ama-se a indiferença
com que os despojos do mar são o paraíso.

Rosa Alice Branco
In Soletrar o dia

Isla Negra/foto by suzzinha

DIA DO ANIVERSÁRIO

Sempre que te escrevo aparecem fusos entre nós:
11 da manhã em Isla Negra e duas da tarde
no teu quarto.Na casa de Neruda mesmo as figuras de ré
olham o mar.Colecionáveis, como as que se vendem
numa barraca cá fora, de vários tamanhos e preços.
Escrevo-te para qualquer lugar que nunca sei onde fica.
Cão de caça, procuro os teus vestígios por aí:
entre as roupas que faltam busco as que te agasalham,
cheiro a louça que sujaste, procuro a ciência da tua
natureza espalhada pela casa. A casa de Neruda
em Isla Negra é transparente:
posso segui-la ao longo da costa, da voz do guia,
essa voz absurda que podias ter ouvido três horas antes
se não houvesse fusos entre nós.Talvez o poeta
se tenha picado num fuso e o exílio fosse apenas a cegueira
dos outros.Imponentes as figuras inclinadas miram longe,
para lá do vidro. A mais bela olha a campa de Neruda
por entre a multidão de visitantes que exigem uma fotografia
com ele.Instantâneos: vão e outros vêm ser fotografados.
A terra é fotogénica e está sempre à mão.Agora já é tarde
em Isla Negra e demasiado cedo no teu quarto.
Talvez o amor seja uma figura de proa desafiando o barco
por entre o alvoroço das águas.Está virada para ti
que nunca sei onde estás e és o meu norte.

Rosa Alice Branco
In Soletrar o dia

27/10/2009


by eupensando.blogspot

IDÍLIO

Como eu preciso de campo,
de folhas,brisas,vertentes,
encosto-me a ti, que és árvore,
de onde vão caindo flores
sobre os meus olhos dormentes.

Encosto-me a ti, que és margem
de uma areia de silêncios
que acompanha pelo tempo
verdes rios transparentes:
tua sombra, nos meus braços,
tua frescura, em meus dentes.

Nasce a lua nos meus olhos,
passa pela minha vida...
- e, tudo que era, resvala
para calmos ocidentes.
Caminhos de ar vão levando
pura e nua essa que andava
com as roupas mais diferentes.

Olham pássaros, das nuvens,
entre a luz dos mundos firmes
e a das estrelas cadentes.
E o orvalho da sua música
vai recobrindo o meu rosto
com um tremor que eu conhecia
nos meus olhos já levados,
idos, perdidos, ausentes...

(Leve máscara de pérolas
na minha face não sentes?)

Cecília Meireles
In Vaga Música