28/04/2011

PIEDADE























Eu tenho pena desses infelizes
que vivem de mãos vazias,
a esmolar carinhos.
Eu tenho pena desses desgraçados
que não sabem sentir a beleza das coisas.
Eu tenho pena desses corações estéreis de amor,
que não sentem, que não vibram, que não amam.
Eu que tenho as mãos repletas de carícias,
eu que tenho os olhos abertos para as belezas da vida,
eu que tenho no coração, mananciais de amor!...

Anilda Leão
In Chão de Pedras
foto por marc50

POEMA DA MINHA IDADE























Eu carrego dentro de mim,
o peso de uma idade morta,
de uma idade sem definições e sem porquês.
Na minha face extinta,
marcada pelo tempo,
eu trago impressos os instantes envelhecidos,
os momentos mortos,
das coisas belas que me deslumbraram na vida.
Eu trago no meu corpo já sem formas,
vestígios da minha adolescência perdida,
Quando eu era dona dos caminhos,
soberana do tempo e dos astros.
Nos meus olhos já sem brilho,
se reflete o cansaço das viagens longas,
de roteiros intermináveis
e sem pouso certo.
E as pegadas que vou deixando ficar pelo caminho,
vão marcando os dias, as horas, os minutos,
dos momentos que vivi no meu passado,
dentro da minha infância longínqua,
quando eu sabia conversar com as estrelas...

Anilda Leão
In Chão de Pedras
foto por marc50

VIDA BREVE





















Vida frágil
corpo de haste
alma de flor
se esfolhou...

Vida curta
gesto de onda
barco em fuga
mar levou...

Olhos de orvalho
raio de sol
enxugou...

Voz de brisa
sobre o lago
serenou...

Vida breve
por amor
fruto em nácar
nas entranhas
carregou...

Vida aéreda
corpo de alma
nenhum rastro
deixou...

Henriqueta Lisboa
In Prisioneira da Noite
foto por marc50

SINGULAR























Em vez de amar singelamente
uma casa pequena com jardim,
uma varanda com pássaros,
uma janela em que ao sereno há uma bilha de barro
um pessegueiro, uma canção e um beijo
- o pessegueiro de seu pomar,
a canção popular
e o beijo que poderia alcançar-
a minha musa ama precisamente
o que não existe neste lugar.

Henriqueta Lisboa
In Prisioneira da Noite
tela de Susan Tolle McClure

NOTURNO
















Meu pensamento em febre
é uma lâmpada acesa
a incendiar a noite.

Meus desejos irrequietos,
à hora em que não há socorro,
dançam livres como libélulas
em redor do fogo.

Henriqueta Lisboa
In Prisioneira da Noite
foto de  a marc50

26/04/2011

A PROCURA DA INFÂNCIA























Procuro ouvir na voz do vento
o eco perdido da minha infância.
E no riso franco das criancinhas
eu vislumbro o meu riso antigo.
Procuro nas ruas desertas e silenciosas,
o canto alegre das cirandas
e as minhas correrias do tempo recuado.
Dentro daquela avenida asfaltada,
onde rolam automóveis de luxo,
eu busco a minha ruazinha feia e pobre.
Procuro ver nas bonecas de hoje,
tão lindas, de tranças sedosas,
a bonequinha de trapo que eu embalei no meus braços.
Procuro encontrar no rosto das neocomungantes
traços de minha inocência
e a primeira emoção daquela que ficou no tempo.
Procuro descobrir, desesperada,
na face ingênua das crianças
a minha pureza perdida.
Procuro em vão, pois não encontrarei jamais
vestígios da minha infância feliz,
que os anos guardaram no seu abismo.

Anilda Leão
In Chão de Pedra
tela de  June Dudley

ORIGEM

















Quando a noite desce sobre a terra,
as sombras do mundo inteiro se procuram,
e se encontram e se amam.
Mais tarde, ventres pejados
despejam luzes sobre o corpo do céu.
(Luzes que foram geradas num instante de amor)
........................................................................
........................................................................
E assim nascem as estrelas.

Anilda Leão
In Chão de Pedras
foto por Don Briggs

25/04/2011

O ESPELHO



















Quando jovem Narciso, orgulhoso e contente,
mirava-se a sorrir nas águas do Pireu;
desiludido, um dia, o moço incontente,
ao rio se atirou e nele pereceu.

Bem antes de morrer chorou amargamente,
e, comovido, Pan, seu pranto converteu
num único cristal polido e reluzente...
Eis que o espelho fiel na terra apareceu.

E da vaidade humana arduamente o futuro,
é ele quem prevê num vaticínio rude,
e na senilidade aflige os corações...

Oráculo fatal, execrando, perjuro!
Austero julgador no fim da juventude:
- a verdade reflete e mata as ilusões.

Francisco Giffoni Filho
In As Sete Cores do Íris
tela de John Williams Waterhouse

ATO DE IMITAÇÃO























Quando a lua no céu, alvíssima e vagante,
ostentava-se assim tão lúcida, orgulhosa,
dos ares a rainha altiva, majestosa,
deslumbrando astros mil com seu brilho ofuscante;

Morria o astro-rei na serra, agonizante,
e a tarde o sucedia em languidez morosa,
ao crepúsculo, a lua toda cor-de-rosa,
beijava-o, a luzir, amorosa e ofegante...

Num campanário, além, do sino a voz se ouvia,
longe de tudo, ali, nós, únicos amantes,
traíamos enfim no olhar nossos desejos.

E deles, a seguir o exemplo com alegria,
nossas almas, a sós, quais pombos delirantes,
arrulhavam febris em comunhão de beijos.

Francisco Giffoni Filho
In As Sete Cores do íris
foto por Heaven`s Gate (John)  

24/04/2011

NUVEM MANSA

















Minúscula, branca,
leve sem rumor,
bóia no azul uma nuvem:
volve teus olhos e sente
como em seu alvo frescor te conduz
feliz por entre sonhos azuis.

Hermann Hesse
In Andares
foto por Clara Hinton

SOL DE MARÇO


















Embriagada de ardor matinal,
tonteia uma borboleta amarela.
Encolhido e com sono, um homem velho
descansa sentado junto à janela.

Entre as folhas da primavera, um dia
de viagem cantando partiu ele:
de uma porção de ruas a poeira
passou voando sobre os seus cabelos.

Naturalmente as árvores em flor
e as borboletas voando amarelas
parecem hoje as mesmas de outros tempos:
como se o tempo não tocasse nelas.

Os perfumes e as cores, entretanto,
tornaram-se mais finos e mais raros:
fez-se mais fria a luz, e o próprio ar
parece mais difícil respirar.

Como abelha a zumbir, a primavera
baixinho entoa os seus graciosos cantos:
a borboleta adeja em amarelo,
e o céu vibra em cristal de azul e branco.

Hermann Hesse
In Andares
foto por Paulo Neis

MEMÓRIA AMOROSA

















Quando ele aparece
bonito e mudo se posta
entre moitas de murici.
Faz alto-verão no corpo,
no tempo dilatado de resinas.
Como quem treina para ver a Deus,
olho a curva do lábio, a testa,
o nariz afrontoso.
Não se despede nunca.
Quando sai não vejo,
extenuada por tamanha abundância:
seus dedos com unhas, inacreditáveis!

Adélia Prado
In O Pelicano
tela de Lawrence Alma-Tadema

22/04/2011

***



SIM,VEM UM CANTO na noite.
Não lhe conheço a intenção.
Não sei que palavras são.

É um canto desligado
De tudo que o canto tem.
É algum canto de alguém.

Vem na noite independente
Do que diz bem ou mal.
Vem absurdo e natural.

Já não me lembro que penso.
Ouço: é um canto a pairar
Como o vento sobre o mar.

Fernando Pessoa
In Poesias Inéditas
foto por nuomi   

AS PALAVRAS DE AMOR


















Esqueçamos as palavras, as palavras:
As ternas,caprichosas,violentas,
As suaves de mel, as obcenas,
As de febre, as famintas e sedentas.

Deixemos que o silêncio dê sentido
Ao pulsar do meu sangue no teu ventre:
Que palavra ou discurso poderia
Dizer amar na língua da semente?

José Saramago
In Provavelmente Alegria
foto de Orange Leaf

TEMPO DE CRISTAL

















Meu caminho de choupos, apontado
Ao segredo do ovo e das raízes,
Ou vara de cristal em mãos de fogo
E grito de barqueiro à madrugada:
Longa foi a jornada, e muitas águas
Foram charcos parados, quando rios
As fontes, que eram minhas, prometiam.
E barcos encalhados se perderam.

Sobre a terra pousada, como um sino,
Tange o vitral do céu e nasce o mundo:
Águas vivas, libertas, olhos de aves
São as formas do sol no ovo aberto.
Vão navegando os barcos, e as raízes
Firmes na rocha os troncos alimentam:
Descem brilhando ao fundo a vara e o fogo
E o tempo de cristal sobe até nós.

José Saramago
In Provavelmente Alegria
foto por Tommy Martin

AO CENTRO DA ESMERALDA

















Ao centro da esmeralda vou, nocturno,
Secreto como os astros, entre as luas
Do espaço rigoroso do teu mundo.
Banho,calado, em luz e água virgem,
E na pureza verde desses pastos
Tenho o corpo do sol, como ele fecundo.

José Saramago
In Provavelmente Alegria
foto de tommy martin

PEDRA CORAÇÃO

















Houve um tempo sem forma, uma fusão
Mordida de cristais neste basalto.
Houve decerto um rio, um mar antigo,
Onde a pedra rolou.
Houve também um sismo, e outro sismo
Agora cumprirá, na mão fechada,
A forma prometida.Assim, exacta,
A pedra se moldou.

José Saramago
In Provavelmente Alegria
foto por tommy martin

21/04/2011

ROMANCE XI OU DO PUNHAL E DA FLOR


















Rezando estava a donzela,
rezando diante do altar.
E como a viam mirada
pelo Ouvidor Bacelar!
Foi pela Semana Santa.
E era sagrado o lugar.

Muito se esquecem os homens,
quando se encantam de amor.
Mirava em sonho a donzela
o enamorado Ouvidor.
E em linguagem de amoroso
arremessou-lhe uma flor.

Caiu-lhe a rosa no colo.
Girou malícia pelo ar.
Vem, raivoso, Felisberto,
seu parente protestar.
E era na Semana Santa.
E estavam diante do altar.

Mui formosa era a donzela.
E mui formosa era a flor.
Mas sempre vai desventura
onde formosura for.
Vede que punhal rebrilha
na mão do contratador

Sobe pela rua a tropa
que já se mandou chamar.
E era  à saída da igreja,
depois do ofício acabar.
Vede a mão que há pouco esteve
contrita, diante do altar!

Num botão revala o ferro:
e assim se salva o Ouvidor.
Todo o Tejuco murmura
- uns por ódio, uns por amor.
Subir um punhal nos ares,
por ter descido uma flor!

Cecília Meireles
In Romanceiro da Inconfidência
foto por Orange Leaf   

DE UM ANDAR NOTURNO

















Tempestade, chuva oblíqua,
negreja a pradaria,
solenes sombras de nuvens
fazem-nos companhia.

De um vão entre escuras nuvens
súbito a se iluminar
a noite esgueira-se e espia
plena de luar.

Límpidas ilhas do céu,
estrelas sóbrias saúdam;
ao luar,fímbria de nuvens
em rios de prata ondula.

Alma, prepara-te ,alma!
Das trevas do tempo,
irmãos de longe te acenam
com pisos de ouro.

Alma, responde ao sinal:
banha-te no espaço!
Deus guiará para a luz
teus obscuros passos.

Hermann Hesse
In Andares
foto por caitdphoto  

RELENDO MALER NOLTEN



Humilde bato uma vez mais ao teu portão
e vou entrando pelo jardim muito amado:
a predileta flor da minha juventude
aspiro então com sentido mais apurado.

Da minha idade juvenil me vem o aroma
das longas horas em que eu enlevado lia;
jamais, porém, como nesta hora de tristeza,
senti o profundo valor de tanta poesia.

De frias grutas vêm cantar-me ao coração
uma paixão dulcíssima e flores se abrindo:
vai-se tornando sagrado o que antes doía,
e, ao sinal da poesia, aprendo a dor sorrindo.

Hermann Hesse
In Andares por MyDigitalSLR

VIVÊNCIA NOVA
















Mais uma vez eu vejo véus caírem,
e o mais familiar torna-se estranho:
novos espaços siderais acenam,
a alma salta freada pelo sonho.

Em retirados círculos de novo
ao meu redor vai-se ordenando o mundo,
e eu vejo em mim um sábio envaidecido
igual a uma criança dentro dele.

Mas já de anteriores nascimentos
vago pressentimento me palpita:
astros caíram e nasceram astros,
porém vazio nunca esteve o espaço.

A alma curva-se humilde e se levanta,
respira no infinito,
e de esgarçados fios se entretecem
novas e belas as vestes de Deus.

Hermann Hesse
In Andares
foto por riesling_76

EU LUMINOSO NÃO SOU



















Eu luminoso não sou.Nem sei que haja
Um poço mais remoto, e habitado
De cegas criaturas, de histórias e assombros.
Se no fundo do poço, que é o mundo
Secreto e intratável das águas interiores,
Uma roda de céu ondulando se alarga,
Digamos que é o mar: como o rápido canto
Ou apenas o eco, desenha no vazio irrespirável
O movimento de asas.O musgo é um silêncio,
E as cobras-d'água dobram rugas no céu,
Enquanto, devagar,as aves se recolhem.

José Saramago
In Provavelmente Alegria
foto de riesling_76  

E SE VIER


















E se vier que traga o coração
No seu lugar de paz. Amor diremos,
que outro nome melhor se não descobre.
Só a vida não diz quanto sabemos.

José Saramago
In Provavelmente Alegria
foto por riesling_76

DISSERAM QUE HAVIA SOL























Disseram que havia sol
Que todo o céu descobria
Que nas ramagens pousavam
Os cantos das aves loucas

Disseram que havia risos
Que as rosas se desdobravam
Que no silêncio dos campos
Se davam corpos e bocas

Mais disseram que era tarde
Que a tarde já descaía
Que ao amor não lhe bastavam
Estas nossas vidas poucas

E disseram que ao acento
De tão geral harmonia
Faltava a simples canção
Das nossas gargantas roucas

Ó meu amor estas vozes
São os avisos do tempo

José Saramago
In Provavelmente Alegria
foto por riesling_76  

18/04/2011

A CONTAGEM DO AMOR

















1,2,3,4,5:
na paisagem do tempo deixam vinco?

6,7,8,9,10:
a praia cada vez mais distante do convés?

11,12,13,14,15:
de tão longe, nem há rima pra "inze"?

16,17,18,19,20
só mesmo se houver muito requinte?

21,22,23,24,20 e ...
performance tão alta nunca vi?

Pois saibam todos vocês, entendedores
de amor, que por cima dos amores

transitórios, medíocres, sem garra,
um amor se levanta e não esbarra

nas ferragens do tempo, antes floresce,
a cada dia se aprimora e cresce

e viça e estende ramos frondejantes
sobre a tranquila face dos amantes

que se beijam no doce ritual
do grande amor fiel e atemporal!

em vinte e cinco rápidos e eternos
anos-minutos passionais e ternos,

amor meu, teu amor - a mesma intensa
pura exaltação, na sede imensa

de infinito que cabe num momento
de unidade perfeita, sentimento

de que não pode a vida, o tempo, a dor
aniquilar, querida, o nosso amor.

Carlos Drummond de Andrade
In Poesia Errante
foto por lifes26

17/04/2011

ARAGEM
















Todo amor é passageiro,
cobra oculta na folhagem.
Que bandeira me convida
a respirar outra aragem?

O mar arrasta o navio
à resplandecente margem.
A morte, por mais solene,
não passa de uma bobagem.

Entre a estiva e o sol raiante
vai a linguagem, produto
que não paga armazenagem.

Vaga, saga,chaga aberta!
Rumo a que matalotagem
me encaminha o céu deserto?

Lêdo Ivo
In Curral de Peixe
foto de GionnyWeb

16/04/2011

O DESERTO




















A Abelardo Romero, sob a terra e nos
céus de Lagarto, que tanto amava

Aquela flor da azaléa,
sei que não foi por acaso,
nasceu exatamente no dia
em que fiz aniversário.

Aquela flor da azaléa
surgiu na minha varanda
para, com a sua existência,
dizer que não estou sozinho.

Aquela flor da azaléa
vive na minha varanda
e mostra-me a importância
de ter flores,
de ter quadros,
de ter pássaros
e livros,
de não ficar sozinho
com os seres humanos.

Brasilia, 19.08.80

Aydano do Couto Ferraz
In Os Poemas Perdidos e seu Reencontro
foto por  berk2804

CANTO DA ESPERANÇA

















Minha esperança,
A asa azul do sonho
tocava minha fronte solitária
na noite em que te vi.

Se tu foras a aurora,
minha amiga,
não te quisera a ti.
Há que mil anos a  aurora se repete!
Hás de ser sempre nova, matutina,
entre as névoas do céu te descobri!

Vê se despertas nesse peito rude
as notas sentidas que ele já exalou.
Fala do mar ao teu irmão poeta,
povoa de primaveras a sua alma,
sonhos no coração,
que em troca de um olhar
dou estes versos,
em troca de um sorriso
- uma canção -

(Rio de Janeiro,1950)

Aydano do Couto Ferraz
In Os poemas Perdidos e o seu Reencontro
foto por GionnyWeb  

A POESIA NÃO MORRE


















Coração de poeta tem de ser repartido.
Aydano, a poesia não nasce impunemente.
A poesia requer algum sofrimento.

Veja Carlos Drummond com está magro,
Bandeira tuberculoso,
só o gordo Schmidt dizendo
que a poesia está nascendo
na serra do nunca mais.

Nos dramas que nascem, Aydano,
há uma poesia nova.
A poesia não morre.
Se os poetas fazem títulos
e abandonam a musa num canto de redação,
é natural que ela fuja
e se revele adiante.

De manhã
outros poetas recolherão a poesia
andando nas ruas tensas,
como ela andava de noite,
sozinha nas ruas calmas,
nos tempos do romantismo.

Aydano do Couto Ferraz
In Os Poemas Perdidos e seu Reencontro
foto de a GionnyWeb

FLORESCE



Floresce, vive para natureza,
Para o Amor imortal, largo e profundo,
O bem supremo de esquecer o mundo
Reside nessa límpida grandeza.

Floresce para a Fé, para a Beleza
Da luz, que é como um vasto mar sem fundo,
Amplo, inflamado, mágico, fecundo,
De ondas de resplendor e de pureza.

Andas em vão na Terra, apodrecendo
À toa pelas trevas, esquecendo
A Natureza e os seus aspectos calmos.

Diante da luz que a Natureza encerra
Andas a apodrecer por sobre a Terra,
Antes de apodrecer nos sete palmos!

Cruz e Souza
In Poesia Completa de Cruz e Souza
foto por  GionnyWeb

15/04/2011

AMETISTAS

















sou apenas isso
um nome soletrado com vento
um jeito inclinado de andar
como se dentro vivesse um barco

apenas isso
um oceano encharca os ossos
de onde será que vem
essa melancolia esse jeito
de viver as coisas em silêncio?

escrever derrubando paredes
cobrindo a pele de sal
trançando a alma com duras
ametistas
ser apenas isso
uma mulher fazendo poesia

Roseana Murray
In Paredes Vazadas
foto por  GionnyWeb

14/04/2011

INVESTIGAÇÃO FILOLÓGICA

























Um dia destes chamo-te
E gastamos um momento para fazer amor.
A ver se é verdade isso que dizia Cernuda
De que os corpos fazem um ruído muito triste
Quando se amam.

Manuel Arana
Inn Adolescencia dos: poemas hormonados
Tradução de Tiago Nené
tela de  Heather Johnston
http://casadospoetas.blogs.sapo.pt/2009/05/

13/04/2011

ALARMES























não desenroles tanto a noite
em tua pele. não equipares ao corpo
o tropel das palavras
na toalha. não encalhes em mim
tanta beleza. aperta
a blusa. recolhe do meu rosto
os teus olhares, alguma lágrima
brilhando sobre a mesa.

sossega. é cedo ainda
para o deserto trepidante
do desejo. não julgues saber já
que desenlaces
o meu corpo procura
sobre o teu. nem eu te ofereço
o armadilhado morango
do amor. apenas peço
que adormeças,
que dês lugar na cama
ao meu fantasma.

coloca o coração
numa órbita prudente. talvez não tarde
o tempo,
o lugar onde eu te diga
as palavras que desligam
os alarmes que instalei
em toda a alma.

Luís Miguel Queirós
In As Imagens Dominantes
http://casadospoetas.blogs.sapo.pt/2008/12/
tela de Gary Benfield

10/04/2011

JARDINAGEM ABAIXO DO EQUADOR



















Deve ser erro meu
querer jardim lá onde a natureza
só pretende selva.
Gramados, convenhamos,
são coisas de europeu
com galgos, gamos
e um castelo ao fundo
erva aparada em
séculos de cascos
coturnos e
sapatinhos de damas,
séculos de batalhas
e sangue nas raízes.
Aqui a batalha que travo
é muito outra,
luta contra as daninhas
contra as pragas
sempre mais fortes do que grama
ou flores.
Arranco e arranco
despedaçando em vão as pobres unhas.
Onças, tamanduás, serpentes e gambás
riem de mim
no escuro não distante.
E me pergunto se não sou eu
a praga
nessa insistência cega em extirpar
quem aqui nasce e vive
de direito.

Marina Colasanti
In Poesia em 4 Tempos
tela de Vincent Van Gogh

CARTAS À MESA



















Sempre há uma ausência
presente
na sala de visitas
no dormitório
em cada pequeno pedaço
da colcha de retalhos
sobre a cama
Porque
(qual o por quê?)
os dias construídos com tijolos
de distâncias
fraturas
e à janela um olhar passeia
sempre à procura

Joana Maria Guimarães
In Sete Vozes - Poesia
tela de Ron di Scenza

***



















"a vida é uma ordem"
(Carlos Drummond de Andrade)

O vento sopra na areia
na superfície de cal e cimento
dos edifícios
onde homens e marés
desfazem seus castelos

no litoral urbano
a bandeira vermelha
ameaça a existência

neblina de sal e lágrimas
embaçam as retinas
do sonho e do juízo

braçadas no abismo
afastam pensamentos
avenidas
automóveis

o mar em ressaca
assombra a cidade
explode em ondas
invade ciclovia
e regurgita o náufrago
à firmeza da praia

olhos de espanto
algas nos cabelos
conchas pelo corpo
estalam sob o tropel
dos cavalos marinhos

esquecida no semáforo
uma estrela do mar
espia

Nilzanira Reyes
In Sete Vozes - Poesia

CANÇÃO PARA UM POEMA DIFÍCIL























Palavras perfeitas nascem
amarradas em si mesmas
Trazem o entendimento de mil rosas vermelhas
Dentro de mim nunca são confusão ou segredo
Trespassam a tinta da noite
e estes sonhos pesados sem estrelas
Às vezes resguardam uma transprência
onde os verbos nunca enfraquecem

Palavras perfeitas adormecem como os santos
Clamam uma força que vem das águas
um sal que alimenta a fome

Palavras perfeitas não pertencem
aos poetas

Lila Maia
In Sete Vozes
tela de Joern Zolondek

***























Para Jorge

Toca com a mão de leve o coração da primavera.
Já muito caminhaste sobre a neve.
Vamos voltar ao verão, ao verão do Recife,
cidade onde começa e termina o mundo,
onde começa o amor, mas não acaba,
explode como Apollo 5
e vira poeira cósmica no infinito,
onde o inverno aquece, e o verão é eterno.
Como no Recife.

Marcia Cavendish Wanderley
In Sete Vozes
tela de Carson 

09/04/2011

PASSANDO DOS CINQUENTA























Meu pescoço se enruga
Imagino que seja
de mover a cabeça
para observar a vida.
E se enrugam as mãos
cansadas dos seus gestos.
E as pálpebras
apertadas no sol.
Só da boca não sei
o sentido das rugas
se dos sorrisos tantos
ou de trancar os dentes
sobre caladas coisas.

Marina Colasante
In http://www.aindamelhor.com/poesia/poesias20-marina-colasanti.php
tela de Francois Boucher

05/04/2011

TECOMA























soltas
do caule
as pétalas
do ipê
descolorem
a penugem
dos talos
(de repente
leves,
da corola
livres),
em alvoroço
viçam
-  após lento
pouso -
de sol
o capim

Josely Vianna Baptista
In Boa Companhia : Poesia
foto por a Ju schumann

GENESÍACO

















Um homem na campina olhava o céu. As estrelas
pareciam aumentadas, de tamanho brilho.
Estrela, ó estrela, estrelas,
ele suplicou como se injuriasse.
Os que alimentavam o fogo
aproximaram-se admirados:
nós também queremos, repeti para nós.
Ó noite de mil olhos, reluzente.
Os vocativos
são o princípio de toda poesia.
Ó homem, ó filho meu,
covoca-me a voz do amor,
até que eu responda
ó Deus, ó Pai.

Adélia Prado
In O Pelicano
foto por anna.young96 

03/04/2011

AZUL-TARDE



















Ó pura, maravilhosa visão
- quando entre púrpura e ouro,
grave e propício, vais baixando em paz,
resplandecente azul do céu da tarde!

Lembras um mar azul onde a fortuna
com a âncora se encerra
num bendito repouso.Cai do remo
a última gota de mágoa da terra.

Hermann Hesse
In Andares
foto por a HGMSF

PENSAMENTO VADIOS



















Um dia tudo isto deixará de existir:
nada mais destas guerras burramente geniais,
destes gases diabólicos lançados sobre
o inimigo,destes ermos de concreto,
destas florestas farpadas de arame
em vez de espinhos, destes berços mortuários
onde aterrados jazem tantos milhares,
destas redes mortíferas tramadas
com tanto engenho e arte, em meio a tão covardes
gracejos, na terra, no mar, no ar.

Montanhas hão de elevar-se no azul;
constelações refulgirão na noite
- Gêmeos, Cassiopéia,Ursa Maior -
eternas em sereno gravitar;
relvas e  folhas orvalhadas pela noite
voltarão a pintar de verde o dia;
e ao sopro eterno do vento as marés virão
bater nas pedras e nos pálidos barrancos.

Assim tem-se passado a história deste mundo:
com dilúvios de sangue, convulsão e mentira,
tem a arrogância de um montão de lixo,
de traços apagados, saciada
a sua desmedida gulodice
- e o ser humano esquecido.

Esqueceram-se os jogos infantis
que com tanta doçura e encantamento
imaginávamos, curiosos e belos;
as poesias que estão concebíamos,
e todas as figuras da nossa ternura
gravadas no mundo em torno de nós;
nossos deuses, mistérios e santuários,
taboadas e alfabetos - não existem mais.
Nossas fugas de órgão, nosso afã de céu,
nossas igrejas de torres esguias
e altaneiras, nossos livros e pinturas,
linguagens, fábulas, sonhos e ideias,
apagaram-se. A terra está sem luz.

E o Criador, que ao acaso
de tudo quanto é mau e quanto é bom
silencioso assiste, longamente
se põe a observar a terra libertada:
alegremente ecoa à sua volta ao gravitar dos astros
- escuro paira o pequenino globo,
entre tanto esplendor.Sempre pensando,
Ele toma nas mãos um punhado de barro
e se põe a amassá-lo: vai fazer
mais uma vez um homem - um minúsculo filho
que lhe faça orações, um minúsculo filho
em cujos risos e artes e inocências
Ele espera ainda ter algum prazer.
Alegram-se os Seus dedos, o barro modelando,
e Ele se compraz nisso, enfim: está criando!

Hermann Hesse
In Andares
foto por Hanny Patmos

OUTRO SEREI AMANHÃ



Outro serei amanhã
Quando o silêncio pousar
Na rosa branca dos ventos
Rosa de espuma e luar.
Outro serei, quando as aves
Voltarem da tempestade,
Trazendo a luzir na treva
Sementes de eternidade.
Outro serei, quando a noite,
Como nunca, de mansinho,
Vier espreitar-me os passos,
Junto à incerteza e ao caminho.
Outro serei amanhã
E entre dois esquecimentos
Levarei meu sorriso
E a rosa dos ventos.

Paulo Bomfim
foto por Hanny Patmos

ONTEM

















ontem hoje amanhã e sempre
a mesma coisa
às vezes varea
escassa rarea
vaza enche esvazia
depende do dia

Chacal
foto por Francesco di Bellinzona (www.delprete.ch)

POEMA PARA SER TRANSFIGURADO























para Aimar Labaki

quem somos
o que queremos
logo logo saberemos

por enquanto
sabemos
que um gesto
uma palavra
pode transformar o mundo

qual deles
qual delas
saberemos já já

esta a missão do artista:
experimentar

por isso somos querido
por isso somos preciso
por dar nossas vidas
pelo que - ainda - não é
pelo que - quem sabe - será

o que somos
o que queremos
saberemos juntos
já já

Chacal
In Boa Companhia : Poesia
tela Vergesslicher Engel, 1939 by Paul Klee

02/04/2011

CARÍCIA


















Demore-se no carinho,
de modo que no rosto do doutro
vá a mão como se não fora
voltar. Repita,

demorando-se mais,
de modo que a mão descanse
naquele rosto, como se,
e se esqueça de que.

Repita, demore-se no caminho
como se a mão desses adeus,
agarrada ao rosto que se vai.
Outra vez: repita,

demorando-se mais
e mais, como se a mão bebesse
daquele rosto para, saciada, dormir
ali mesmo, ao pé da fonte.

Eucanaã Ferraz
In Boa Companhia : Poesia
tela de Adolphe William Bouguereau

COMO ERA BOM




















o tempo em que marx explicava
que tudo era luta de classes
como era simples
o tempo em que freud explicava
que édipo tudo explicava
tudo clarinho limpinho explicadinho
tudo muito mais asséptico
do que era quando nasci
hoje rodado sambado pirado
descobri que é preciso aprender
a nascer todo dia

Chacal
In Boa Companhia: Poesia
tela de Paul Signac

PRESTO



















Os dias despencam
aos pedaços. Logo será janeiro.
Posso farejar o amarelo das amendoeiras
de então (amarelas como teu cabelo)

e a praia, os bares, a ferrugem, nossas costas
e braços liquefeitos. Tanto faz a solidão,

a companhia: tudo são doenças tropicais,
incuráveis. O verão virá, forasteiro,

no vôo tonto, nupcial dos cupins
em volta das lâmpadas. Janeiro

está próximo, pressinto seu peso, a alegria,
o tremor, a sezão, o óleo,

a girândola veloz dos relógios
a nos golpear no ventre. Girassóis

em bando assestarão suas lâminas
em direção aos táxis

enquanto os rios, erráticos, desaguarão
à porta dos edifícios da Senador Vergueiro.

Eucanaã  Ferraz
In  Rua do mundo
tela de Henri Matisse

VERDE CLARO



















Coroa, manto, brasão
e cetro, pousa.

Minúsculo,
só, nenhum exército.

Seu domínio: o ar,
onde governa em silêncio.

Não sei que nome tem,
insigne inseto,

senhor de toda beleza.
Chamem-no alteza.

Eucanaã  Ferraz
In Cinemateca.
tela de Susan Rios