27/01/2011

***



para Gustavo


há 50 mil anos
atrás
o primeiro xamã
olhou a fogueira
dos seus olhos
sob a luz
vulcânica do
crepúsculo
cantou um poema
primaveril
com a garganta azul
da alma
& no seu tambor
de peles & folhas
inventou o ritmo
de nossos corações

Parque do Carmo/95

Roberto Piva
In Ciclones

***
























 para Sérgio Cohn

eu caminho seguindo
o sol
sonhando saídas
definitivas da
cidade-sucata
isto é possível
num dia de
visceral beleza
quando o vento
feiticeiro
tocar  o navio pirata
da alma
a quilômetros de alegria

Ponto Chic,95

Roberto Piva
In Ciclones
foto de Macro photographer ( ♡ DA )


RITUAL DOS 4 VENTOS & DOS 4 GAVIÕES




















para Marco Antonio de Ossain

"Eu trago comigo os guardiães
dos Circuitos Celestes."
Livro dos Mortos do Antigo Egito


Ali onde o gavião do Norte resplandece
sua sombra
Ali onde a aventura conserva os cascos
do vodu da aurora
Ali onde o arco-íris da linguagem está
carregado de vinho subterrâneo
Ali onde os orixás dançam na velocidade
de puros vegetais
Revoada das pedras do rio
Olhos no circuito da Ursa Maior
na investida louca
Olhos de metabolismo floral
Almofadas de floresta
Focinho silencioso da suçuarana com
passos de sabotagem
Carne rica de Exu nas couraças da noite
Gavião preto do oeste na tempestade sagrada
Incendiando seu crânio no frenesi das açucenas
Bate o tambor
no ritmo dos sonhos espantosos
no ritmo dos naufrágios
no ritmo dos adolescentes
à porta dos hospícios
no ritmo do rebanho de atabaques
Bate o tambor
no ritmo das oferendas sepulcrais
no ritmo da levitação alquímica
no ritmo da paranóia de Júpiter
Caciques orgiásticos do tambor
com meu skate-gavião
Tambor na virada do século Ganimedes
Iermanjá com seus cabelos de espuma

São Paulo, out/94

Roberta Piva
In Ciclones
foto de Brad Wilke no Flickr

26/01/2011

ESPELHO


Se você ainda tiver um sorriso guardado, me empreste,
que preciso vê-lo iluminado.
Se guardar algum brilho no olhar, me devolva,
que eu quero muito relembrar.
Se conservar algum reflexo de alegria antiga, me diga,
que é para eu embalar uma lembrança.
Se tiver algum resquício de criança, me entregue,
para que eu possa manter-lhe a estrutura,
antes que a imagem dissolva e desintegre
e que escorregue inerte da moldura.

Flora Figueiredo
In Florescência
tela de Tamara de Lempicka

DESCULPAS?























As preocupações, o cotidiano
me tornam carrasco
de quem mais quero.
Procuro a vontade
de me desvendar,
de te desnudar,
de nos encontrar,
e me perco.
Teus atos, os fatos
me pertubam,
me confundem.
E eu busco na desculpa,
no perdão e no silêncio
a resposta para te dar.

Pinheiro Neto
In Chrischelle
tela de Willem Haenraets

PARTHUMANO



















Aurora,
abre teus olhos
e deixa vir o dia.
Deixa o Sol
banhar o mar
que aquecido
beijará a areia.
É hoje o dia.
Dia da chegada
porque partirei.
Abre Aurora
teus braços
e mostra teu seio
em sol
pra queimar meu corpo;
Abre Aurora
teu corpo vermelho-sangue
pra que eu chore
a morte do dia;
Abre Aurora
o tempo de tuas mãos
e embala
em cantiga de ninar
o ato, o fato,
a partida.
Abre Aurora
teu sexo em flor
porque partindo o coração
eu partirei.
E à parte
partilharei, com a sorte,
o parto da Humanidade.

Pinheiro Neto
In Chrischelle
foto de  cphilruns no Flickr

25/01/2011

CONTROLADOR DO TEMPO



















O relógio
marca certo
o momento.
É o tempo
de pensar
de fazer-se amar
de tentar gostar
e de procurar.
Os segundos correm
os minutos voam
as horas passam.
O tempo escoa
escapa entre os dedos,
vai e não volta:
não permite retrocesso.
Sempre adiante!
É o tempo;
constantemente
marcado no relógio,
construído pra dizimar
o tempo
de quem o criou.

Pinheiro Neto
In Chrischelle
tela de Alan Buckle

LIRISMO
























Ser lírico
é sentir a vida.
É olhar com os olhos
e enxergar com o coração;
é buscar na própria solidão
esperanças de uma vida nova;
é arrancar do fundo d'lma
a dor-prazer de um amor;
é amar, um tanto esquecido
do real, do vulgar;
é buscar num pôr-de-sol
esperança pra esperar.
Ser lírico, enfim,
é trazer sempre o peito aberto
- como um porto mesmo deserto -
e abrigar, seja quem for,
que necessite de amor.

Pinheiro Neto
In Chrischelle
tela de August Macke

24/01/2011

BODAS DE PRATA


















Bodas de Prata, amigo, dir-se-ia
Que foi ontem.Como éramos galantes.
Tu, com teus modos leves e elegantes,
Eu, leve como o véu que me envolvia.

E unimo-nos assim, nalguns instantes,
Depois, enquanto célere corria
O tempo, nossas almas dia a dia
Tornavam-se mais ternas, mais amantes.

Hoje que sei que pelo azul profundo
Não existe céu feliz como este mundo
Onde palpito, à luz dos olhos teus,

Hoje um pavor inunda os olhos meus,
Deixar-te aqui , num rápido segundo,
Sem te abraçar, sem te dizer adeus.

Débora Leão
In Remoto Sonho
Fotos de Dragan* no Flickr

PEDIDO DE DEMISSÃO




Por não fazer o bife perfeito,
por não pregar o botão na camisa,
por não manter o sapato engraxado,
por ser a companheira insuficiente,
impertinente, indecisa,
por não saber me comportar quando a seu lado,
eu me retiro.
Quando confiro o saldo apurado,
só me entristeço
por ver o acorde no violão, estagnado,
o poema de amor, interminado,
o romantismo que hoje já não se admite.
No lugar que eu agora não mereço,
fica uma vaga a quem quer que se habilite.
Não fica mágoa,
não deixo sombras,
nem endereço.

Flora Figueiredo
In Florescência
Foto de   HKmPUA no Flickr

TRISTEZA



















Minh’alma é como o deserto
De dúbia areia coberto,
Batido pelo tufão;
É como a rocha isolada,
Pelas espumas banhada,
Dos mares na solidão.

Nem uma luz de esperança,
Nem um sopro de bonança
Na fronte sinto passar!
Os invernos me despiram
E as ilusões que fugiram
Nunca mais hão de voltar!

Roem-me atrozes ideias,
A febre me queima as veias;
A vertigem me tortura!...
Oh! por Deus! quero dormir,
Deixem-me os braços abrir
Ao sono da sepultura!

Despem-se as matas frondosas,
Caem as flores mimosas
Da morte na palidez,
Tudo, tudo vai passando...
Mas eu pergunto chorando:
Quando virá minha vez?

Vem, oh virgem descorada,
Com a fronte pálida ornada
De cipreste funerário,
Vem! oh! quero nos meus braços
Cerrar-te em meigos abraços
Sobre o leito mortuário!

Vem, oh morte! a turba imunda
Em sua miséria profunda
Te odeia, te calunia...
- Pobre noiva tão formosa
Que nos espera amorosa
No termo da romaria.

Quero morrer, que este mundo
Com seu sarcasmo profundo
Manchou-me de lodo e fel,
Porque meu seio gastou-se,
Meu talento evaporou-se
Dos martírios ao tropel!

Quero morrer: não é crime
O fardo que me comprime
Dos ombros lançar ao chão,
Do pó desprender-me rindo
E as asas brancas abrindo
Lançar-me pela amplidão!

Oh! quantas loiras crianças
Coroadas de esperanças
Descem da campa à friez!...
Os vivos vão repousando;
Mas eu pergunto chorando:
- Quando virá minha vez?

Minh’alma é triste, pendida,
Como a palmeira batida
Pela fúria do tufão.
É como a praia que alveja,
Como a planta que viceja
Nos muros de uma prisão!

Fagundes Varela
In Noturnas
Foto de  jack4pics  no Flickr

23/01/2011

CALIENTE


A orquestra atacou em ritmo de tango.
Ela abriu a boca num sabor morango
e rodopiou.
Ele a enlaçou satisfeito,
estufou o peito,
tentou o passo.
O bigodinho engomado,
cheirando a brilhantina o cabelo empastado,
uma decadência, um descompasso.
(Às vezes solene, às vezes safado.)
Ela equilibrou enquando pôde
a rosa no decote
até que o som entrou em foxtrote
e ela se descompôs:
ressurgiu o brilho sob o pó-de-arroz
e as rodas de carmim a colorir a face
desbotaram-se até que nada mais restasse.
Antes que a música mudasse novamente,
ele insinuou-se num sorriso convincente,
ela cedeu.
Foram se beijar num canto escuro,
com a lua enternecida por detrás do muro
e sobre a rosa amanhecida o dia apareceu.

Flora Figueiredo
In Florescência

ALMA



Acho que os sentimentos têm células,
pois as sinto remexer,
intensas libélulas
a se fundir e a se desprender.

Alimentam-se de lágrimas e risos,
sempre crescem.
A cada instante que vivo,
mais então se expandem,
mais amadurecem.

Seu núcleo me pede pulsações
e quando me perco pelas emoções,
ele se avoluma e me maltrata.
Chega a ser tão grande seu efeito,
que rompe o peito,sangra
e se dilata.

Ah minhas células emotivas!
Quero-as em mim
coladas e cativas
fazendo-me viver intensamente.
Eu as batizo com o nome de "alma"
e as responsabilizo a viver eternamente
ainda quando o coração se acalma
e põe-se a dormir
irreversivelmente.

Flora Figueiredo
In Florescência
tela  Matisse / Vase of Irises

MELÓDICO



Canto aos quatro cantos,
aos  quatro ventos.
Desnudo as pautas do tempo
em claves, bemóis e sustenidos.
Hei de fazer chegar aos seus ouvidos
uma rima de amor em tom maior.
Quando o mundo cantá-la já de cor,
eu trago a flauta
que põe ternura nessa nota que ainda falta
pra perpetuar o nosso amor na partitura.

Flora Figueiredo
In Chão de Vento
tela de  Matisse / Music

AMOR AMIGO
























Um mais um soma um ao quadrado...
Não, ao quadrado, não, ao cubo digo!
Mas também não! Um coração quebrado
pode colar-se a outro amor amigo.

Dois em um somam um, ou duplo seja:
a osmose cardíaca por amor;
se se quebra um órgão com fulgor
outro logo o socorre e o beija...

Pode colar-se a outro alquebrado
talvez fundir-se noutra ambivalência
e ambos serem um sujeito amado
em vez de um objecto com carência.

Não importa que seja teu, aceito,
de preferência bem amalgamado
desde que o sinta no teu peito.

Pode estar fraco e lasso sem ter jeito
mas é essencial que esteja bem lacrado
pra ambos serem um de cada lado!
 
 
Daniel Cristal
Blogger Poesia Portuguesa 
Tela de Tamara de   Lempicka / Idyll

LAMENTO





















Quando adoece um poeta murcham flores e o céu enevoa-se de cinza de todos os amores
- um mingua aquele que ama o Sol depois da Lua

A vista lacrimeja ao sofrimento e perde-se no mar
eflúvio vasto o refúgio da água sem represa movida pela chama de um lamento

Na doença quem não sente a sua dor
quem não dedica um verso solidário quem não reza uma oração de compaixão?
De cada vez que um poeta fica enfermo e algum tempo depois se reanima
o mundo compõe uma nova rima.


Daniel Cristal
Blogger Poesia Portuguesa
Tela  Marsden  Hartley / Wild Roses

PERDURAR NA DIVINDADE

























É na fusão do amor entre dois seres humanos
Que a divindade é atingida e perdura
Enquanto for intenso o carinho e a ternura
Durante os longos dias vividos sempre ufanos.

Fruídos nas Arte e Amor sem pressa nem urgência
Vividos um a um na fruição do corpo
E no usufruto da alma - belo jardim ou horto
Que outrora foi selvagem hoje cheio de ciência.

Uma ciência que nos leva à origem
Entre o macho e a fêmea - a cópula etérea
Fundindo a psique com o sema da matéria.

Tanto basta fundir o todo hoje virgem
Nem sempre sendo o original o que é primeiro
Pois pode ser mais verdadeiro o derradeiro.

Daniel Cristal
Blogger Poesia Portuguesa
tela de Tamara de Lempicka / Adam and Eve

 

SER OU NÃO SER






Ser ou Não-Ser não é questão vital!
O Não-Ser é vazio por excelência!
O vácuo é um buraco natural
E o Ser é plenitude na Essência...

A questão primordial é ser Essência,
É ser alma e matéria em proporção,
Igual na dimensão da existência
Real, permanência dum ciclo sem desvão!

No fundo, Deus está omnipresente;
Somos terra, energia e alquimia,
Somos princípio e fim da evolução;

Tudo o que é demonstrado não transcende,
Pois o Amor é imanência na Energia,
 Não-Ser no Universo, negação.
 
Daniel Cristal
Blogger Poesia Portuguesa
Tela  Blue Mountainc.1909/ Marsden Hartley


 


22/01/2011

DIVAGAÇÕES


















I

Sei de alguém que só recita
Poesia que entristece,
Porque na casa onde habita,
Onde sofre, onde adoece,

Só recebe uma visita,
Escondida numa prece
Ou numa frase bonita:
Só a musa lhe aparece.

Lembra coisas que comovem.
Mas quem é que vai chorar
Tendo versos pra rimar?

E enquanto os lábios movem,
As tristezas se dissolvem
Como as neblinas no ar.

II

Nas noites cheias de estrelas
A saudade suaviso.
Tenho olhos para vê-las,
É tudo quanto preciso.

Numa estrela como aquelas,
Nalguns versos de improviso,
Gravando a beleza delas
Minha vida romantizo:

Sou a Deusa, transportada
Num astro da imensidão,
Pelo céu toda abraçada,

Como o formoso clarão
Da noite toda estrelada,
Brilhando na escuridão.

III

A realidade vazia
Deixarei pra quem quiser;
Prefiro ser esmoler
Do mundo da fantasia.

Acordar pedindo ao dia
Um raio de sol qualquer,
À rosa mais rosicler,
A perfumada ambrosia.

A poesia ao caminho
Do horizonte descoberto,
À noite um doce carinho,

E as asas do passarinho,
Para mirar mais de perto
O céu de estrelas coberto.

Débora Leão
In Remoto Sonho
foto de  papaulo.martins no Flickr

CHOVE























Chuva.

Memórias.
Vivências.

Lágrimas que nos confundem.
Emoção contida,
refletida em mágoa,
como prantos que se expandem
em querer!

No abandono de si mesma
a gente ouve
som de música
e embalo de um cantar,
bendizendo a vida
para amar!

Alvina Tzovenos
In Sonhos e Vivências
Foto de  papaulo.martins

A VIDA TEM CORES


















A vida tem cores
nas cores da vida,
em aquarela tingida
...desenha luz e som!

A vida tem cores
no beijo dos pássaros,
num adeus sem perfumes
... no pólen das flores!

A vida tem cores
numa palavra amarga,
num céu muito amplo
... presença que tarda!

A vida tem cores
num abraço amoroso,
num sorriso que chega
... num crepúsculo choroso!

A vida tem cores
nos sonhos vividos,
nos mares inquietos
... encontros perdidos!

A vida tem muitas e muitas cores,
as que ninguém pode ver,
quando minh'alma chora e ri
pela felicidade
que eu posso conter!

A vida tem cores
mesmo num coração morto!

Alvina Tzovenos
In Sonhos e Vivências
Foto de  a Bert#

ARCANJOS
























Prismas divinos,
diáfanos,
de indizível formosura
refletindo a luz do sol...

Gotas de orvalho
na madrugada do Cosmo
cintilando,
trêmulas de felicidade
porque plenas de amor...

Revestidos de Beleza,
cheios de Sabedoria,
sois sopros
da Onipotência criadora,
raios de luz da realeza
desprendidos pela fonte geradora
para iluminar
a humana natureza.

Zoraida H. Guimarães
In Na Passarela do Tempo
foto de Sir Edward Burne-Jones


O PINGAR DAS HORAS




O dia escorre horas,
minutos, segundos,
instantes-gotas de vida
que vão caindo no tempo
onde tudo é registrado...

Soma das gotas que escorrem
unidas
à minha, à tua e a outras vidas,
forma o rio que corre
para a eternidade...

Em busca da felicidade
que se esconde, não sei onde,
o mar humano se agita
ora calmo e cantante
ora impetuoso...

Nada se acaba... nada morre
e a todo instante a nossa vida
escorre, gota a gota
nessa sede infinita
que é o grande (a)mar...

(A)mar humano
onde o rio da vida vai desaguar
depois de ter banhado e fecundado
os campos do nosso sonhar.

Zoraide H. Guimarães
In Na Passarela do Tempo
foto de summonedbyfells

PRECE AO VENTO


















Vento que vens chegando
de longe, de muito além,
que vieste alisando
os campos e os mares também,
pára um pouco, ouve o meu canto
e leva-o de volta
com as lágrimas do pranto
destes olhos sem revolta,
que olham com indiferença
os homens e a vida quadrada
dos que perderam a crença
entre as pedras da jornada.

Leva meu cantar dolente
nas tuas invisíveis asas
e espalha-o docemente
sobre esse mundo de casas
que não possuem canção.
Eu sou a harpa divina
numa alegre saudação
de mil vozes cristalinas.

Vento que moves águas,
que o fogo avivas ou apagas,
leva meu canto de mágoas
para pertinho do Sol
ou para fora da Terra.
Talvez num outro arrebol
além desta atmosfera,
com esta canção em arranjo
eu encontre aquele Arcanjo
que foi Homem nesta Terra.

Zoraida H.Guimarães
In Na Passarela do Tempo
Foto de  Wolfgang Binder

21/01/2011

A LUA




















A face morta da lua,
Sem fluído de atmosfera,
Sem um rumor, continua
Brilhando na sua esfera.

Sem uma notícia tua,
Sem calor, sem primavera,
Como o astro que flutua
Como a lua, ah, quem me dera,

Embora toda gelada,
Sem vida, sem luz,sem ar,
Por teus olhos contemplada,

Eu passaria a brilhar
Como a lua prateada
Refletindo a luz solar.

Débora Leão
In Remoto Sonho
foto de Defabled  no flickr

O MAR É LONGE, MAS SOMOS NÓS O VENTO





















O mar é longe,mas somos nós o vento;
e a lembrança que tira,até ser ele,
é doutro e mesmo,é ar da tua boca
onde o silêncio pasce e a noite aceita.
Donde estás,que névoa me perturba
mais que não ver os olhos da manhã
com que tu mesma a vês e te convém?
Cabelos,dedos ,sal e a longa pele,
onde se escondem a tua vida os dá;
e é com mãos solenes,fugitivas,
que te recolho viva e me concedo
a hora em que as ondas se confundem
e nada é necessário ao pé do mar.

Pedro Tamen
In site O Ponto de Encontro
tela de Willem Haenraets



HISTORINHA VERDE



Quando Deus criou o mar,
estava de bom humor.
Inventou o ioiô
que nunca parasse de ir e voltar.
Chegou então o homem
para usar a novidade.
Não é que o desastrado
se enrola com tal capacidade,
que suja, torce o fio e perde a bola.
Assustado, tenta um arranjo
com o arcanjo encarregado,
que argumenta:
" Você que é tão eclético,
ja fez até a lua deflorada,
não requer a nossa ajuda para nada.
Inventa agora um mar sintético.
Para torná-lo ainda mais real,
nada mais natural do que uma ilha
com um belo farol para ofuscar.
Se o conjunto porém desagradar,
abra a tampa, corte a onda,tire a pilha."

Flora Figueiredo
In Amor a Céu Aberto
tela  Marc Chagall

CLASSIFICADOS



Troca-se tudo:
- criado-mudo e seu recheio de cartas superadas,
   flores secas, novenas mal-sucedidas,
   receitas para emagrecer;
- colchão gasto do lado direito;
- instrumento que só toca dó maior;
- natureza-morta,
  onde frutas se combinam nostálgicas
   sobre toalha de xadrez;
- Campainha que soa apenas quando não se espera
   e nunca anuncia quem se quer;
- pilhas de revistas que insinuam
  que o mundo já foi melhor;
- livros que é preciso ter,
  mas que nunca foram lidos;
- bibelô que empoeiraram olhando coisa alguma;
- terço incompleto, que perdeu seu Deus final.
Aceita-se em troca,
pequena pipa de papel-de-seda,
que voe alto o bastante para enxergar a terra azul,
que seja capaz de romper nuvens,
bolinar sonhos,
driblar tempestades e beber fantasias.
Feito  o trato, o proprietário assinará documento,
garantindo o caráter irrevogável da transação.
Esse deve ser emitido em seu próprio nome:
Passado.

Flora Figueiredo
In Amor a Céu Aberto
tela Duy huyhn  

SALVE O SOL
























Salve o sol da manhã, o astro que assume
Atributos divinos, sem mistério,
Atrai a terra, com o brilhante lume
Apagando as estrelas do hemisfério.

Abençoado seja o seu império
Sobre os mundos.Por tudo que resume
O resplendor do seu clarão sidério:
Natureza,calor,vida,perfume;

Pelo raio de luz ao chão resvala,
Atravessando a lama, até levá-la
Como suave, pálida neblina,

Que amanhã cairá na pequenina
Gota de orvalho, resumindo a escala
De cores do clarão que me ilumina.

Débora Leão
In Remoto Sonho
foto de boharib no Flickr

S.FRANCISCO DE ASSIS

























A dor do arrependido é como a chaga
Sem remédio, é remorso.Um se embriaga,
Um outro ao suicídio foi levado.
Só sei de um que, no caminho errado.

Arrepende-se e enquanto o rosto alaga
De amargo pranto, a mão de Deus apaga
Todos os erros do cruel passado:
Só Francisco de Assis foi perdoado.

Mas antes de ir pro Céu fez-se poeta,
A solidão do campo era o convento,
A passarada alegre, irrequieta

Ruflando as asas, gorgeando ao vento,
Era o coro de anjos do profeta
Cantando salmos no firmamento.

Débora  Leão
In Remoto Sonho
tela de Sandro Botticelli


CANÇÃO DO AMOR IMPOSSÍVEL













Como não te perderia
se te amei perdidamente
se em teus lábios eu sorvia
néctar quando sorrias
se quando estavas presente
era eu que não me achava
e quando tu não estavas
eu também ficava ausente
se eras minha fantasia
elevada a poesia
se nasceste em meu poente
como não te perderia

Antonio Cicero
In A Cidade e os Livros
Foto de  a abdnishan

19/01/2011

O AMOR

 

Por que constantemente ambicionamos
Se nada é nosso, tudo aqui deixamos?
Se desta vida a leve alma incorpórea
Não nos leva sequer vaga memória?

Amemo-nos, que enquanto nos amamos,
Felizes como os pássaros nos ramos,
Esta doce emoção, mesmo ilusória,
Vale mais que o poder, o luxo e a glória.

Só sabe quem perdido, tresloucado,
Amou profundamente e teve a sorte
De apertar contra o peito o peito amado,

Também ardentemente apaixonado.
Depois de tão esplêndido transportes,
Que importa a dor da vida e da morte?

Débora Leão
In Remoto Sonho
tela de Willem Haenraets

É PRECISO





É preciso ser duro
como a pedra que parte
como a parte da pedra
que penetra a parede
e a parte
Como a rede que não vaza
como o vaso que não quebra
como a pedra que fende
o paredão da casa
E é preciso ser fraco
é preciso ter siso
e simulacro. É preciso
todos os dias vencer
os deuses pigmeus/golias

É preciso ter cara
e ter coragem

É cada vez mais raro
quem assim reage

É preciso ser duro
como o murro
como o muro
e é preciso ser doce
como se anteparo
de vidro
o muro fosse

É cada vez mais raro
ser duro e doce
cada vez mais torpe
ser apenas duro
cada vez mais nulo
ser apenas doce
cada vez mais duro
ser o muro e a nuvem
como se um só fossem.

Ivo Barroso
In Jornal da Poesia
foto retirada do blog http://ricardojchp.wordpress.com/

CASAMENTICES



Gosto quando de manhã
você vem me beijar
cheirando a creme de barbear
e pasta de hortelã.
Você me adula, mordisca, me encabula.
Finjo um descaso e o desconcerto
pra você então chegar mais perto e me desatinar.
Num compasso de perfeita maestria,
inauguramos outra vez o dia
só para amar.

Flora Figueiredo
In florescência
foto de Piet Bekaert

A ALMA É LIVRE



















Se a flor suave trescala
O aroma embriagador,
Ele colhe, despetala
E encerra o aroma da flor.

Se o trovão ribomba e estala,
Num crescendo assustador ,
Compondo uma enorme escala,
Ele escraviza o rumor.

Mas em vão, sem consciência,
Quer dominar nossa essência.
Nossa alma, leve, incorrupta,

Mais alta que a força bruta,
Que a vontade e a inteligência,
Paira, além da humana luta.

Débora Leão
In Remoto Sonho
foto de   Bafol

BAMBUSAL

















O bambusal e o vento vivem ambos
Sempre amigos, alegres, brincalhões.
Fortes e flexíveis, leves,bambos,
Inclinam-se os bambus nas direções

Que os ventos querem.Quantos corações.
Como eles, nos palácios, nos mocambos.
Uns egoistas, como as virações,
Outros rendendo ternos ditirambos.

Meu belo bambusal, não te desdobres
Em finezas, não lembres a bondade
Incondicional das almas nobres

Que tantas vezes a fatalidade
Obriga a conviver com aqueles pobres
De espírito, tão ricos de maldade.

Débora Leão
In Remoto Sonho
Foto de  jean_mauferon

TRATADO MANSO DE LOUCURA



Como amo a paz de estar comigo!
Essa fusão de alma-umbigo,
esse roteiro quente do meu sangue.
Eu que conheço cada palmo dos meus passos,
que me retenho e me disponho.
Faço dos versos meu avesso,
dos adversos, meu passado,
das alegrias, meu recomeço.
Deito liquefeita e, de repente,
amanheço solidificada.
Sou água, sou pedra,
às vezes nuvem,
às vezes nada.
Por ser inconstante e difusa,
enrolo e desenrolo essa vida
num movimento mágico e confuso,
admito ser ou não ser
e ser assim.
Como é bom sentir-me tão querida,
tão bem-amada e tão dividida,
eu resolvida inteiramente por mim!

Flora Figueiredo
In Florescência

DA MUSA E DO TEMA



Calou-se  o poeta por um momento
para esperar a musa
que se escondia
fria, opaca, indiferente,
em alguma estrela escusa.
Fechou as portas da poesia,
trancou o verso,
deixou o canto submerso em melancolia.
Cerrou as vidraças do encantamento,
aprisionou o vento, portador de trovas;
as rimas novas arquivou no peito.
Deu-se ao direito de dobrar a vida
até que , a lágrima perdida
num instante de desalinho,
fez-se gasosa
e evaporou no íntimo da rosa.
Retornada a musa de sua insensatez,
reintegrou-se o poeta e poetou mais uma vez.

Flora Figsueiredo
In Florescência

TRIBUTO AO AMOR QUE EVITA A MORTE VOLUNTÁRIA



















O mecanismo do relógio
que nos foi colocado
como um estigma de medo
é o próprio movimento
da dissipação amorosa
se invertido o processo
que dá origem simultânea
ao amor e ao seu contrário.

A arbitrariedade do tempo
precisou de instrumentos
para consolidar sua abstração
como uma matemática cotidiana
acessível e necessária. Assim
criou-se o pêndulo numérico.

A fragilidade do homem
precisou de desdobramentos
para viabilizar seu ímpeto
como uma relação afetiva
possível e ilusória.Assim
criou-se o oposto do nome.

O pêndulo é para o relógio
a justificativa de seu erro
em servir de veículo condicional
para que se manifeste como real
uma abstração transitória
denominada tempo pelo relógio.

O amor é para o homem
a justificativa de sua vida
em servir de instrumento reprodutivo
para que se manifeste no seu filho
uma emoção primitiva
que o faça amar-se como real,
como coisa existente em si mesma, viável.


Milton Carlos Rezende
In O Acaso das Manhãs
tela de Willem Haenraets

18/01/2011

ESPELHOS



Pesa-me a eternidade
a infinidade de máscaras ocultas
por trás
desse rosto novo.
O peso dos séculos
vividos e perpassados
eu tenho em mim
toda a história contida.
Histórias e lendas
de tempos remotos
reinados e revoluções
navegam livres
em minha memória.
Eu trago em meu corpo
marcas de nascimento e morte
tantas vezes vividos.
Pesa-me neste momento
a culpa de tanta vida
acumulada.
Milênios de paixões
e erros
arrastam-se em mim
como segundos.
Pesa-me a inércia
que me vem
sobrecarregada de gestos.
Enquanto em mim
guardam-se todos os segredos.
Viagens e voltas
num redemoinho de águas
me transpassam
Trago escondidas
as rugas, os choros,
as luzes esparsas.
Pesa-me a eternidade
capaz de caber
no meu corpo magro.
Cansa-me todo o passado
de onde
eu não vim só.
Uma multidão me atravessa
com seus rostos múltiplos
e  eternos.
Alegra-me a imortalidade
que me permite
despir tanto peso.

Miriam Portela
In O Continente Possuído
foto de a Etienne33

PENITÊNCIA





I

Ele dorme em mim
como um animal cansado
que gastou seu tempo
farejando alimentos.
Ele adormeceu lentamente
como um sonho vago
visto poucas vezes na imprecisão
das horas difusas de sono.
Ele repousa como um deus inerte
que não suporta afagos.
Ele descansa num esquecimento pardo
que não comporta entrudos.
Ele habita um compartimento escuro
que não permite estradas.

II

Cada rosnar seu
provoca um desgaste agudo
cada despertar seu
ocasiona um insônia eterna
toda lembrança sua
conduz a um sofrimento inútil
e a sua presença me traz
uma ausência incômoda.


III

Ele vive como um animal cansado
e eu o amamento
ele penetra num adormecer
sem sonhos
e eu o acompanho
ele repousa como um deus inerte
e eu o sustento
ele povoa um esquecimento pardo
e eu o visito
ele habita um compartimento  escuro
e eu o recolho.

Miriam Portela
In O Continente Possuído
tela Dipak Kundu
 

 

O SABIÁ (Cançoneta)
























Ó meu sabiá formoso,
Sonoroso,
Já desponta a madrugada,
Desabrocha a linda rosa
Donairosa,
Sobre a campina orvalhada.

Manso o regato murmura
Na verdura
Descrevendo giros mil,
Some-se a estrela brilhante,
Vacilante
No horizonte cor de anil.

Ergue-te, ó meu passarinho,
De teu ninho,
Vem gozar da madrugada,
Modula teu terno canto,
Doce encanto
De minh'alma amargurada.

Vem junto à minha janela,
Sobre a bela
Verdejante laranjeira
Beber o eflúvio das flores
Teus amores
Nas asas de aura fagueira.

Desprende a voz adorada,
Namorada,
Poeta da solidão,
Ah! vem lançar com  encanto
Mais um canto
No livro da criação.

Ó meu sabiá formoso,
Sonoroso,
Já desponta a madrugada;
Deixa teu ninho altaneiro,
Vem ligeiro
Saudar a luz d'alvorada.

Fagundes Varela
In Poesias Completas
foto de  Flávio Cruvinel Brandão

NÃO TE ESQUEÇAS DE MIM
























Não te esqueças de mim, quando erradia
Perde-se a lua no sidéreo manto;
Quando a brisa estival roçar-te a fronte
Não te esqueças de mim que te amo tanto.

Não esqueças de mim quando escutares
Gemer a rola na floresta escura,
E a saudosa viola do tropeiro
Desfazer-se em gemido de tristura.

Quando a flor do sertão, aberta a medo,
Pejar os ermos de suave encanto,
Lembra-te os dias que passei contigo,
Não te esqueças de mim que te amo tanto.

Não te esqueças de mim quando à tardinha
Se cobrirem de névoa as serranias,
E na torre alvejante o sacro bronze
Docemente soar nas freguesias!

Quando de noite, nos serões de inverno,
A voz soltares modulando um canto,
Lembra-te os versos que inspiraste ao bardo,
Não te esqueças de mim que te amo tanto.

Não te esqueças de mim quando meus olhos
Do sudário no gelo se apagarem
Quando as roxas perpétuas do finado
Junto à cruz de meu leito se embalarem.

Quando os anos de dor passado houverem,
E o frio tempo consumir-te o pranto,
Guarda ainda uma ideia a teu poeta,
Não te esqueças de mim que te amo tanto.

Fagundes Varela
In Poesias Completas
tela de John Usher

INFÂNCIA E VELHICE
























O lírio é menos cândido, a neve é menos pura
Que uma criança loira no berço adormecida;
Seus lábios entreabertos parece que respiram
Os lânguidos aromas e as auras de outra vida.

O anjo tutelar que o sono lhe protege
Não vê um ponto negro naquela alma divina;
Nunca sacode as asas para voltar ao céu,
E nem afasta ao vê-la a face peregrina

No seio da criança não há serpes ocultas,
Nem pérfido veneno, nem ferventes lumes;
Tudo é candura, ó Deus! su'alma inda inocente
É como um vaso de oiro repleto de perfumes.

Cedo ela cresce e os vícios os passos lhe acompanham,
Seu anjo tutelar pranteia ou volta ao céu;
O cálice doirado transborda de absíntio,
E a vida corre envolta num lutulento véu.

Depois ela envelhece, as ilusões se esvaem,
A calma vem, e a chama de seu viver se escoa;
A fronte pende em terra coberta de geadas,
E a mão rugosa e trêmula levanta-se e abençoa.

O infante e o ancião são dois sagrados seres;
Um deixa há pouco o céu, o outro ao céu se volta;
Um cerra as asas débeis e a divindade adora,
O outro adora a Deus e as asas níveas solta.

Do loiro querubim na face rósea e bela
Ainda existe o traço do beijo dos anjinhos;
Na fronte alta e severa do ancião, cintila
A chama que do Empíreo aponta-lhe os caminhos.

Nos tempos de desgraça, quando o existir é trevas,
E a dúvida se eleva do fúnebre ataúde
Nos olhos da criança creiamos na inocência,
E nos cabelos brancos saudemos a virtude!

Fagundes Varela
In Poesias Completas
tela de James Hayllar

CANTIGA DO AI





Ai, eu padeço de penas de amor,
Meu peito está cheio de luz e de dor!
 
Ai, uma ingrata tão fria me olhou,
Que vou-me daqui sem saber pra onde vou!

Eu cheirei um dia um aroma de flor
E vai, fiquei doendo de penas de amor!

Foi minha ingrata que por mim passou!
Ai, gentes! eu parto! não sei pra onde vou!

Ai, malvada ingrata que escolhi bem!
Eu sofro e não posso queixar de ninguém!

Sofro mas me orgulho de meu sofrer,
É linda a malvada que fui escolher!

Tem a mansidão dos portos de mar
Mas porém é arisca que nem pomba-do-ar!

Ela é quieta e clara, ela é rosicler,
É a boca-da-noite virada mulher!

Ai, unhas de vidro para me encantar!
Ai, olhos riscados pra não me enxergar!

Ai, peito liso, boca de carmim!
Ingrata malvada que não pensa em mim!

Ai, pena tamanha que me quebrou!
Adeus! vou-me embora! não sei pra onde vou!

Lastimem o poeta que vai partir,
Moçada se amando no imenso Brasil...


Mário de Andrade
In Poesias Completas
Tela de Tamara de Lempicka

CANTO NUPCIAL




Agora que estás amadurecida para o amor
e em teu sexo a peregrinação das luas se sucede,
escuta, Amada, o meu canto nupcial.

De tua fronde penderão corimbos,
anêmonas e as últimas pervincas dilatadas em maio;
teus seios recenderão a malvas adormecidas
no sereno das madrugadas suspensas;
uma orquídea equatorial, grande como um símbolo,
cingirás ao ventre
e, em teu sexo nu, a flor estonteante
de tua própria pureza conservada.

Quero-te assim — floral, assim meio bárbara,
que o nosso amor contém um pouco da força dionisíaca
da terra,
e teu ventre redondo — abrigo de sóis —
palpita na esperança genital da espécie.

No chão, tomando-te os cabelos, ansiosa de meu amor de esposo,
gritarás aos caules que nos cercam, para as frondes que nos cobrem,
que propício é o tempo de tua flor esmagada
se tornar em fruto.

E rolaremos nos rituais sagrados da progênie:
teus seios — como duas luas gêmeas — crescerão em suas fases;
teu ventre, penetrado de vida, se distenderá na lenteza das horas
e o próprio chão em torno se gretará pelas raízes
que emergem sôfregas de ser!

Ivo Barroso
Tradução de Curt Meyer - Clason
Tela  Geraint (Geraint and Enid)c.1860 Arthur Hughes

A DANÇA DAS HORAS





Dançando as horas se vão
Pelos caminhos do Tempo
Numa leveza de pluma…
Quem vedes na marcação
Do compasso e contratempo ?
- Uma.

Dançando se vão as horas
Sob os véus de fina gaze
Dançarinas semi-nuas…
Quem dança, das mais sonoras,
Esta belíssima frase?
- Duas.

Rapidamente bailando,
Cada qual mais erradia,
Desfila por sua vez.
E aquela, aos poucos finando
Nos horizontes do dia ?
- Três.

Vão dançando a tarantela…
- Mas, da última, o perfil
Me parece horrível e atro.
Ah! não falemos daquela;
Esta aqui é mais gentil.
- Quatro.

Sabeis acaso do nome
Da de vestido de faile
Que lhe queda como um brinco ?
Que pena! Logo se some …
A mais ligeira do baile!
- Cinco.

E aquela, de azul vestida,
Tão triste no seu bailar,
Seu nome acaso sabeis?
Parece o adeus da partida
Para nunca mais voltar…
 - Seis.

E esta, bailando qual fronde
Ao vento que vem do mar
Em que a lua se reflete ?
Trajada como o “gran’ monde”;
Esbelta no seu bailar ?!
- Sete.

Vós me enganais no bailar:
Sei que passais sem demora
(Quisera ser tão afoito
Que vos pudesse parar).
Mas, e esta que dança agora ?
- Oito.

Sob os vestidos de gazes
Trazeis convosco a ruína;
Vosso olhar não me comove,
Falazes horas, falazes…
Mas, e aquela bailarina ?
- Nove.

Dançou o rápido “allegro”;
Nem sequer o rosto olhou-me
E eu mal notei os seus pés.
E esta, vestida de negro,
Sabeis acaso o seu nome ?
- Dez.

Agora passam mais lentas:
Vede aquela que aí vem
Dando passadas de bronze
Pelas horas sonolentas…
Que nome será que tem ?
- Onze.

Aquela outra que se arrasta
Custando tanto a passar,
Que eternamente repouse
Já de tão velha e tão gasta.
Como se deve chamar?
- Doze.

Fechando o ciclo fugace
A de perfil atro vem
E nos leva em seu transporte.
Pois dessa, de horrenda face,
Dizei-me o nome, se tem?!

- MORTE.        (1948)

Ivo Barroso
Tela de Adolphe-William Bouguereau / The Dance

17/01/2011

VII


                                                                   VERDADES...

Tive uma árvore. Plantei-a
No jardim; até que, um dia,
Por um capricho, arranquei-a.
Tirei-a toda; e, na areia,
Na areia molhada e fria
Onde essa árvore crescia,
As folhas verdes, e as flores
Dos mais risonhos matizes,
Cobriram de várias cores
Todo o lugar das raízes.

***

Depois, eu tive um afeto.
Tive um afeto, e deixei-o
No recanto mais secreto
Da minh'alma e do meu seio
Crescer e florir...

E um dia,
Por ciúmes, arranquei-o.
Arranquei-o;  e desde então,
- À semelhança das flores
Sobre as extintas raízes, -
Na minha doce ilusão,
Procuro novos amores
Que cubram as cicatrizes
Que tenho no coração...

Humberto  de Campos
In Poesias Completas

X



 " NIPPON"


Um dia, na Amplidão, por desígnio de Brama,
Alguém abriu no Caos a flor de uma ferida:
E o pólen dessa flor é de sangue, e derrama
Sobre o mundo, onde cai, como os pólens, a Vida.

E este sangue tem fogo; e este fogo tem chama;
Onde desce, a água seca; e onde seca, florida,
Abre a Terra num beijo, e em carícias se inflama,
Dando beijos de flor, toda em flores vestida...

E eram do coração, do músculo mais belo,
Mais sensível, que o Caos, num rugir soberano,
Mil gotas espalhou sobre o Mar Amarelo.

E é de então que se vê, sobre o mar agitado,
Palpitar, refulgir, no céu do Grande Oceano,
A áurea constelação das ilhas de Micado.

Humberto de Campos
In Poesias Completas

SONETO

















Em mim tu podes ver a quadra fria
Em que folhas, já poucas ou nenhumas,
Pendem do ramo trêmulo onde havia
Outrora ninhois e gorjeio e plumas.
Em mim contemplas essa luz que apaga
Quando no poente o dia se faz mudo
E pouco a  pouco a negra noite o traga,
Gêmea da morte, que cancela tudo.
Em mim tu sentes resplender o fogo
Que ardia sob as cinzas do passado
E num leito de morte expira logo
Do quanto que o nutriu ora esgotado.
Sabê-lo faz o teu amor mais forte
Por quem em breve há de levar a morte. 

William Shakespeare
Tradução de Ivo Barroso
tela de Sir Edward Burne-Jones