27/11/2008


Foto de Márcia Werlang

PERDI

Perdi o que mais puro entremostrara
a face transparente: nadam agora
peixes no aquário do silêncio.

Fui-me, tinha de ir, desvaneci-me,
dissipei-me nas asas que flutuando
em mim criaram pássaros.

A floresta das almas, impassível
como um silêncio de metal, pesando
na noite, me tecia.

A noite me tecia. Refluindo
para o que, rijo muro, me impedia
a visão do translúcido,

desci nas águas turvas escutando
um, canto longe, um canto tão distante
que o mundo em mim morria,

que o mundo em mim de novo se criava
e eu era um deus cativo de si mesmo,
dissolvido na treva.

Alphonsus de Guimaraens Filho
In Discurso no Deserto

by Henry Tidey

PAIXÃO

Paixão da vida já ida,
paixão da vida,

toda me cruzaste acesa
na pungência, na aspereza

de lâminas, Paixão da vida
que à morte incita e convida

a caminhar sob o ardor
de um gosto de exausto amor.

Que à noite leva e destrói
e malbarata e, se dói,

dói como um insulto ou murro
e, em silêncio, é mais que um urro.

É mais que o fogo cremando,
mais que o fogo devastando,

paixão da vida tenaz,
um pobre e temido , mas

adversativamente posto
como um sorriso num rosto

retorcido em tetania.
Paixão que devora, fria,

cruel, feroz, insensata,
e crê salvar, quando mata.

Alphonsus de Guimaraens Filho
In Discurso no deserto

25/11/2008


Foto de Márcia Werlang

CANÇÃO PARA DEPOIS

À maneira de Cecília

Quando esta pura voz que ouviste
Serenamente calar-se,
Como é que descobririas
O seu disfarce?

Não digas palavras loucas
Em meus ouvidos de pedra!
Não busques na voz do vento
Minha resposta...

Silêncio! E, depois, afasta
O passo que se avizinha...
Que ninguém veja esta face
Que não é minha!

Mario Quintana
In Apontamentos da História Sobrenatural

Foto de Márcia Werlang

CUIDADO!

Nós somos gestantes da alma... Cuidado!
É preciso muito, muito cuidado
Para que a alma possa nascer normal na outra vida.
Nesta, ela mal pode, ela quase não tem tempo de ficar pronta!
Como é possível, com esses cuidados e mais cuidados sem conta,
Ah, toda essa vergonha de sermos devorados
- meticulosamente - por milhões de ratos
durante sessenta, setenta, oitenta anos
Quando bem poderia surgir de súbito o nobre leão da morte
Na plenitude nossa
Como acontece com os heróis da Ilíada,
Mas os heróis só morrem - No País da Ilíada -
Belos e jovens...
Aqui, qualquer heroísmo se desmoraliza dia a dia
como a barba do tempo arrancada, fio a fio,
das folhinhas...
Como é possível, como é possível uma alma triturada
assim pelos relógios?
Como é possível nascer com um barulho destes?!

Mario Quintana
In Apontamentos da História Sobrenatural

by Lotus1.blogs

A vida do homem é tecida no tear do tempo, conforme um padrão que ele não vê, mas que Deus vê, e seu coração está na lançadeira. De um lado do tear, está a tristeza; do outro, a alegria. E a lançadeira, impelida alternativamente para cada lado, voa para a frente e para trás, carregando a linha, que é branca ou preta, conforme exige o modelo. No fim, quando Deus tira o tecido terminado, e todas as suas cores alternadas forem vistas no seu conjunto, ver-se-á que as cores escuras são tão necessárias à beleza do pano quanto as cores brilhantes.

Henry Ward Beecher
by Autocultura blogger

23/11/2008

AQUELES QUE ME TÊM MUITO AMOR


Aqueles que me têm muito amor
Não sabem o que sinto e o que sou...
Não sabem que passou, um dia, a Dor
À minha porta e, nesse dia, entrou.

E é desde então que eu sinto este pavor,
Este frio que anda em mim, e que gelou
O que de bom me deu Nosso Senhor!
Se eu nem sei por onde ando e onde vou!!

Sinto os passos de Dor, essa cadência
Que é já tortura infinda, que é demência!
Que é já vontade doida de gritar!

E é sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio,
A mesma angústia funda, sem remédio,
Andando atrás de mim, sem me largar!

Florbela Espanca

by Peter Paul Rubens » Venus in Front of the Mirror

Enquanto, a competir com teu cabelo,
o ouro brunido ao Sol reluz em vão
e, pálido de inveja, quedo ao chão,
perde-se a contemplar-se o lírio belo,

e o rubro de teus lábios deixa em zelo
mais olhos do que o cravo temporão,
e o colo altivo traz um ar loução
como o cristal luzente aspira tê-lo;

goza lábios, cabelo, colo albente,
antes que tudo, em tua idade alada
- ouro, lírio, cristal, cravo rubente -

não só se acabe em prata e flor crestada,
mas tu e a tua vida, juntamente,
em terra, em fumo, em pó, em sombra, em nada..

Luís de Góngora y Argote
1561 - 1627 -
Trad. de Delson Tarlé

by Peter Paul Rubens » Venus and Adonis

Tu Fénix, tu do amor doce traslado,
Companheiro em meus males peregrino,
Pois se em fogo te acaba o teu destino,
Em chamas me atormenta o meu cuidado

Tu te podes queixar de um triste fado,
Eu me queixarei de um deos mínimo,
Pois tu por desgraçado, e eu por fino
Acabas encendido, eu abrasado.

Mas oh, que as tuas ânsias são pequenas
À vista do martírio, em que discorro,
Porque renasces em morrendo apenas;

E servindo-te as penas de socorro.
Tu renasces do fogo em tendo penas,
Eu porque muito peno, em chamas morro..

Francisco de Vasconcelos Coutinho
In Fenix Renascida III

by Peter Paul Rubens » The Rape of Europe, after Titian

VIII

Fecham-se os Céus, os Anjos ensurdecem,
armam-se as nuvens, sopram-se as fornalhas
dos abismos, e em trémulas batalhas
gritam esferas, montes estremecem;

Os astros, que de sombras se guarnecem,
lutos dos orbes são, do horror mortalhas;
turvam-se os mares, armam-se as muralhas
dos Céus, sobem clamores, raios descem;

Grita o mar, brama o fogo, silva a fera,
chora Adão, geme o pranto, brada o rogo,
ensurdece-se Deus, o Império, a esfera;

Ó Adão infeliz! que desafogo
terás, se contra ti vês, que se altera
o abismo, a terra, o mar, o Céu e o fogo.

Francisco de Vasconcelos Coutinho
by Hecatombe Métrico, 1729

by Peter Paul Rubens

VENDO-SE ENTRE CONFUSÕES NASCIDAS DE SI MESMO


Vasto mar, triste Tróia, irado Noto,
Nasce o pranto, arde o amor, cresce o suspiro;
Pois Céus busco, astros sigo, a bens aspiro,
Etnas guardo, Euros rompo, Nilos broto.

Sem norte, sem discurso, e sem piloto,
Cego à luz, vivo ao raio, exposto ao tiro,
Luzes bebo, ares corto, escolhos giro,
Clície amanta, águia cega. e lenho roto.

Se Etnas verto, ares queimo, horrores toco,
Baste o ardor, pare o harpão, cesse o tormento,
Cego amor, doce agrado, incêndio louco,

Vê que na dita, na ânsia, e no lamento,
Leve o bem, viva a dor, o alívio pouco,
Morre flor, Fénix vive, acaba o vento.

Francisco de Vascencelos Coutinho
in Fénix Renascida, 1766)

22/11/2008


by adeliatheresacampos.blogspot.

HAIKAI

À margem do rio
o salgueiro, pensativo,
observa a paisagem.

Delores Pires
In Passeio ao Luar

21/11/2008


by Gustav Klimt » Farm Garden with Sunfowers

CHANCE

Quando seu silêncio emudecer
no meu,
e os dois se acasalarem
numa plenitude imoral,
é chegado o sinal
de que nosso amor é bem possível.
Amar é tornar a quietude indivisível.

Flora Figueiredo
In Calçada de Verão

QUEBRANTO



Mira-te encanto traído
Teu vento virado
Na água.

Afasta a dor e o sentido
E lambe as tuas cinco chagas.

Afaga então a pedra
Chama os deuses
Asperge na concha do ouvido
O eco de luas sonhadas.

Corta o quebranto
Na lâmina funda
Da água.

Mira-te agora
Mira-te flor enquanto
Te espalhas em ondas
Na água.

Fernando Campanella

AO VENTO




Fica comigo, mas não posso pedir ao vento
que sopre ao alcance de meu ouvido,
ou à terra que abençôe meus segredos contigo –
nem mesmo da luz querer ouso
que se detenha em meu abrigo.
Quando os dados lançados, e até meu silêncio,
contra toda certeza parece que conspiram
- e caso os dedos do mundo
em suas recurvas unhas nos firam -
releva, e fica comigo: os anjos sabem mais alto
daquilo em que insisto, do que preciso.

Fernando Campanella
foto  Macke - Lady in Green jacket

20/11/2008

RENASCIMENTO



Queria
poder romper hoje o dia
com um grito
que ultrapassasse a névoa amanhecente
e contasse sonoro a toda gente
que te encontrei às bordas do infinito.
Que te colhi cadente
e te alimentei;
e descobri a seiva pra te fazer contente.
Renovei-te a estrada
pra que nada atrapalhasse
teu cenário,
e num gesto ardente e humanitário
te revigorei.
Das sementes que espalhei,
quero as floradas
em tons de amarelo
e as encarnadas
pra polvilhar de cor nosso caminho;
e quando a noite cair com seu jeitinho
de cumplicidade,
quero-te frondoso e reluzente
a compor intenso, incandescente
meu soneto da total felicidade.

Flora Figueiredo
In Calçada de Verão
Foto de Marcio Rangel

Foto de Tang David

MANHA

Ele tem um lado gato
que ronca,
roça,coça
e lambe o fundo do prato.
Uma pelagem
lânguida e lassa
que se devassa toda
só por um agrado.
E se revira
e se retorce
num relaxo mole
que mexe, beija e bole.
Dorme no capacho.
Mas tem um lado fera,
falso, felino,
vil, ardiloso.
É quando me destempera
e me domina,
e então me desrespeito em gozo.

Flora Figueiredo
in Calçadas de Verão

19/11/2008


Foto de Flávio Cruvinel Brandão

COMPANHEIRISMO

O poeta
não fica só,
pois tem sempre ligação direta
com a alegria.
Se a estrela brilha,
ele se ilumina
e se corre a chuva
fina e fria,
ele logo entra em sintonia
e gosta.
Se a lua já subiu
pelo barranco,
o poeta se desnuda
e beija o branco.
Tem sempre uma resposta
ao chamado do sol,
seu eterno namorado,
que deita irreverente
em seu jardim.
O poeta é assim:
um eterno acompanhado.
Mas, se um dia
ele ficar calado,
espera.
Não é que esteja sozinho:
deve estar aos pés de um passarinho
compondo o amanhecer da Primavera.

Flora Figsueiredo
In Calçada de Verão

POESIS






A poesia é algo assim
Como uma dúbia certeza,
Aposta de um tudo
No oco intraduzível do nada,
Algo como a luz-menina dos olhos
Entreabrindo a opacidade,
Sumo delicado
Espremido de alegrias
E enfermidade,
Efemérides
E ainda um certo milagre,
Pérola pescada -
Insípida borboleta dos dias
Pela magia do verbo eterno
Encantada.

Fernando Campanella
tela Leonid Afremov

Foto de Flávio Cruvinel Brandão

HAIKAI

Terminada a chuva
o joão-de-barro, inspirado,
põe a mão na massa!

Delores Pires
In Flor de Café

SOB PRIMAVERAS





Ao chafariz de Cristina, sul de MG)

O chafariz do largo da praça tem lá sua história oficial, porém no túmulo de seu silêncio encerram suas conchas uma comédia humana que sua placa-epitáfio não diz. Assim as estórias anônimas, lutos de amor, serenatas, antigos carnavais... quem sabe as musas sob aquelas luas tintas, abissais.
Suas bacias, sob antigas primaveras, lavaram a roupa da plebe ; aplacaram suas taças a sede da imperatriz.
Secaram as pias , passaram conselheiros e generais, mas resistiram o granito e a pedra de cantaria .
E aqui, sob árvores- orquídeas, no banco de ferro-forjado, diante de sua funda memória eu me sento. Minguaram suas bicas, impunemente, eu não choro, de outras águas eu bebo, rega-me o chafariz por dentro.

Fernando Campanella
foto por Fernando Campanella 
(Chafariz de Cristina, Sul de Minas Gerais)

Foto de orxeira

HAIKAI

Um raio de sol
pendurado no horizonte
ao fugir da tarde...

Delores Pires
In Piscadas de Sol

Foto de nighthawk3

NÁUFRAGO DO AMOR

Venho das tempestades, das tormentas
dos meus sonhos sem bússola e sem rumo,
no naufrágio do amor eu me consumo,
batendo-me entre as ondas violentas.

Tento vencê-las em braçadas lentas,
à espera de socorro me resumo,
no vai-e-vem das ondas perco o prumo
entre espumas serosas, pardacentas.

Resisto aos imprevistos da procela
e em terra firme vejo alguém, é ela!
Suas mãos me acenando em frente ao cais.

Porém, bem perto de chegar à praia,
o meu corpo se esvai, se cansa, esmaia,
tento nadar e não consigo mais!

Ronaldo Cunha Lima
In As flores na janela sem ninguém

Foto de nighthawk3

INVOCAÇÃO À POESIA

1

Vem Poesia,
com os teus longos cabelos cor de sonho!

Vem com as vestes de chama, com alpercatas
de chama e véus de chama e voz de chama,
com os teus dedos de fogo, incendiados!

Vem dos grandes abismos que resistem
ao nosso grande apelo! Poesia,
deusa da noite e dos desvãos da morte,

vem, estrangeira, cega embora, vem,
iluminada! vem que o sortilégio
da presença invisível nos condena

a esse olhar sem piedade, a esse soluço
que rebenta das pedras e das almas,
para rolar nas águas e no sangue...

2

Vem, Poesia irmã,vem Poesia
incendiária, tu que santificas
e renasces cantando, num delírio
que a nós sem paz, a nós desamparados

sob a rigidez da noite impenetrável,
a nós nos aniquila e uivando investe
contra as árvores más, contra as montanhas

onde os mortos também já não repousam...
Vem Poesia, santa, ó casta, ó leve
gêmea de um paraíso que pressinto,

que pressentimos na saudade, vem,
irmã da noite, irmã da morte, vem
das neblinas mais castas, desdobrada

sobre os corpos que descem regelados,
sobre os olhos inertes, todavia
De luz que não se vê? antes, da luz

3

De luz que não se vê? antes, da luz
que não teremos se nos conservares
tão longe de teu hálito vermelho,

tão longe da feroz simplicidade,
da feroz inocência de teus gestos
de cega e visionária, de teus gestos

que derrubem paredes, atordoam
as muralhas da sombra - essas muralhas
contra as quais chora a noite e se esfacela;

desse intangível céu em que de súbito
te transfiguras, vergastando a treva,
maravilhoso látego de estrelas...

4

Vem, Poesia, do torpor, do amargo
cansaço que cresceu no mundo e esmaga
os corações, do antigo desalento

que hoje nos invadiu e nos sepulta,
desse ódio sem pátria e sem fronteiras,
desse espanto cruel de quem no mundo

não vê nem sente o irmão e em vão carrega
a grandeza da noite sobre os ombros;
dessa eterna aflição de quem não pode

ter sua voz ouvida, nem seu sonho
projetado nas almas, desse eterno
desespero sem Deus! vem Poesia,

umedecida de pureza, e tudo
serenamente envolve no teu frágil,
evanescente canto fugidio...

5

Mas se acaso sofreres , mas se acaso
te alucinar a nossa indiferença
e a torpeza e a cegueira que nos guiam,

explode, Poesia! arrebatada,
explode contra nós! ó libertária,
ó santa, ó deusa oculta! explode e ulula,

e atravessa esta carne e nos castiga
e reduz estes ossos e castiga
e num tropel, no súbito fragor

das ventanias mais desaçaimadas,
na convulsão suprema, explode, ulula,
arranca-nos do mundo, extrai da treva

nosso grande pavor! e nos atira
a esse vale de mortos, a esse espesso
refúgio onde é maior o desespero,

a esse vale abissal onde a loucura
sobre nós deitará um luar de sangue,
- do pavoroso sangue de outra morte...

Alphonsus de Guimaraens Filho
In Água do Tempo

17/11/2008


Foto de manelympus

REFLEXOS

Olho-te pelo reflexo
Do vidro
E o coração da noite

E o meu desejo de ti
São lágrimas por dentro,
Tão doídas e fundas
Que se não fosse:

o tempo de viver;
e a gente em social desencontrado;
e se tivesse a força;
e a janela ao meu lado
fosse alta e oportuna,

invadia de amor o teu reflexo
e em estilhaços de vidro
mergulhava em ti.


Ana Luísa Amaral
In Anos 90 e Agora

Foto de zenera

QUALQUER COISA DE INTERMÉDIO

Eu não sou um nem outro:
Sou qualquer coisa de intermédio
M. de Sá-Carneiro

Se eu fosse o outro,
o do chapéu macio e do bigode
eternizado em cúbico arremedo,
angústia dividida em tantas partes
e óculos redondos,
podia-te contar eu guardador e sonhos

Se eu fosse o outro,
o delicado e bêbedo génio de nós todos,
o que amou estranho e sabia dizer
coisas enormes numa pequena língua
e fraco império,
se eu fosse aquele inteiro
ditado de exageros e exclusões,
falava-te de tudo em ingleses versos

E mesmo se não foi ele quem disse
( e podia até ser, que eram amigos
e o século a nascer arrepiava como já não
o fim) há razão nessa história do pilar
e do tédio a escorrer de um
para o outro

Ana Luísa Amaral
Minha Senhora de Quê

Foto de zenera

AOS QUE PASSAM PELA NOSSA VIDA

Cada um que passa na nossa vida passa sozinho...
Porque cada pessoa é única para nós, e nenhuma substitui a outra.
Cada um que passa em nossa vida passa sozinho, mas não vai só...
Levam um pouco de nós mesmos e nos deixam um pouco de si mesmos.
Há os que levam muito, mas não há os que não levam nada.
Há os que deixam muito, mas não há os que não deixam nada.
Esta é a mais bela realidade da vida...
A prova tremenda de que cada um é importante e que ninguém se aproxima do outro por acaso...

Antoine de Saint Exupéry

Foto de zenera

Faça o que for necessário para ser feliz. Mas não se esqueça que a felicidade é um sentimento simples, você pode encontrá-la e deixá-la ir embora por não perceber sua simplicidade. Ela transmite paz e não sentimentos fortes, que nos atormenta e provoca inquietude no nosso coração. Isso pode ser alegria, paixão, entusiasmo, mas não felicidade.

Mario Quintana


Foto de xalgiox

Deus, põe teu olho amoroso sobre todos os que já tiveram um amor e de alguma forma insana esperam a volta dele: que os telefones toquem, que as cartas finalmente cheguem. Derrama teu olho amável sobre as criancinhas demônias criadas em edifícios, brincando aos berros em playgrounds de cimento. Ilumina o cotidiano dos funcionários públicos ou daqueles que, como funcionários públicos, cruzam-se em corredores sem ao menos se verem - nesses lugares onde um outro ser humano vai-se tornando aos poucos tão humano quanto uma mesa. Passeia teu olhar fatigado pela cidade suja, Deus, e pousa devagar tua mão na cabeça daquele que, na noite, liga para o CVV... Olha também pelo motorista de táxi que confessa não ter mais esperança alguma... Olha por todos aqueles que queriam ser outra coisa qualquer que não a que são, e viver outra vida que não a que vivem... Deita teu perdão sobre todos que continuam tentando por razão nenhuma - sobre esses que sobreviveram a cada dia ao naufrágio de uma por uma das ilusões.

Fragmentos de ZERO GRAU DE LIBRA - Caio Fernando Abreu

16/11/2008


Foto de Alessandra

HAIKAI

Sonho de criança:
no jogo da amarelinha
a vida acenando...

Delores Pires
Estações (Primavera)

Foto de *Saariy*

NA TARDE ERRAMOS

Na tarde erramos
Nós, tu e eu,
Mas três.
Tão sós que vamos
E não sou eu
Quem vês.

Discreto calo,
P'ra que o meu senso
Louves;
Em vão não falo,
Tanto o que eu penso
Ouves.

Melhor me fora
Que a outro assim
Levasses
E, longe embora,
Somente em mim
Pensasses.

Reinaldo Ferreira

by Kim Anderson

PASSEMOS, TU E EU, DEVAGARINHO

Passemos, tu e eu, devagarinho,
Sem ruído, sem quase movimento,
Tão mansos que a poeira do caminho
A pisemos sem dor e sem tormento.

Que os nossos corações, num torvelinho
De folhas arrastadas pelo vento,
Saibam beber o precioso vinho,
A rara embriaguez deste momento.

E se a tarde vier, deixá-la vir...
E se a noite quiser, pode cobrir
Triunfalmente o céu de nuvens calmas...

De costas para o Sol, então veremos
Fundir-se as duas sombras que tivemos
Numa só sombra, como as nossas almas.

Reinaldo Ferreira

Foto de anodari

SONHO COSTUMEIRO

Eu sonho-te nas ramas das videiras
como frutos dos vinhos de venturas
em rebentos de graças costumeiras
que me lavam de brisas e ternuras.

E vejo como em sonhos de pastora
tanges de mim sentidos já remidos
e me levas em sombras protetoras
à ravina de amor dos teus abrigos.

E tenho-te nas heras dos penedos
meu pássaro cantor que a ti visita
nos jardins de secretos arvoredos
onde teu sonho de mulher habita.

E fico em ti como o destino antigo
tocado para mais além da história
onde soubeste que sonhar comigo
seria o amor deixado na memória.

Afonso Estebanez

CATILINA




Eu sou o solitário e nunca minto.
Rasguei toda a vaidade tira a tira
E caminho sem medo e sem mentira
À luz crepuscular do meu instinto.

De tudo desligado, livre sinto
Cada coisa vibrar como uma lira,
Eu - coisa sem nome em que respira
Toda a inquietação dum deus extinto.

Sou a seta lançada em pleno espaço
E tenho de cumprir o meu impulso,
Sou aquele que venho e logo passo.

E o coração batendo no meu pulso
Despedaçou a forma do meu braço
Pra além do nó de angústia mais convulso.

Sophia de M.B. Andresen
In Poemas escolhidos
Foto por zenera

foto de Foto de zenera

MEUS DIAS

No dia em que a Felicidade bater
À porta da frente de minhas constâncias
Eu já não estarei mais dentro:
Terei saído de mudança
Pela porta dos fundos.

Mas Ela encontrará tudo arranjado:
O chão limpo e encerado,
A louça lavada e guardada,
As camas perfumadas e estendidas,
As coisas alinhadas e sem pó,
A alma livre e serenada.

Esquecerei então que um dia fui
Pedra selvagem e estrela cadente,
Carvão e diamante,
Esterco e pétala,
Corcunda e asas.

Serei uma gota de orvalho cristalizada
Que o destino quis como pingente
Adornando a garganta da eternidade.

Oswaldo Antônio Begiato

LIBERDADE



O poema é
liberdade

Um poema não se programa
Porém a disciplina
- Sílaba por sílaba -
O acompanha

Sílaba por sílaba
O poema emerge
- Como se os deuses o dessem
O fazemos

Sophia de M.B. Andresen
In Poemas Escolhidos
 Foto por zenera

OLHOS



Dois pássaros voam,
de um leve azul inebriados.
De onde os vejo
Só há o espelho quieto de um lago.
E já não sei o que é mais visível
se o que enxergo, as aves,
com meus olhos,
ou se aquelas flautas moventes
sincronizadas,
que sonho
com os olhos quietos do lago.

Fernando Campanella
Foto de little_frank


by Pierre-Auguste Renoir

CUIDA DO TEU JARDIM!

Cuida do teu jardim! Vê que bonito!
não há erva daninha nem espinho.
Há flores róseas, louras, cor de vinho,
as colores mais lindas do infinito!

Alimenta tua paz. Deixa o conflito
àquele que na vida está sozinho.
O amor está contigo, em teu caminho,
e o amante do amor sempre é bendito.

Cuida do teu jardim, que ele floresça
cada flor em botão, que pareça
do Éden, dos jardins o mais perfeito.

Enquanto deles cuida, ao teu lado
há uma sombra. Sou eu que, com cuidado,
vou te guardando flor dentro do peito.

Ronaldo Cunha Lima
In Flores na janela sem ninguém ...

15/11/2008


by Pierre-Auguste Renoir » The Fisherman

O MEDO E A FALTA

Você me faz medo,
mas você me faz falta.

A diferença entre o medo e a falta
é que o medo você sabe quando tem,
e na falta você sente que não tem.

A falta, com o medo, sobressalta.
Entre o medo que você me traz
e a falta que você me faz,
você é o medo que me falta.

Ronaldo Cunha Lima

by Joaquin Sorolla y Bastida

HAVEREI DE TE AMAR A VIDA INTEIRA

Haverei de te amar a vida inteira
Mesmo unilateral o bem querer,
é forma diferente de se ter,
sem nada se exigir da companheira.

Haverei de te amar a vida inteira,
(não precisa aceitar, basta saber),
pois amor que faz bem e dá prazer
a gente vive de qualquer maneira.

Eu viverei de sonhos e utopias,
realizando as minhas fantasias,
tornando cada qual mais verdadeira.

Eu te farei presente em meus instantes.
Supondo que seremos sempre amantes,
haverei de te amar a vida inteira.

Ronaldo Cunha Lima

by Spring Love by Oleg Zhivetin

UMA HISTÓRIA EM DOIS TEMPOS

Cada tempo viveu uma estação:
um inverno de sonhos e quimeras,
o florido das belas primaveras
e o outono com folhas pelo chão.

E em meio à tempestade, a inundação
do nosso espaço, abrindo-lhes crateras
separando, entre nós, as crenças veras
no amor e temor à solidão.

Houve fugas de rotas e caminhos,
distâncias nos afetos e carinhos
em confissão final, a mais sincera.

Nossa história, em dois tempos dividida:
uma metade em sonhos foi vivida,
outra metade é, tão somente, espera.

Ronaldo Cunha Lima
In Flores na janela sem ninguém

BY Sorolla y Bastida

NUNCA SÃO AS COISAS MAIS SIMPLES

Nunca são as coisas mais simples que aparecem
quando as esperamos. O que é mais simples,
como o amor, ou o mais evidente dos sorrisos, não se
encontra no curso previsível da vida. Porém, se
nos distraímos do calendário, ou se o acaso dos passos
nos empurrou para fora do caminho habitual,
então as coisas são outras. Nada do que se espera
transforma o que somos se não for isso:
um desvio no olhar; ou a mão que se demora
no teu ombro, forçando uma aproximação
dos lábios.

Nuno Júdice

Angel Of Mercy by Oleg Zhivetin

ANJO AZUL

O meu anjo é azul, nem sei por quê!
Eu só sei que é azul, de azul intenso
que me colore a mente quando penso...
Quem sabe, esse anjo azul seja você?

Pois volto a vê-lo, se você me vê.
Quando a vejo de azul, perco meu senso.
E quando perco o senso, eis-me propenso
a crer num anjo azul, que ninguém crê.

Meu anjo azul, você, numa aquarela
de flores multicores, na janela
de uma casa, que surge à minha frente,

seja das musas o anjo bom, aquela
que vestida de azul fica mais bela,
que, sendo sonho, seja eternamente!

Ronaldo Cunha Lima
In As flores na janela sem ninguém...

Joaquin Sorolla y Bastida

PONTEIO SUSPIROSO

Que ai de mi!
Gonçalves Dias

A tua boca madura
ai de mim!
pulsasndo na noite escura
me fez buscar-te sonhando
praia clara me esperando
e recendendo a jasmim.

Não sei nem por onde ia,
ai de mim!
Que tristeza resistia
no olhar magoado distante
na curva tênue do dia
do teu corpo palpitante
nas mãos jogadas no branco
do vestido esvoaçante
na lua sobre o barranco
ai de mim!

Dormi sobre as ribanceiras
na encosta dos laranjais.
Vi a manhã (a primeira)
toda molhada de ais.
Laranjeira, laranjeira
a quem irás perfumar?
Diz que a mais linda praieira
vai breve se casar...

Lua louca lua antiga
prepara teu enxoval!
Lua velha lua amiga
tão branca no laranjal.
Eu vou cantando na vida
que ai de mim!
procuro a face da ausente
praia desaparecida
na morte como na vida
na casa de antigamente
na rua por onde vem...
Coração, dize somente:
Ai de mim!
Surdo louco impenitente
num suspiro mais ardente:
Ai de mim!

Alphonsus de G. Filho,
In Água do Tempo

Depth Of Love by Oleg Zhivetin

CANTIGA

Uma história de amor começa quando
a gente volta ao tempo de criança,
brinca de sonhos, pinta de esperança
o tempo que nem sente estar passando.

A gente segue no sonho , vai sonhando
e o sonho vai guardando na lembrança,
das mudanças de cor cada nuança,
cada instante de rir, de estar chorando.

Uma história de amor a gente alenta
pra ser eterna - e como a gente tenta
que as histórias de amor não tenham fim!

Mas de repente, a rusga, alguma briga,
a história finda e fica essa cantiga :
Era uma vez... Um dia...Foi assim

Ronaldo Cunha Lima
In As flores na janela sem ninguém...

13/11/2008


Entreaty by Oleg Zhivetin

Esta manhã encontrei o teu nome nos meus sonhos
e o teu perfume a transpirar na minha pele. E o corpo
doeu-me onde antes os teus dedos foram aves
de verão e a tua boca deixou um rasto de canções.

No abrigo da noite, soubeste ser o vento na minha
camisola; e eu despi-a para ti, a dar-te um coração
que era o resto da vida - como um peixe respira
na rede mais exausta. Nem mesmo à despedida

foram os gestos contundentes: tudo o que vem de ti
é um poema. Contudo, ao acordar, a solidão sulcara
um vale nos cobertores e o meu corpo era de novo
um trilho abandonado na paisagem. Sentei-me na cama

e repeti devagar o teu nome, o nome dos meus sonhos,
mas as sílabas caíam no fim das palavras, a dor esgota
as forças, são frios os batentes nas portas da manhã.

Maria do Rosário Pedreira

Foto de eduhhz

CONTIGO APRENDI COISAS TÃO SIMPLES

Contigo aprendi coisas tão simples como
a forma de convívio com o meu cabelo ralo
e a diversa cor que há nos olhos das pessoas
Só tu me acompanhastes súbitos momentos
quando tudo ruía ao meu redor
e me sentia só e no cabo do mundo
Contigo fui cruel no dia a dia
mais que mulher tu és já a minha única viúva
Não posso dar-te mais do te dou
este molhado olhar de homem que morre
e se comove ao ver-te assim presente tão subitamente

Rui Belo

Foto de eduhhz

PAPO DISPERSIVO SOBRE A PAIXÃO

As pessoas amam bem mais a expectativa do amor possível, que o amor propriamente dito. Daí a intensidade dos impulsos bloqueados, os que estão impedidos de expansão e movimento na direção do objeto amado. Os "grandes amores" da literatura são grandes, não por serem amores, mas por serem impossíveis.

Já os grandes amores da vida real só quem sente é que sabe. A impossibilidade de dimensionar um impulso afetivo carrega de energia a fantasia. E esta se encarrega de dar dimensão ao que o exercício da relação, talvez, tirasse. Na paixão impossível só estão as projeções do que idealizamos, pretendemos ou não conseguimos viver em nosso cotidiano. Daí ser fácil entender sua força, sua obsessiva presença na cabeça dos enamorados.

É por isso, aliás, que só é musa quem é inatingível. Case-se com a sua musa e acordará com uma jararaca... Case-se com quem ama e será feliz. Quer se ver livre de uma paixão colossal? Vá viver com a pessoa objeto da paixão (observem, por favor, que não estou usando a palavra amor). Aliás, já está nos clássicos e, mesmo, antes destes, nos antigos: "A conquista enobrece e a posse avilta". Ou, como dizia Goethe: "Nas batalhas da paixão, ganha aquele que foge".

Quantas vezes as relações humanas terminam ou se interrompem sem terem esgotado o potencial de possibilidades adivinhadas, intuídas, sentidas. Aí, o que não se esgotou clama por vir à tona e, muitas vezes, ameaça ocupar (e às vezes ocupa, efetivamente) todo o "ego".

Não é por outra razão que o apaixonado é o maior dos egoístas. Ao dedicar tudo ao objeto da paixão, está é alimentando a própria necessidade, seja de sofrimento, de idealização, de felicidade ou fantasia. Entupido de impossibilidades, ele clama. E a isso muitos chamam amor. Mas amor é coisa muito diversa... Amor não clama nem reclama: amor dá.

Artur da Távola
by Autocultura blog

Foto de eduhhz

AUTÊNTICO

Pois este verde é autêntico,
milord: verde-malva,
que me induz a discorrer
de novo campos, várzeas
em flor.Em flor: autêntico.

Autêntico é este amarelo
de que sorris, milord.
Tanto que me recorda
os cravos-de-defunto
de uma casa que habitei
menino. E, mesmo,um morto
com seu ar bem composto
num velório em que havia
dálias, somente dálias.

Pois que também autêntico
(não sorrias, milord)
é este vermelho que lembra
os poentes sangrentos,
as bocas amorosas.

Autêntico este azul,
tão azul como um céu
que nem divisas, tão
azul como a vaga
palpitação de um mar
que em ti mesmo reflui
incerto e longe...

Autêntico este preto,
este brando incolor,
furta-cor... Milord,
autêntico este imenso
embaralhar de rubro
e azul verde-gaio,
violáceo, ocre,cinza,
e sobretudo estes
inaudíveis acordes
que no vento e na névoa
silenciam.Autêntico
este ofegar de céu
sobre a treva dos olhos.
E esta ressônancia
de águas,árvores,rochedos.
E este êxtase,este súbito
deslumbramento, este
resvalar em colinas
dissolvidas em bruma.
E este amarelo.Este
amarelo sinistro.
(Não sorrias, milord.)

Alphonsus de G.Filho
In Água do Tempo

by Jean-Baptiste Greuze

NUNCA MAIS TE ERGUERÁS...

Nunca mais te erguerás dentre os detroços implacáveis
para tentar reconstruir o que foste, perdido
em vagas solidões onde olham tardonhos
e indecifráveis rostos.

Nunca mais te erguerás...Agora, pelos parques,
as mesmas árvores contemplam os mesmos cegos e a noite
pousa as mesmas delaceradas e torturantes asas.

As ruas esfriam teu gosto de viagens, acolhem-te
e ao mesmo tempo tolhem
teus pés cansados de buscar o que era tão-somente,
ai! tão-somente limo e vento.

Cantas, porque cantar é o que te resta, sonhas
porque sonhar foi sempre o teu ofício, esperas
porque esperar... e então tudo mais se modela
em máscaras esfíngica e impassível em que embora exausto
jamais encontrarás sequer débil vestígio
da que te roeu, secou, áspera e amarga fome.

Alphonsus de Guimaraens Filho
In Água do Tempo

by Jean-Baptiste Greuze

MESA DOS SONHOS

Ao lado do homem vou crescendo

Defendo-me da morte quando dou
Meu corpo ao seu desejo violento
E lhe devoro o corpo lentamente

Mesa dos sonhos no meu corpo vivem
Todas as formas e começam
Todas as vidas

Ao lado do homem vou crescendo

E defendo-me da morte povoando
de novos sonhos a vida.

Alexandre O'Neill