31/05/2011

O DESEJO DE IR EMBORA



















O sol entrou feliz pela janela
e tudo iluminou alegremente.
Há um cão que ladra, e um pássaro desgrana
ligeiras harmonias em torrentes.

De costas em meu leito, sinto um vago
desejo de adorar essa distâncias,
de me perder na cerração dos lagos,
de me cegar na luz dessa alegria;

de ir cantando por um caminho agreste
e de sentir todo o dulçor das tardes,
o coração repleto da celeste
chama de amor que nos caminhos arde.

Pablo Neruda
In O Rio Invisível
tela  Elegant People at Epsom1939/Raoul Dufy

O AMOR PERDIDO























Os meus desejos vão em pós da amada
em regueiros tranquilos ou violentos
e ao seu olhar se sentem agitados
como os arbustos sob a ação do vento.

Meus olhos tremem quando em tarde escura
a adivinham ao longo dos carreiros;
já não sabem olhar para as alturas,
de vez que veem na terra seus luzeiros.

E não naufragará sob os teus olhos
meu coração como uma barca pobre;
o meu amor te pesará nos ombros,
tua garganta esconderá meu nome.

Meus passos pisarão sendas dolentes,
extinguirão meus olhos as estrelas,
e perfurando a noite em que me encontre
arderá teu prazer em minha pena.

Minhas mãos colherão flores e frutos
- e embora os colham estarão vazias-,
amarão os racimos mais escuros,
desgranarão as últimas espigas.

E serão as varandas estrangeiras
a tua voz e o teu olhar distantes;
a lâmpada incendida da lembrança
as mãos iluminando no semblante.

Deixa-me amar-te mais neste momento.
Ama-me agora para não pensá-lo.
E no jardim que morrerá na sombra
deixa o repuxo prosseguir cantando...

Pablo Neruda
In O Rio Invisível
tela maison au Havre1915/Raoul Dufy

NO CENTRO DA APARÊNCIA























Repousa ao espaço de um olhar. O ar dança na rua.
Sombras e ruídos.As árvores têm uma idade clara.
Vagarosa persistência, a alguns metros do solo.
O enigma está vivo no centro da aparência.
Uma criança designa o mar. Alguém traz uma folha.

Alguém compreende a sede de uma pedra?
Quem estuda a felicidade? Quem define um jardim?
Que linguagem é a do espaço? O que é o sal da sombra?
Esquecemos a linguagem do vento e do vazio.
Nunca houve um encontro.Quando será o início?

Vejo a folhagem e os frutos da distância.
Olho longamente até ao cimo da ternura.
Vivo na luz extrema em todas as direcções.
O pequeno e o grande conjugam-se, consagram-se.
Canto na luz suave e bebo o espaço.

António Ramos Rosa
In Animal Olhar
tela Tamara de Lempicka

34























Os dias sucedem-se como marés, espraiam-se como portas nesse palácio absurdo que é a vida. Cada uma encerra a surpresa do futuro ou a agressão violenta do passado, numa desordem que nos domina sempre na razão inversa da vontade e do desejo.

Há pontos no tempo que são como lupas apontadas à minúcia desse caos. E é por aí que a loucura ronda e nos seduz ao limiar dos abismos, numa espécie de sonolência inocente onde todos os pensamentos concorrem para a realização desse vitral que é a alma: domínio de todas as sombras e de todos os brilhos.

gil t. sousa
falso lugar
http://canaldepoesia.blogspot.com/
tela Amethyst 1946/Tamara de Lempicka

30/05/2011

DIAS DO DESTINO



Quando são de espantar os dias turvos
e o mundo hostil e frio se apresenta,
amedronta-se a confiança tua
a depender de ti completamente.

Mas fechado em ti mesmo, desterrado
do país da relembrada alegria,
vais entrevendo paraísos novos
em que a crença tua se repatria.

Já reconheces como afim de ti
o que antes parecia adverso e estranho,
e passas a chamar com novo nome
o destino que tu vais aceitando.

O que fora ameaça de esmagar-te,
mostra-se afável, a respirar luz:
é qual um mensageiro, qual um guia
que bem alto mais alto te conduz.

Hermann Hesse
In Andares
tela de Joe Cornish 

JARDIM DE INVERNO



















Chega o inverno.Um esplêndido ditado
dão-me as lentas folhas
vestidas de silêncio e de amarelo.
Sou um livro de neve,
uma larga mão, uma pradaria,
um círculo que espera,
que assim pertenço à terra e a seu inverno.

Cresceu o rumor do mundo na folhagem,
ardeu depois o trigo constelado
por flores rubras como queimaduras,
logo chegou o outono estabelecendo
a escritura de vinho:
e tudo passou, foi céu passageiro
a taça do estio,
e se apagou a nuvem navegante.

Eu esperei no balcão, tão enlutado
como ontem nas heras da minha infância,
que a terra estendera
suas asas no meu amor desabitado.

Eu soube que a rosa feneceria
e este caroço do transitório pêssego
voltaria para dormir, germinar:
e me embebedei com a taça de ar
até que todo o mar se fez noturno
e o amanhecer foi convertido em cinza.

Vive a terra agora
tranquilizando o seu interrogatório,
estendida a pele do seu silêncio.
Volto a ser agora
o taciturno que chegou de longe
envolto em chuva fria e pelos sinos:
devo para a pura morte da terra
a intenção das minhas germinações.

Pablo Neruda
In Jardim de Inverno
tela de Patrick

29/05/2011

ECOS DE POTESTADES

















Sou feita de barro e sonhos.
Sinto em mim o turbilhonar
de todas as forças do universo.

Vim de um lugar obscuro: o útero.
Percorrerei longas veredas
até meu retorno ao barro.

Dessa lama humana
jorram canções, amores ávidos,
impulsos rútilos, insanos propósitos.

Escamo-me para extirpar o azinhavre.
Chego às vísceras, empalideço o todo
até surgir o branco da essência.

Acomodo medos e angústias
no rubi incrustado: cerne
do meu corpo que devora enigmas.

Adereço da noite, o silêncio,
exacerba-se com o passar das horas:
igual ao dos pátios na madrugada.

Sussuros noturnos avolumam-se
sem peias no limbo da solidão:
suplicam clemência às potestades.

Pressinto a presença de Deus:
incitamento que faz  irreversível
minha atitude diante da vida.

Frente a frente de mim
transcendência me arrebata:
jeito meu de romper o exílio.

Dúnia de Freitas
In À Beira de mim na madrugada azul
foto por Ricardo Carreon

REDE DE ARRASTÃO

















Nas mãos,
o retrato da vida:
aspereza.

São hábeis
ao manusear a naveta
entrelaçamdo fios.

A cada laçada
seus sonhos reverdecem.

Nos losangos trançados
o vazio da vida
se imensa.

Só vento carrega
o pescador para o alto mar.
Cativo viaja.

Dúnia de Freitas
In À Beira de mim na Madrugada Azul
foto de Ricardo Carreon

SALA DE ESPERA



Sentimentos não são teoremas
são antes como nuvens confusas
sorrateiras
à espreita

onde vão dar
os caminhos do coração
em que clareira
floresta ou pedaço
de ar?
sinos ocultos
dormem debaixo
das veias
e basta um sopro
de lua ou jasmim

a solidão passa
pontual
todas as tardes
 bonde azul
sem passageiros
rumo a lugar nenhum
e deixa na pele
um desejo
de outra pele

versos são cometidos
como pequenos assassinos
de palavras
no escuro cúmplice
do pensamento
algumas vezes parece
que o chão está coberto
das horas
que vão caindo das árvores
feito armadilha

um homem grave
sentado na beira
do horizonte
sua alma dobrada
em dois
como um gato adormecido
à espera de um poeta

veleiros fenícios
de aladas âncoras
assombram

um poema
entre as fendas da
tarde
quase mariposa
pousada no silêncio

Roseana Murray
In Paredes Vazadas
foto por fred_v

BATALHA, AO FIM



















Os dedos do meu homem percorrem o cachorro
coçando carrapatos.
Pequenos sanguívoros
escondidos na floresta dos pelos
acabarão mortos por água ou fogo
lançados na lareira ou na privada
quando apenas buscavam alimento.
Este é o destino do ser vivo
ser caçado e caçar na luta por comida
batalha
ao fim, sempre
perdida.

Marina Colasanti
In Passageira em Trânsito
foto http://asbemcasadas.blogspot.com/

DÚVIDA HISTÓRICA



















Diz Montale que se estava apertado
no ventre do Cavalo de Tróia
uns contra os outros como sardinha em lata.
E eu me pergunto se teriam
os de Ulisses
esculpido conspícuos testículos e
um membro no seu histórico equino
para melhor burlar os inimigos.
Pois não era cavalo
o que deixaram
como presente fosse
frente à porta.
Sob seu duplo disfarce, era uma égua
que à noite
na solidão silente entre muralhas
lhes pariu uma ninhada
de assassinos.

Marina Colasanti
In Passageira em Trânsito
tela de Olga Beltrão

25/05/2011

HOJE























Hoje, eu queria a altivez da onda,
o brilho do sol,
a imponência da montanha,
a vastidão do mar...
Tudo isso, e tu me notarias?

Hoje, eu queria a suavidade do regato,
a carícia do vento,
a maciez da nuvem,
a ternura da lua...
Tudo isso, e tu me sentirias?

Hoje, eu queria a doçura do mel,
a beleza da flor,
a meiguice do pássaro,
o calor do verão findando.
Tudo isso, e tu me aceitarias?

Hoje, eu me queria assim,
terna e romântica,
altiva e luminosa,
suave e morna...
Tudo isso, e tu me amarias?

Mila Ramos
In Pé de Vento
foto por  Ilikethenight

MULHER























Para a mulher que sou,
Quero o direito de ser!

Minha opção,
Minha escolha,
E não me tolha o ser gente.

Passo a passo,
Quero o espaço meu
Onde eu estiver:
Seja ser mulher de gente,
Seja ser gente mulher.
Minha opção,
minha escolha,
E não me tolha o ser gente!

Dia  a dia,
Quero as marias
Ao lado dos josés,
Sem guerra ou disputa,
Igualados na luta;
Seja homem ou mulher.

Para a mulher que sou,
Quero o direito de ser!
-----------------------

Mas é tanto preconceito...
- Onde está o respeito, Santo Deus,
Que és Homem?

Mila Ramos
In Pé de Vento
tela de Jack Vettriano

O MUNDO É UM LUGAR MARAVILHOSO

















O mundo é um lugar maravilhoso
para se nascer
se as pessoas não se preocuparem demasiadamente
com o facto de a felicidade nem
sempre ser
muito divertida

se as pessoas não se ralarem muito com um
bocado do inferno
uma vez por outra

no preciso momento em que tudo está bem
porque mesmo no céu
não se canta
constantemente

O mundo é um lugar maravilhoso
para se nascer
se as pessoas não se ralarem com a morte de
outras pessoas
constantemente
ou talvez apenas a morrerem à fome
de vez em quando
o que não será mau de todo
se não for a nós que isso acontece

Oh o mundo é um lugar maravilhoso
para se nascer
se as pessoas não se ralarem muito
com alguns espíritos mortos
nos postos mais elevados
ou uma bomba ou duas
uma vez por outra
nos vossos rostos virados para
cima
ou outras inconveniências
como aquelas a que a nossa Sociedade
de Marca Registada
está sujeita
com os seus homens de grande
distinção
e os seus homens de grande extinção
e os seus sacerdotes
e outros serviços de patrulha

e as suas várias segregações
e comissões de investigação do congresso
e outras prisões de ventre
das quais a nossa carne tonta
é herdeira

Sim o mundo é o melhor lugar de todos
para fazermos uma porção de coisas como
consagrar-nos à alegria
consagrar-nos ao amor
e consagrar-nos à tristeza
e cantarmos canções graves
e termos inspirações
e nos passearmos
olhando para tudo
e cheirando as flores
e troçando das estátuas
e até pensando
e até beijando pessoas e
fazendo crianças e usando calças
e acenando com os chapéus e
dançando
e indo nadar para os rios
em piqueniques
no meio do verão
e de um modo geralmente geral
«gozando à bruta»

Sim
mas depois no meio de tudo isso
aparece o sorridente
cangalheiro

lawrence ferlinghetti
pictures of the gone world
trad. josé palla e carmo
blog canaldapoesia.blogspot
foto por  Ilikethenigh

VIAGEM DERRADEIRA




















…E partirei. E ficarão os pássaros
cantando;
e ficará o meu quintal, com a sua árvore verde
mais o seu poço branco.

O céu, todas as tardes estará azul e calmo;
e tocarão, como esta tarde estão tocando
os sinos do campanário.

Irão morrendo aqueles que me amaram;
e a cada ano se fará novo o meu povoado;
e no tal recanto do meu quintal florido e calado
o meu espírito vagueará, nostálgico…

Eu partirei; e ficarei só, sem lar, sem a árvore
verde, sem o poço branco
sem o céu azul e calmo…

E ficarão os pássaros cantando.

juan ramón jiménez
In poemas agrestes/1911
tradução de nicolau saião
blog http://canaldepoesia.blogspot.com/
foto by  riesling_76

24/05/2011

GAVETA



Santinho de primeira comunhão,
retrato amarelado de um amigo esquecido,
recorte de jornal, esfarelado,
um poema qualquer, envelhecido.
Uma oração.
A receita de bolo, nunca feita.
O projeto de viagem, arquivado.
O botão desconjugado, perdido.
O desenho de um vestido ultrapassado.
Lá no fundo,
uma imagem de saudade antiga
no sorriso aberto de meus pais.
Um cachinho aloirado, uma chupeta.
Gaveta: histórias de amor de nunca mais.

Flora Figueiredo
In Florescência

POEMA DA IDADE PERDIDA



















E pensar que já tive dezoito anos,
que já vivi de sonhos,
que já teci ilusões...
E pensar que já suspirei de amores,
que já sorri despreocupada e feliz
que vibrei com o primeiro beijo...
E pensar que os meus cabelos
já foram fartos e negros;
que no meu rosto havia reflexos de luz,
e no meu corpo, juventude e pujança...
E pensar que a minha boca
era fresca e sadia,
e a minha voz cristalina e pura...
E pensar que possí um coração
que se alvoroça à-toa
e batia descompassado só em avistar um vulto querido...
.....................................................................................

Ah, pensar em tudo isto,
e descobrir agora estes cabelos brancos,
estas rugas morando no meu rosto,
este cansaço me alquebrando o corpo,
esta voz que já nem reconheço mais,
e este coração cansado e sofrido!
Ah, pensar em tudo isto
e não poder voltar atrás!...

Anilda Leão
In Chão de Pedra
tela de Frederick Childe Hassam/Blossoms  c.1880

23/05/2011

NÓS


















Se há o nó que desata
Há sempre o nó que segura
Há o nó que estrangula
Há o nó que algema e prende
Há o nó que corta e machuca
Há o nó que enforca e pendura
Há o nó que nunca tem cura

Outros nós enquanto isso
Quando se encontram, se abraçam
Se entrelaçam, se arrebatam
Se aconchegam, se agasalham
Se combinam, se completam
Se misturam, se ebaralham
Se emaranham, se atravessam
Se penetram, se confundem
E até se fundem
Feito nós

Ricardo Azevedo
In Ninguém sabe  o que é um poema
foto  http://www.faqs.org/photo-dict/phrase

LIÇÃO DO DIA




Cuidar da vida
como quem cuida
de uma casa
de um jardim
de uma paisagem
de um bicho
de um filho
de um corpo
de um sonho
de um amigo
de um amor

Cuidar do mundo
como quem cuida
da própria vida


Ricardo Azevedo
In Ninguém sabe o que é um poema
tela Earth Mother, 1882
by Sir Edward Burne-Jones

POEMA DO TEMPO


















Tem o importante que sabe que é comum
Tem o comum que se acha importante
Tem o diamante que sabe que é pedra
Tem a pedra que se acha diamante
Enquanto isso, o tempo passa levando
Comuns, importantes, pedras e diamantes.

Ricardo Azevedo
In Ninguém sabe o que é um poema
foto  por Junior Barra

***




a poesia mexe
com realidades não-humanas
do planeta
profecias
espíritos animais
vidência
estrela bailarina
lugares de poder
fogo do céu

Roberto Piva
In Ciclones

22/05/2011

BAILANDO NO VENTO E NO COSMO




























Eu sou essa música
que ouves em surdina
nas máquinas do tempo.
Eu sou esse perfume
finado, mas vivo
que o vento trouxe
para reavivar a tua memória...

Sou a beleza sonhada
da nossa história
que não foi vivenciada
pelos nossos sentidos.
Eu sou essa alma sozinha
que baila no vento
à espera de abraços...

Sou música em surdina
sou perfume e beleza no espaço,
sou o teu sonho mais lindo de outrora
que agora te chama
em forma de rima...
Vem comigo, o sonho recordar
e se a música te anima
o vento te ensina:
- aprende a amar!

Zoraida H.Guimarães
In Na passarela do tempo
tela de Adolphe William Bouguereau

VISITAS























Bom-dia Tristeza!
Posso entrar?
Hoje vim com a Saudade
para te visitar...

Já que a Alegria viajou
depois que o Amor morreu,
viemos te visitar
querida amiga...

Visitar-me diz Tristeza,
não me diga...ora veja...
Enganaram-se com certeza,
Pois também estou de partida.
Vou morar com a Esperança
que ainda é minha amiga.

Zoraida H.Guimarães
In Na Passarela do Tempo
tela de Adolphe William Bouguereau

DIA DE OUTONO























Senhor, é tempo. O verão foi grande.
Pousa sua sombra nos cadrans solares,
e pelos ares os ventos expande.

A tardia fruta torna madura;
dá-lhe mais dois dias meridionais,
amadurece-a com toques finais
e concentra na uva toda a doçura.

Não mais fará casa quem agora não a tem.
Quem agora está só, muito tempo há de ficar,
irá ler, velar e longas cartas esboçar,
pelas alamedas, inquieto, vai vagar,
enquanto no alto as folhas secas vão e vem.

Rainer Maria Rilke
In Senhor, é Tempo
Tradução de Karlos Rischbieter
foto por Pål Ivan Eithun

21/05/2011

VARIAÇÕES SOBRE A PAISAGEM























A vida, como vivê-la?
Não sei se é má ou se é boa...
brilha, às vezes, é uma estrela.
Chora, miúda lagoa.

Na paisagem casta e bela
rápido, um pássaro, voa...
A vida, como vivê-la
se triste e alegre ressoa ?

Em tudo, sente-se, aquela
dor, que  nos fere e atraiçoa
quando a terra desvinela.

o solo que se esboroa...
A vida, como vivê-la?
Não sei se é má ou se é boa.

Nair Baptista Schoueri
In A Pedra e o Ser
tela de Aja Trier

OUTONO




...e vem o outono.

Com o outono fogem, módulos,os pássaros
chega a penumbra, o sonho.
Nas folhas outonais há todo um arco-íris
merencório,
opalescente.
Um arco-íris de crepúsculos
sussurantes, madrugadas rarefeitas,
um arco-íris de saudade.

Cai a primeira folha,
- primeira gota d'água
transbordando cachoeiras
de folhas multicores
no leito das estradas.

Caminho
de árvores, que dizem o primeiro
adeus
as verdes folhas ainda banhadas pelo sol
do passado estio.

Cai a folha
transformada em dançarina
pela orquestração do vento.

E rodopiam as bailarinas
no cromatismo da música outonal.

Nair Baptista Schoueri
In A Pedra e o Ser
tela de Sir John Everett Millais

CINZAS ACABADAS




Noite fria,gelada
e um fogo ardente, sem temores
crepita na lareira.

Estala a lenha
e
o aconchêgo é doce
o tempo não passa
e o estalido faz brasa!

Assim é a ventura
das coisas passadas:
queimou-se a candura
e cinzas acabadas.

Alvina Tzovenos
In Sonhos e Vivências

MORRER





Há pássaros cansados,
estrelas sem lumes,
flores vazias,
crepúsculos sem cor.

Contemplações!
atores mudando de cenas
para o espetáculo
das reencarnações!

Morre-se
verdadeiramente,
quando, a cada dia,
no olhar

vivemos uma lágrima ,
num gesto calamos
e numa carícia
ausentamo-nos do amor!

Alvina Tzovenos
In Sonhos e Vivências
arte Dorina Costras

20/05/2011

MEU JEITO























Quando pareço ausente, não creias:
hora a hora meu amor agarra-se aos teus braços,
hora a hora meu desejo resolve teus escombros,
e escorrem dos meus olhos  mais promessas.

Não acredites nesse breve sono;
não dês valor maior ao meu silêncio
e se leres recados numa folha branca,
não creias também: é preciso encostar
teus lábios nos meus lábios para ouvir.

Nem acredites se pensas que te falo:
palavras
são meu jeito mais secreto de calar.

Lya Luft
In Para não dizer adeus
tela de Sirr John Everett Millais

18/05/2011

A ROSA É UM JARDIM


















A rosa é um jardim
concentrado
um clarim
de cor, anunciando
a alvorada fogosa
e o tempo iluminado.

Carlos Drummond de Andrade
In Discurso de Primavera e Algumas Sombras
foto de Christian Revival Network

17/05/2011

SOBRE FUNDO AZUL


















Estridor de pássaros
retalhando os choupos
no céu da tarde?
Ou folhas que cantam
ao vento que vem do Tejo?

Marina Colasanti
In Passageira em Trânsito
foto de  Rosa Gambóias

A CABEÇA É O MELHOR



















Do peixe frito
come-se a cabeça
sem qualquer repugnância.
Não se tritura
um cérebro
não se mastiga
o nobre pensamento
a ideia
o medo.
Sequer se suga
o centro dos reflexos
a óssea e escura moradia do instinto.

Estalam-se sabores
entre os dentes
saboreia-se o sal
por sobre a língua.
Mas é o sal da fritura
tão-somente.
Que o sal do sentimento
bem se sabe
é  humano privilégio.

Marina Colasanti
In Passageira em Trânsito
tela de  Van Gogh / Still Life: Bloaters on a Piece of Yellow Paper

15/05/2011

JÁ A LUZ APAGOU NO CHÃO DO MUNDO

















Já a luz se apagou do chão do mundo,
deixei de ser mortal a noite inteira;
ofensa grave a minha, que tentei
misturar-me aos duendes na floresta.
De máscara perfeita, e corpo ausente,
a todos enganei, e ninguém nunca
saberia que ainda permaneço
deste lado do tempo onde sou gente.
Não fora o gesto humano de querer-te
como quem, tendo sede, vê na água
o reflexo da mão que a oferece,
seria folha de árvore ou sério gnomo
absorto no silêncio de uma rima
onde a morte cessasse para sempre.

António Franco Alexandre
In http://poemasdalusofonia.blogspot./
foto de Antoniomelo

SOMBRAS



















A meio desta vida continua a ser
difícil, tão difícil
atravessar o medo, olhar de frente
a cegueira dos rostos debitando
palavras destinadas a morrer
no lume impaciente de outras bocas
anunciando o mel ou o vinho ou
o fel.

Calmamente sentado num sofá,
começas a entender, de vez em quando
os condenados a prisão perpétua
entre as quatro paredes do espírito
e um esquife negro, onde vão desfilando
imagens, só imagens
de canal em canal, sintonizadas
com toda a angústia e estupidez do mundo.

As pessoas – tu sabes – as pessoas são feitas
de vento
e deixam-se arrastar pela mais bela
respiração das sombras,
pla morte que repete os mesmos gestos
quando o crepúsculo fica a sós conosco
e a noite se redime com uma estrela
a prometer salvar-nos.

A meio desta vida os versos abrem
paisagens virtuais onde se perdem
as intenções que alguma vez tivemos,
o recorte obscuro de perfis
desenhados a fogo há muitos anos
numa alma forrada de espelhos
mas sempre tão vazia, sem abrigo
para corpo nenhum.

Fernando Pinto do Amaral
foto de  David Walenga   

TENTA LER OUTRA VEZ.


















Tenta ler outra vez. Não te apetece
voltar à febre alheia, à superfície
frontal da madrugada? Cada página
destapava outra vida, destilando
o veneno da esperança, a invenção
de um jogo mais que jogo, para lá
do lume que gritava enquanto ardia
na bola de cristal. Ainda conheces
o assombro ou a doença a que chamavas
pensamento? Regressa, por favor,
não te escondas na montra dos sentidos,
no vão sabor do corpo. Não te agrada
o abraço das estrelas quando nascem?,
a rota universal do labirinto?

Fernando Pinto do Amaral
Foto by Pedaços de Mim blog

AZUL

















Um dia hás-de nascer fora de ti
num sobressalto novo deste céu
onde se afoga a luz da madrugada
já sem nenhuma estrela que te aceite
a translúcida febre das palavras.
Um dia hás-de romper os cegos nós
do monstro a que chamavas coração,
o antigo labirinto que te ilude
a inocente máquina do corpo
na escuridão dos passos desastrados
em busca de um azul que te conheça.
Um dia hás-de falar sem dizer nada
que o mundo compreenda e será teu
esse primeiro azul da madrugada.

Fernando Pinto do Amaral
foto de David Walenga

08/05/2011

SERVIÇO



No começo os devotos príncipes mandavam
benzer a terra, o grão, o arado, e praticar
o rito das medidas e dos sacrifícios
da raça dos mortais - sequiosos que eram

de terem o governo justo do Invisível
que matém sempre sol e lua em equilíbrio
e cujas figuras de eterno resplendor
desconhecem o mundo da morte e da dor.

A sagrada linhagem dos filhos de deuses
há muito se extinguiu: os homens estão sós
na voragem do gozo e dor,longe do Ser,
num eterno devir sem benção nem medida.

Entretanto a intuição da verdadeira vida
não morre, e é nosso ofício, em meio à decadência,
por meio de signos, de símbolos e canto,
promover a observância do santo respeito.

É possível que a treva algum dia termine,
é possível que o tempo um dia volte atrás
e que torne a reger-nos o Sol como um deus
a tornar-nos das mãos as nossas oferendas.

Hermann Hesse
In Andares
foto por  Daiane Mendonça

POEMAS DAS HORAS MORTAS

















Esta noite eu conversei tristezas
e ouvi as horas mortas pisando de leve,
para não perturbar meu pranto.
Senti minh'alma desgarrar-se
e seguir outros rumos,
palmilhar caminhos estranhos,
em busca do meu sorriso
que se perdera no abismo da noite.
Esta noite eu conversei tristezas,
e teci saudades,
e magoei meus olhos,
lembrando coisas que já estavam mortas!

Anilda Leão
In Chão de Pedra
foto por  Muddasir Hussain

POEMA DA HORA EXATA


















Há de soar para nós, uma hora exata
uma hora feita de silêncios,
onde jamais serão permitidas
as interrogações e os porquês.
Há de cair, numa hora que há de vir,
sobre as nossas almas fatigadas,
esta paz interior, esta calmaria suave,
que não encontraremos nunca dentro do mundo.
Por entre as brumas do desconhecido,
nós abriremos os olhos extáticos,
como se saíssemos de um sonho
e entrássemos na realidade,
numa vida onde todos se entendam,
onde sejamos verdadeiramente irmãos.
Dentro do silêncio da Morte,
é que encontraremos a paz desejada,
numa hora para nós imprevisível,
quando as sombras da noite
cairem sobre as nossas figuras inúteis.

Anilda Leão
In Chão de Pedras
foto por  mikE~510

NEVOEIRO


















O amor não é
nem paz nem batalha
nem fogo amealhado
na escura fornalha.

O amor é nevoeiro
a branquidão que esconde
a pedra suspensa
no despenhadeiro.

E sendo sempre tudo
como o sonho dos mudos
o amor não é nada

diante da morte
do vento que sopra
de madrugada.

Lêdo Ivo
In Curral de Peixe
foto por  Heatseeker1

GENEALOGIA























morro ao contrário e viro minha mãe
ela vinha da Polônia
sem adivinhar que me carregava
em seu destino
que me carregava em suas unhas
em sua voz
eu a vejo no convés do navio
era criança e não sabia os terríveis
peixes que o oceano esconde
ainda trazia nos cabelos o cheiro do feno
as vozes da aldeia
eu era ela seus olhos espreitando o céu imenso
e já fazia parte do seu silêncio.
morro mais um pouco e viro minha avó
limpando a casa para o sabat
ela era jovem tinha longas tranças
e um coração assustado feito vento
na próxima semana ela casaria
e nem tinha visto o noivo ainda
se Deus ajudasse ele seria calmo
e protegeria sua vida
como com as mãos ela protege
a chama das velas
eu estou dentro dela embutida em seus desvelos
eu a vejo com os olhos de quem só vai nascer
milhares de horas depois
atravessando os escombros que separam
as avós dos seus netos
morro mais um pouco ainda
e não consigo vê-la
a mãe da minha avó
nem sei seu nome
ela é uma sombra tão longe
e quando fala não consigo escutar
embora me esforce tanto que me doem os ossos
eu já estava escrita na trilha
dos seus olhos tristes?

Roseana Murray
In Parede Vazada
tela de Alfred Emile Stevens

FENO























Sou andarilha navegante
enquanto em minha pele
a vida escreve seus espelhos
e o universo faz pouso
com seu barulho grave de universo.

sou o cântaro onde a noite
deposita seus duentes
deposita seus leiteiros
cuidadosamente
como vagos habitantes de um mistério

sou estrada esquina encruzilhada
onde os rios desaguam seus segredos
e a lua se derrama em duas faces
dando de comer ao coração
feito um cavalo a quem se dá o feno.

Roseana Murray
In Parede Vazada
tela por Marc Chagall

07/05/2011

FIDELIDADE























Ainda agora e sempre
o amor complacente.

De perfil de frente
com vida perene.

E se mais ausente
a cada momento

tanto mais presente
com o passar do tempo

à alma que consente
no maior silêncio

em guardá-lo dentro
de penumbra ardente

sem esquecimento
nunca para sempre

doloridamente.

Henriqueta Lisboa
In Alvo Humano
foto por Marcos Fontes      

01/05/2011

MATERNIDADE



















Mulher, as leis eternas absolutas
Te espantam quando a dor te dilacera
As entranhas.Que importa se executas
A tarefa mais nobre que te espera?

Bendiz tantas dores, tantas lutas;
Amar não é somente uma quimera,
Amam asas e flores impolutas,
Há extremos no querer de uma pantera.

Vê a terra, tua irmã nesta grandeza:
Quantas vezes também sonhando fica
Em flor, plena de luz e de beleza!

Pois a terra que é grande, bela e rica
Deu-te com o seu exemplo a singeleza
Da árvore que floresce e frutifica

Débora Leão
In Remoto Sonho
tela de Mary Stevenson Cassatt

PROMESSA























Eu farei do meu corpo
o arrimo suave para a tua canseira.
Eu darei um pouco da minha tranquilidade,
para amenizar as asperezas da tua vida.
Eu te embalarei nos meus braços
e reclinarei tua fronte cansada
de encontro ao meu peito.
As minhas mãos serão feitas de carícias
e repousarão de leve sobre tua cabeça.
Eu serei para ti, aquela que custou a chegar,
mas que surgiu no momento preciso,
em que procuravas uma sombra amiga,
para repousar o corpo cansado.
Dar-te-ei tudo quanto te foi negado na vida,
se me deres em troca o teu amor,
e as lições que aprendestes do mundo.

Anilda Leão
In Chão de Pedras
tela de Alma-Tadema / Promise of Spring

"RÊVE D'AMOUR"























Há pouco eu ouvi num piano qualquer
os acordes suaves do "Rêver d'amour".
Não sei que mãos os dedilharam:
se brancas, se pretas,
se pobres ou ricas.
Foram porém os tons suaves do "Rêve d'amour"
que ouvi assim num soluço, num lamento,
como se tivesse impregnado nas próprias teclas
toda a dor de uma alma apaixonada.
E o piano gemia,
e o piano chorava,
como se escapasse daqueles dedos desconhecidos,
esparramados num piano qualquer,
a alma suave de Listz.
Sim, eu ouvi há pouco o "Rêve d'amour"
muito suave, muito triste, muito vago,
assim como todo sonho de amor...

Anilda Leão
In Chão de Pedras
tela de Adolphe William Bouguereau


DEIXA A NOITE DESCER
















Para Guedes de Miranda


Deixa, meu amigo, que a noite desça.
Se já houve tanto sol
nos dias já vividos,
se há esteiras de luz cobrindo o teu itinerário.
Deixa que a noite venha.
Haverá sempre um astro
para alumiar a tua vida,

haverá sempre um clarão,
para guiar o teu destino.
Sim, afrodite vai ressurgir do fundo dos mares,
e Apolo vai renovar suas flechas de ouro.
A noite pode descer,
mas as sombras não te envolverão
com seu manto sinistro.

Ainda não é tempo de dares adeus à vida,
nem é justo que acenes para a Morte,
assim, como se convidasse uma mulher
para compartilhar do teu leito.
A noite pode descer, amigo,
pois haverá sempre estrelas
para alumiar os teus caminhos...

Anilda Leão
In Chão de Pedras
tela de Sandro Botticelli

FLOR DE SÃO VICENTE

















Do caule esguio em pendor,
três pétalas - uma flor.

Humildade.Simplicidade.
Caridade. Ó penhor!
De que maneira se há de
aproximar dessa flor?

O gesto suspenso em meio
a um delicado tremor,
entre o anelo e o receio
de tocar essa flor.

Henriqueta Lisboa
In Montanha Viva: Caraça
foto  por Counse

LINGUAGEM


















O sol nos fala com luz; com cor
e com perfume nos fala a flor;
com nuvens, chuva e neve nos fala
o ar. Há no sacrário do mundo
um incontido afã de romper
com a mudez das coisas e expor
em gesto e som, em palavra e cor,
todo o mistério que envolve o ser.
A clara fonte das artes flui
para a palavra, a revelação;
para o mental flui o mundo, e aclara
em lábio humano um saber eterno.
Pela linguagem a vida anseia:
em verbo, cifra, cor, linha som,
conjura-se a nossa aspiração
e um alto trono aos sentidos ergue.
Como na flor o vermelho e o azul,
na palavra do poeta volta-se
para dentro a obra de criação,
sempre a iniciar-se e e acabar jamais.
Onde palavra e som se combinam,
e soa o canto, a arte se revela,
e cada cântico e cada livro,
cada imagem, é uma descoberta
- uma milésima tentativa
de cumprimento da vida una
A penetrar nessa vida una
vos chama a música, a poesia:
para entender a criação vária,
já e bastante um olhar no espelho.
O que confuso antes parecia,
é claro e simples na poesia:
a nuvem chove, a flor ri, o mudo
fala - o mundo faz sentido em tudo.

Hermann Hesse
In Andares
foto por  GionnyWeb

SÚPLICA
























Deixe que eu passe as minhas mãos
pelo teu rosto fatigado,
afugentando para longe
tuas longas noites de vigília.
Deixa que eu mergulhe os meus olhos
dentro dos teus olhos tristes,
para que fique dentro deles,
um pouco de luz, um pouco de alegria.
Deixa que eu acaricie os teus cabelos,
trazendo novamente para eles
o negrume das noites que se perderam.
Deixa que eu beije enternecida
as rugas prematuras do teu rosto,
para que esqueças o que sofreste na vida,
Deixa que eu te ame querido,
para que não sofras nunca mais!

Anilda Leão
In Chão de Pedra
tela de Marc Chagall