31/03/2009


by John Godward

"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos."

Fernando Pessoa

30/03/2009


Foto de yoshiko314

O vento assoprando.
Folhas verdes farfalhando
na tarde outonal.

Delores Pires — Tapete de Folhas

Foto de juliobombarda

HOJE DESAPREENDO O QUE TINHA APRENDIDO ATÉ ONTEM

Hoje desapreendo o que tinha aprendido até ontem
e que amanhã recomeçarei a aprender.
Todos os dias desfaleço-me em cinza efêmera
todos os dias,reconstruo minhas edificações, em sonho eternas.

Esta frágil escola que somos, levanto-a com paciência
dos alicerces às torres,sabendo que é trabalho sem termo.

E do alto avisto os que folgam e assaltam, donos
do riso e pedras.

Cada um de nós tem sua verdade, pela qual deve morrer.

De um lugar que não se alcança, e que é , no entanto claro,
minha verdade, sem troca,sem equivalência nem desengano.

Permanece constante, obrigatória, livre:
enquanto aprendo, desaprendo e torno a reaprender.

Cecília Meireles
In O Estudante Empírico

29/03/2009


Orientalisches by Wassily Kandinsky

Canta,poeta,canta
Violenta o silêncio conformado
Cega com outra luz a luz do dia
Desassossega o mundo sossegado
Ensina a cada alma a sua rebeldia

Miguel Torga
In Escrever e criar...é so começar!

Depth Of Love by Oleg Zhivetin


PARA VIVER UM GRANDE AMOR

Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muitas, poxa! é de colher... — não tem nenhum valor.

Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro — seja lá como for. Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma espada — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor, vos digo, é preciso atenção como o "velho amigo", que porque é só vos quer sempre consigo para iludir o grande amor. É preciso muitíssimo cuidado com quem quer que não esteja apaixonado, pois quem não está, está sempre preparado pra chatear o grande amor.

Para viver um amor, na realidade, há que compenetrar-se da verdade de que não existe amor sem fidelidade — para viver um grande amor. Pois quem trai seu amor por vanidade é um desconhecedor da liberdade, dessa imensa, indizível liberdade que traz um só amor.

Para viver um grande amor, il faut além de fiel, ser bem conhecedor de arte culinária e de judô — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito — peito de remador. É preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada e sua viúva também, amortalhada no seu finado amor.

É muito necessário ter em vista um crédito de rosas no florista — muito mais, muito mais que na modista! — para aprazer ao grande amor. Pois do que o grande amor quer saber mesmo, é de amor, é de amor, de amor a esmo; depois, um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor...

Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas, molhos, strogonoffs — comidinhas para depois do amor. E o que há de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica e gostosa farofinha, para o seu grande amor?

Para viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre junto e até ser, se possível, um só defunto — pra não morrer de dor. É preciso um cuidado permanente não só com o corpo mas também com a mente, pois qualquer "baixo" seu, a amada sente — e esfria um pouco o amor. Há que ser bem cortês sem cortesia; doce e conciliador sem covardia; saber ganhar dinheiro com poesia — para viver um grande amor.

É preciso saber tomar uísque (com o mau bebedor nunca se arrisque!) e ser impermeável ao diz-que-diz-que — que não quer nada com o amor.

Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva oscura e desvairada não se souber achar a bem-amada — para viver um grande amor.

Vinicius de Moraes
In"Para Viver Um Grande Amor"

A Family Outing by Edward Henry Potthast

VI

Perdão se quando quero
contar minha vida
é terra o que conto.
Esta é a terra.
Cresce em teu sangue
e cresces.
Se se apaga em teu sangue
te apagas.

Pablo Neruda
In Ainda

28/03/2009


A Dark Pool by Laura Knight

XXVI

Se há uma pedra destroçada
dela faço parte:
estive na ventania,
na onda,
no incêndio terrestre.

Respeita essa pedra perdida.

Se encontro num caminho
um menino
roubando maças
e um velho surdo
com um acordeon,
recorda que eu sou
o menino, as maças e o ancião.
Não me magoes perseguindo o menino,
não batas no velho vagabundo,
não atires ao rio as maças.

Pablo Neruda
In Ainda

Foto de Wagner Machado Carlos Lemes

A ALMA DA CHUVA
A Menotti Del Picchia

Chuva que murmura! Chuva benfazeja
que remoça a terra, que fecunda o chão
e rebenta em brotos para nos dar pão.

Chuva que alimenta o rio generoso
que dá força à roda, movimenta a usina,
- gesto de gigante e riso de menina.

Chuva que ensina sentimentos doces
à flor sem perfume que não tem valia.
Mestra de ternura sem melancolia.

Soror lacrimosa! Chuva que cicia
como se rezasse sobre os cemitérios.
Chuva adolescente cheia de mistérios,

a contar segredos de mocinha nova
sobre namorados, sempre repetidos,
que nem são segredos, de tão conhecidos!

Chuva espumejante em explosões de ciúmes,
chuva apaixonada que castigae mata
com milhões de lanças líquidas de prata.

-Tens por certo uma alma,linda e boa, humilde
e heróica, paciente, santa e pecadora,
caprichosa e terna, nobre e sedutora,

- a alma feminina de Eva ou Madalena,
chuva mãe da seiva, amante casta e pura
fonte de bondade, deusa da fartura!

Oliveira Ribeiro Neto
In Cantos de Glória

Foto de luciano_jus

POESIA

Triste lago envenenado
pela dor e pelo tédio,
pelo limo concentrado
no fundo da água sombria.
Irmão da melancolia
dos que sofrem sem remédio.

Ninguém que o visse parado,
envolto num denso véu,
o julgaria talhado
a usar um manto de cores.
(Os versos, a luz e as flores
são dons que chegam do céu.)

E na água quieta do açude
um aguapé
floresceu.
Por mais pobre, por mais rude
seja esta ideia vazia,
o aguapé é a poesia
e aquele açude sou eu.

Oliveira Ribeiro Neto
In Cantos de Glória

Reverie, 1868 by Dante Gabriel Rossetti

A GRANDE ESPERANÇA

Eu tenho o meu amor dentro de mim
como um raio de sol dentro da nuvem
que corre pelo céu.
Num momento sutil a nuvem passa.
E o mundo enxerga a luz, limpa e serena
sem sombras e sem véu.

Quando a Morte chegar e me disser:
"- Eu te doei o manto protetor
que faz minha magia.
Tu já és invisível e impalpável!"
- o meu amor, liberto, irá buscar-te,
e serás minha, um dia.

Oliveira Ribeiro Neto
In Cantos de Glória

Autumn Threshold by Diane Romanello

XI

Harpa de Osorno sob os vulcões!
Soam as cordas escuras
arrancadas ao bosque.
Olho-te no espelho de madeira!
Consome-te
na mais poderosa
fragrância de outono
quando os ramos deixam
cair folha por folha
um planeta amarelo
e sobe sangue para que os vulcões
preparam fogo cada dia.

Pablo Neruda
In Ainda

The Cowper Madonna by Raphael

MATERNIDADE

Calor de ninho
no meu regaço.
Balanço de onda
Terão meus braços.
E das entranhas
das duas montanhas
fontes branquinhas
hão de jorrar...
Qual tenra fronde,
minha cabeça
se curvará
em adoração.
Os meus cabelos,
longas ramagens,
franças sombrias,
frescas aragens
incensarão.
As minhas mãos
serão as duas
asas serenas,
colhendo as penas
do seu caminho.
Meus olhos baços
serão duas luas
sempre a velar.
E com meus beijos
de paina e linho
eu hei de fiar
as vestes nuas
de meu filhinho...
Para ninar,
doce acalanto,
- pulsar pernene
do coração.

Eloah Oliveira Puggina
In A Primavera Floresceu no Inverno

Piemonte, Autumn in Diano d'Alba by Alan Cotton

XVIII

Os dias não se descartam nem se somam, são abelhas
que arderam de doçura ou enfureceram
o aguilhão: o certame continua,
vão e vêm as viagens do mel à dor.
Não,não se desfia a rede dos anos não há rede.
Não caem gota a gota de um rio: não há rio.
O sonho não divide a vida em duas metades,
nem a ação, nem o silêncio, nem a virtude:
a vida foi como uma pedra, um só movimento,
uma única fogueira que reverberou na folhagem,
uma flecha, uma só, lenta ou ativa, um metal
que subiu e desceu queimando-se em teus ossos.

Pablo Neruda
In Ainda

The Lily Pool by Basil Pao

NAUFRÁGIO NO DESERTO

Refaço a face que me enerva.
Ensaio um sorriso
e solto o riso.

Sou de mim mesma humilde serva.
Torço e quebro meu destino.
Desfibro as horas e amasso os dias.
Enredo e enodo o tempo.

Espremo a dor até sangrar!
E cresce a gula de alegria!

De cada gesto bom
colho sementes.
Jogo-as bem alto.
Germinarão no espaço,libertas.

Um dia florescerão alegrias.
Desfaço os nós do tempo
Espero...Espero...

De improviso, vejo vagar no espaço,
tangido pelo vento, um vergel de flores,
sonorizando risos de alegrias!
Vejo-as, enfim! Ouço-as!

Doce miragem de um só segundo
e desaparece.
O céu escurece.
Chuva de espinhos cai sobre mim.
Em dor me inundo.
Naufrago em mim .

Eloah Oliveira Puggina
In A Primavera floresce no Inverno

27/03/2009


At the Seaside by LS Lowry

NO FIM DO VERÃO

No fim do verão as crianças voltam,
correm no molhe, correm no vento.
Tive medo que não voltassem.
Porque as crianças às vezes não
regressam. Não se sabe porquê
mas também elas
morrem.
Elas, frutos solares:
laranjas romãs
dióspiros. Sumarentas
no outono. A que vive dentro de mim
também voltou; continua a correr
nos meus dias. Sinto os seus olhos
rirem; seus olhos
pequenos brilhar como pregos
cromados. Sinto os seus dedos
cantar como a chuva.
A criança voltou. Corre no vento.

Eugénio de Andrade
In Sal da Língua Porto

Foto de Eduardo Azeredo

NO SOL

Irás achar que foi um erro e foi
um erro, que nada se passou
e na verdade nada acontece nunca
de verdade: a verdade seria

eterna e o acontecido pertence
aos eclipses do tempo precipícios
em que depois da morte ficam vivos,
como se o não estivessem, os momentos

caídos;
foi isso um erro porque nada existe
nem nós, já ao império das vagas
submetidos,

porém na praia oblíqua onde estivemos
permanecer no sol foi tudo o que quisemos

Gastão Cruz,
In A Moeda do Tempo

A NOITE E A CASA




A noite reúne a casa e o seu silêncio
Desde o alicerce desde o fundamento
Até à flor imóvel
Apenas se houve bater o relógio do tempo

A noite reúne a casa a seu destino

Nada agora se dispensa se divide
Tudo está como o cripreste atento

O vazio caminha em seus espaços vivos.

Sophia de M.B. Andresen
House at Auvers, 1890 by Vincent Van Gogh

AUSÊNCIA



Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua

Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.

Sophia De Mello B.Andresen
Nagisa by Charlotte Derain

26/03/2009


School of fish by Yukimasa Hirota

CÂNTICO

Quando a palavra jorra da mais pura luz
e o Tempo incensa o que é predestinado
nasce um cântico para romper silêncios
e refletir luas nos caminhos tristes...

Quando a palavra brota feito água de mina
e segue resvalando pelos seixos rio abaixo
pássaros de fogo rasgam outros céus
de terno azul roubado ao infinito...

Quando a palavra nasce do arco-íris
e rebrilha na faísca dos diamantes
salva-se a pureza dos dias de sol
que de muito ouro revestem as manhãs.

Mas, se a palavra morre na garganta
alçando cego vôo para o Nada
encontrará no abismo das coisas negadas
a ausência de beleza do que foi sagrado!

Maria L.N.Capoozzi
In Álbum de Família

23/03/2009

QUE NENHUMA ESTRELA QUEIME O TEU PERFIL




Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.

Para ti criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas.

Sophia de Mello Breyner Andresen
Flock of Gulls by Pam Carter

22/03/2009


Girl At Ironing Board by Edgar Degas

PURIFICAÇÃO

Coarar as emoções,
junto às camisas e lenços,
secando tudo isto,
para os poder usar
no serviço.

Coarar as emoções
febris e as elevadas
na grama ou laje de viver,
no quintal,
lavando estas peças
do bem e do mal,
amontoando-as
na bacia, ao fundo.

Talvez o sol.
Antes que tal suceda,
que as paixões sequem
e o medo e os pressentimentos
vindos, amiúde,
no tecido que fomos e somos,
as Parcas entrarão
para dentro do inverno
e nós esperaremos,
a depender do tempo,
do barro, dos elementos,
a depender de fios, atavios,
céu,inferno,
a depender da sorte
que nos recolhe
ao balde.

A alma! Que ferro de engomar
a desenrugue dos erros
e ela se limpe, ao menos!

Que o ferro alise
suas ênfases, tropeços.
E trace as imagens
nas emoções mais velhas,
nas que foram pisadas.
Esquecê-las!

O ferro de passar
no mundo inapreendido.
Depois,
coser botões caídos
ou quem sabe,
coser os símbolos
e a jubilação do dia.

Que a alma, ao menos,
saia sem vincos!

Carlos Nejar
In Melhores Poemas

by Pierre-Auguste Renoir » The Daughters of Paul Durand-Ruel

FAMÍLIA DESENCONTRADA

O Verão é um senhor gordo,
Sentado na varanda,
Suando em bicas
E reclamando cerveja

O Outono é um tio solteirão
Que mora lá em cima do sótão
E a toda hora protesta aos gritos:
“Que barulho é este na escada?”

O Inverno é o vovozinho trêmulo
Com a boina enterrada até os olhos,
A manta enrolada nos queixos
E sempre resmungando:
“Eu não passo deste agosto, eu não passo deste agosto....”

A Primavera, em contrapartida
É ela quem salva a honra da família!
É uma menininha pulando na corda,cabelos ao vento
Pulando cantando debaixo da chuva
Curtindo o frescor da chuva
que desce do céu
O cheiro de terra que sobe do chão
O tapa do vento na cara molhada!

Oh!
A alegria do vento desgrenhando as árvores
Revirando os pobres guarda-chuvas
Erguendo saias

A alegria da chuva a cantar nas vidraças
Sob as vaias do vento...

Enquanto
Desafiando o vento, a chuva, desafiando tudo
No meio da praça
A menininha canta
a alegria da vida
A alegria da vida!

Mario Quintana
In Baú de Espantos

LUAS BRANCAS




O medo de te perder
é o medo de me encontrar
- e trevo silente
ao sem-eira do vento
ao remoinho das brancas luas
retornar

Síndrome das crateras vagas
das horas nuas.

( Ai do estéril ventre
de toda antiga ausência
da sombra das palavras tuas.)

Fernando Campanella
by PalavreAres-Poemas,Crônicas & Imagens
foto por Renifer

VENTOS DO LESTE



Esta brisa de outono
me traz um poema de Bashô,
desperta aromas maduros ,
nascentes e frutos,
traz também o viés da vida,
fogo e cinza,
folha ressequida:

amplo leque de pretéritos
e prenúncios.

Este vento nos pinheiros do leste
tocou poetas longínquos
e agora ressoa minhas cordas:

já não sou o pária da noite,
o grande órfão do mundo.

Este sopro traduzido,
transportado a laranjeiras,
paisagens do meu quintal,
abre-me o grande livro da alma:

minha natureza é mãe e madrasta
de meus versos.

Fernando Campanella
outono de 2007
tela Guy Rose

21/03/2009


Foto de Márcia Werlang

SOL
Ao Augusto Faria Rocha

Astro de fogo, Adamastor doirado,
Topázio enorme erguido no infinito,
Extraordinário monstro auricrinito,
Extraordinário sol amarelo.

Lendário Prometheu encarcerado
Na cela azul do espaço indefinito,
Ahsverus de oiro mágico precito,
Rei das estrelas, velho condenado.

O teu manto de luz, manto imperial,
Purpúreo manto de encantado rei,
Que caia sobre mim como um sendal!

Extintas estas velhas cicatrizes,
Contigo, ó sol, eu afinal serei
O mais feliz de todos os felizes...

Clemente Ritz
In Poesias Completas

Foto de Sirbonetta

Dia ensolarado.
O verão se despedindo...
Tapete de folhas.

Delores Pires — Tapete de Folhas

by Gustave Caillebotte » Rose Bush in Flower

INVOCAÇÃO

Amo-te mesmo nessa forma etérea
feita de ectoplasma condensado,
desligada dos planos da matéria,
sem volúpia, sem carne e sem pecado...

Sinto tuas vibrações de alma afetiva,
quando te invoco em minha solidão.
E tu chegas de manso, rediviva,
para me deslumbrar o coração.

Ah! como és bela nessas vestes alvas
que te envolvem o corpo escultural!
E há um trescalar de rosas e de malvas
à tua aparição angelical!...

Surges de leve, amor como um adejo
de pássaro ideal vindo do além
e quase me sufocas com teu beijo!
Que esquisito sabor teu beijo tem!...

E me falas da vida, sussurrando
frases de amor, num linguajar sidério,
que eu me esqueço que um dia,soluçando,
levei teu corpo morto ao cemitério!...

E junto com o teu, meu pensamento
perlustra mundos sobrenaturais,
sentindo, amor, esse deslumbramento
de saber que nós somos imortais!...

Depois desapareces, na agonia
do ectoplasma da mediunidade...
E eu fico só, dentro da noite fria,
quase morto de dor e de saudade...

Odilon Negrão
In Poente sem Sol

20/03/2009


by Pierre Auguste Renoir

COMO UM EMBALO

Fosse uma chama, crepitaria
sob meus dedos, na solidão.
Nada mais quero, nada queria.
As noites chegam, os dias vão.

Fosse uma chama,breve arderia,
brasa de sonho, na escuridão.
Já nada quero da luz do dia...
Queima uma estrela na minha mão.

Mas nada quero da luz da estrela...
(Chegam as noites, os dias vão.)
Por que sonhá-la, se vais perdê-la,
alma perdida na solidão?

Alphonsus de Guimaraens Filho
In Água do Tempo

ROSÁRIO



















Para Mary

Em pleno sol de outono, em pleno maio, abrindo
a alma para os cristais dos dias mais risonhos,
vou desfiando ao léu, pelo horizonte infindo,
meu rosário de sonhos.

Vou desfiando, assim, meu rosário de contas
explêndidas, azuis, de rósea cor toucadas
e que são como orvalho a oscilar-se nas pontas
das folhas pelo sol do estio marchetadas.

Hei de rezá-las todas.
Passá-las, de uma a uma, em cânticos de hinário,
que os dias deste mês de noivados, de bodas,
serão contas de luz na cruz do meu rosário.

Gilberto Mendonça Teles
In Poemas Reunidos
tela de Henri Lebasque

15/03/2009


by Vincent Van Gogh

PÁSSARA

Desperta-me leve rumor de asas. Talvez seja apenas
um novo voo da ave que me habita, a irromper a madrugada
de onde venho, para ganhar o azul do Azul!
E a pássara liberta do fundo do meu corpo-cárcere ao
alçar predestinado voo, alcancará o espaço adivinhado para
encharcar-se de Vida-Luz, Sol-AMOR-nascente.
Sobrevoará a névoa da cidade, os rios em que deságuo
minhas fontes, irá além dos meus limites verticais, para
encontrar-se, serena ave-ávida, pousar em outra praia horizontal
e calma, de areias, ventos, dunas e poesia: encontro com a face
de minha alma!

Maria Lucia N.Capozzi
In Espelho de Mim

by Vincent Van Gogh

REVIVÊNCIA

Olho em torno de mim e constato que quase tudo
mudou: o cenário não é mais o mesmo, os espaços
se ampliaram e, contraditoriamente, o horizonte está ali tão próximo,tangível, que chega a causar medo a possibilidade do finito.
Olho, então, para dentro de mim, tento em vão procurar a
antiga paisagem lá nos confins de minha memória a
custo preservada: apenas alguns contornos indefinidos daquilo
que foi familiar... Apenas vultos se delineiam imprecisos e
enigmáticos.
Ao meu redor, e dentro de mim, a cena-muda se repete:
há o cais, há o mar, há saveiros...Mistérios de ir-e-vir,
sentimentos de chegar e par-tir! Olhos de mar, sargaço
e sal, coração de dor, arpão e sangue!
E a praia-nua a refletir como espelho a minha vida:
preamar, baixamar, maré de lua...


Maria Lucia N.Capozzi
In Espelho de Mim

by Vincent Van Gogh

IMPERFECTÍVEL

Quando te sinto assim tão próximo
e inatingível
Sei tudo da grande distância que nos une.

Minhas mãos vazias te procuram
e experimentam a dorida sensação tátil
do inacessível.

Meu corpo que sempre te buscou o encontra
e apenas prova do teu para saber o gosto
do impossível.

Meu olhar mal iluminado e incontido
pede a luz do teu de que precisa
para obter somente a resposta
do incontível.

Minha boca repleta de palavras guardadas
e inaudíveis
quer a tua com beijos e umidades,
mas só constata as sensações e sons
do indizível...

Maria Lucia N.Capozzi
In Espelho de mim

by Vincent Van Gogh

SONETO

Só preciso de poesia.
Não quero mais nada,
Não quero sorrisos,
Nem luxo, nem fama,

Nem bruxas, nem bodas
nem gritos de guerra,
Nem doidos volteios
Nas danças sensuais.

Só aspiro poesia. Poesia
E silêncio. No mundo fechado,
No escuro do tempo.

A luz da poesia é como a semente
Que na terra morre e logo apodrece,
E na vida renasce em flores e frutos.

Augusto Frederico Schmidt
In Um século de Poesia

Foto by Silly Pigeons

"O carro sem combustível não se locomove, o violão sem cordas não faz música, o corpo humano sem água não resiste, o pássaro sem asas não voa. Assim também é o país sem educação, que embora possua o desenvolvimento econômico, o mercado e a produtividade, não consegue elevar os valores que dão sentido e dignificam a vida. Esses valores são os éticos, os morais e os espirituais. Quando me refiro à educação, estou considerando o sentido mais amplo, não apenas a educação formal, mas a educação integral".

Fábio Oliveira
In Autocultura Blogger

14/03/2009


Vincent van Gogh

"A poesia é o instrumento mais generoso para eliminar a solidão, a indiferença, o desencanto, o cinismo e a discri- minação.
A solidão vale como espaço para refletir em profundidade sobre nosso destino comum e a ausência de solidariedade que deseqüilibra o sistema social, acentua privilégios e exclusões.
Se o poema, muitas vezes, amadurece sem terras, em solidão, sua existência (resistência) se justifica para lembrar que o ser humano mais uma vez não é ilha, mas partilha."
Lindolf Bell

" Os poetas são os únicos que não podem falar contra os absurdos da religião.
Mesmo aqueles que se julgam materialistas devem estar ingenuamente iludidos:
a poesia é uma sistema do sobrenatural."
Mario Quintana

"Porque a poesia purifica a alma
e um belo poema, ainda que de Deus se aparte,
sempre coloca a Poeta a face com Deus."
Mario Quintana

"A poesia é o dia reiventado.
E nós, que tanto sonhamos ao criá-la,
não nos lembramos mais de haver sonhado."
Alphonsus de Guimaraes Filho

"A poesia
- é so abrir os olhos e ver -
tem tudo a ver
com tudo."
Elias José

"A poesia fugiu do mundo
O amor fugiu do mundo -
Restam somente os homens,
Pequeninos, apressados, egoístas e inúteis.
Resta a vida que é preciso viver.
Resta a volúpia que é preciso matar.
Resta a necessidade de poesia, que é preciso contentar."
Augusto Frederico Schmidt

Parabéns minha amiga,Poesia...

CRISTAL




O tempo de viver tem seu cristal intato,
limpo de toda névoa e de tudo o que é forma
mesmo precária e vã de existir e sonhar.

Que relógio de sol lhe marca a intensidade,
o íntimo conviver da contínua linguagem?

Que dia se abrirá como dourada lâmina
no obscuro girassol do amor nas madrugadas?

Mesmo que tudo apague ou dilua no pranto
a presença da morte, e a noite só convoque
a seu largo silêncio inadiável, como
gritar, gritar que há sempre um outro renascer,
uma esperança além nos desígnios da vida?

Que sombra permanece a não ser esta angústia,
esta intranquilidade em que as coisas se deixam
conduzir, como um rio à procura de um mar?

Que sonho restará senão o desespero
de riscar com carvão este breve cristal?

Gilberto M. Teles
In Poemas Reunidos
tela de Claude Monet

Foto de Lincoln Figueiredo

O ENTARDECER EM MINAS

O entardedecer em Minas
traz paz que transcende
da carne , da alma, e é sopro
de desolados becos,
mofo de sacristias.

Casas pobres, solares,
sobrados que vigiam
as extintas riquezas,
efêmero esplendor
do ouro nos veios secos,
dissipados. Em tudo
um silêncio tão frio
que é como se pousassem
mãos de sombra na sombra
que vaga, e somos nós.

Um silêncio de ferro,
silêncio mineral
áspero e tormentoso,
e no entanto sereno,
emoliente quase,
cálido e todavia
esquivo; nostalgia,
pobreza, singeleza,
um leve som de cantos
molhados de um ausente
mar que os olhos perscrutam
em vagos horizontes,
um ressaibo tirante
a cinza e despedida,
uma paixão sem gritos,
morte sem desespero,
o silêncio mineiro.

O entardecer em Minas
desdobra-se em estradas
que no dorso ferido
das montanhas severas
se inclinam sobre os abismos,
se aquietam nos campos
que ondula paz perdida,
na verdade não tida,
longe demais chamando
com seu mato e cupins,
árvores altas, reses.

Silêncio mineral,
que nos queres? Distantes
que vamos, é teu sopro,
como ao marujo o sal,
o sol da maresia,
que nos chama. Estas casas
novas, edifícios
no planalto pousadas,
esta nova explosão
de vida e seiva nunca
explorada, permite
que a ti nós retornemos
com outra perspectiva
de quem se foi no curso
de rios a outras serras,
de quem se deu a campos
retorcidos, ansiosos,
e viu brotar dos longos
silêncios as cidades
que em solidão persistem
como se contemplassem
a si mesmas, nos vales,
-ah, que a ti retornemos
mas já sem qualquer mácula,
mancha da vida suja,
deixando em tuas pedras
em teus adros, colinas,
pecados tortuosos
como as ruas que sonham
eternamenmte imersas
no mineral silêncio,
choro ou raiva, tormenta
que vibra, e não se escuta.

Ah, silêncio de Minas,
ah, o peso das grades,
desolação dos frios
céus, que imenso, estranho
sossego nos altares
de talha, nas portadas,
nos medalhões, nos anjos,
nos ícones, retábulos,
que frêmito de céu
nos Passos, que certeza
austera dos profetas
contemplando, de barbas
de pedra esses de pedra
e sangue desolados
montes onde se ergueram,
como lanternas cegas,
os sonhos graves, ímpetos
libertários, pungência
de fé que em morte esfaz-se,
e hoje é somente brisa,
sempre a brisa passando.
Quem faz tais confidências,
se ninguém ouve? O esparso
silêncio contagia.
Podem os mortos deixar
severas catacumbas
e, hermeneutas da treva,
errar em plena luz
por estes mesmos sítios
onde um dia sofreram
gosto de amor e sonho
da vida; pode a morte,
ela mesma, em disfarce,
simular vida heróica,
estóica, pertinaz;
pouco importa: o silêcio
confunde vida e morte,
que nele se transfundem,
se incorporam. Silêncio
de bocas idas, idos
olhos , hoje no entanto
de novo latejando
como se vida e morte
em tal intimidade
convivam que ninguém
saiba o que há mais vivo
ou mais morto. Legenda
de Minas, glória e exílio,
ofegar de belezas
que a mão tardonha sente
escorrer-lhe entre os dedos,
flama, brisa, dormência,
olor de inexistente,
invisível campina,
mescla de santidade
e desespero , ai! Minas,
como em nós não te agitas
e ao mesmo tempo quedas
hirta e temerária,
com tuas torres, teus
rios discretos, tuas
minas de paz ocultas
e presentes, ai! Minas,
que frescos campanários,
que naves, que caminhos
haverá que nos deixem
no peito malferido
pela noite da vida,
esta emoção incerta,
esta certeza ansiosa,
este anelo de um céu
que nenhum céu nos traz
com os azuis intocados,
esta absurda , assombrada
pureza de quem peca,
já pecou, pecará,
e se lava em tua água,
e em tua paz se salva,
e escuta, por onde vá,
teu silêncio fremindo,
silêncio mineral,
silêncio de ladeiras,
de salas de jantar
com altos móveis solenes,
de varandas de bruma,
de mirantes de brisa,
gelosias que o fogo
de outros sóis requeimou,
a paz dos descampados
onde vagam noturnas
sombras que o sol nenhum
há que apague, tristeza
grave de velhas mãos
em pianos diluídos
em neblina , e um perdido
sabor de desalento
e sonho ,em tudo pondo
um frêmito de chama
um deslizar de asa,
uma carícia de alma,
um repouso de sombra
pura, imemorial.

Alphonsus de Guimaraens Filho
In Água do Tempo

*Postado com carinho para Helen Drumond e Fernando Campanella

13/03/2009


Foto de macrotim

SIZÍGIO

Por que permaneço sol
sol-poente
sol-levante
solstício
relógio-de-sol
a te esperar?

Enquanto és lua,
lua-d'água
maré de lua
plenilúnio
branca-lua
a se apagar?!

Maria Lucia N. Capozzi
In Espelho de Mim

ETERNO




Ainda que a noite desça, escura e silenciosa,
e o nosso grande amor em cinza se desfaça,
eu não te esquecerei: tu serás essa rosa
que a gente sempre vê por detrás da vidraça.

Mesmo que sobre ti, sobre nós, a desgraça
caia como um colar de cólera amargosa,
tu não me esquecerás: serei essa fumaça
que a gente sempre vê numa tarde chuvosa.

Assim, se algum abismo estre nós esboçar-se
e o remanso de amor evolar como o gás,
sem mágoa e sem rancor, sem mentira e disfarce,
eu não te esquecerei, tu não me esquecerás.

Gilberto Mendonça Teles
In Poemas Reunidos
foto de pacoveratf

12/03/2009

O VÉRTICE





















Inútil pensar, quando as quinas
da mesa se confundem no dorso
do animal galopando no sopro
das janelas.

Inútil o equilíbrio, se o vértice
das horas se cobre de intervalos
de sombras e sombras que sobem
do fundo dos vales.

Há homens que se deixam prender
à esfera do imprevisível
e vivem como plantas noturnas
crescendo para dentro da terra.

Há pássaros que se atiram
contra os muros de vidro,
E sonhos que se truncam,
como repúdio.

Gilberto Mendonça Teles
In Poemas Reunidos
tela de  Lasar Segall





11/03/2009


by Hilaire Germain Edgar Degas » The Rehearsal

CANÇÃO BALLET

Ele sozinho passeia
Em seu palácio invisível.
Linda moça risca um riso

Por trás do muro de vidro.

Risca e foge, num adejo.
Ele pára, de alma tonta.
Um beijo brota na ponta
Do galho do seu desejo.

E pouco a pouco se achegam.
Põem a palma contra a palma.
Mas o frio, o frio do vidro

Lhe penetra a própria alma!

"Ai do meu Reino Encantado,
Se tudo aqui é impossível...
Pra que palácio invisível
Se o mundo está do outro lado?"

E inda busca, de alma louca,
Aquele lábio vermelho.
Ai, o frio da própria boca!

O amor é um beijo no espelho?

Beija e cai, como um engonço,
Todo desarticulado?
Linda moça, como um sonho,
Se dissipa do outro lado?

Mario Quintana
In Canções

10/03/2009


Foto de o.dirce

SONETO TRIUNFAL

A morte esmago aos pés, reino em palavras.
O coração da metáfora atravesso.
De espera e assombro fiz minha oficina
de pastorais. À amarga eternidade.

retornarei com lentidão,maduro
talvez de cavalgadas e de assomos.
Golpeio-me no bosque dos antúrios,
que faunos se libertam dos meus ombros.

Sou tecido de sol, pedra e parábola.
Ávido estou à espera do equilíbrio.
Anjo não sou, mas lúcido me abismo.

em Deus - flor da grande árvore do limbo.
Estou no madrigal como no fogo:
ou bem purifico ou mal me morro.

Francisco Carvalho
in Dimensão das Coisas

LUAS




Lua retrô
De Kioto
Da monja implume
De mel e esgoto
Do meu silêncio oco

Lua nouveau
Do sol crescente
Do vaga-lume
Da sarna ardente
Do ovo choco.

(Fernando Campanella,
09 de Março de 2009)

09/03/2009


The Thinker by Auguste Rodin

POEMA DA VERDADE INCOLOR

A verdade não é verde
Vermelha não é a verdade.
Também não é cor-de-rosa.
A verdade é da cor do Homem.

A verdade é o homem e o seu olho,
o homem dentro e fora dele.
O homem com a sua máquina
de fabricar ilusões.

A verdade é a mão larga do homem
e o seu coração de raiz
modelando a imagem da esperança.
A verdade é o homem só.

O homem despido de túnicas.
O homem incolor. O homem correndo
para a volição. O homem partindo
a cada instante do seu osso.

A verdade é haver o homem
sem outra verdade que não ele-mesmo.
A verdade é estar o homem sorrindo
de dentro do seu olho.

Se a verdade fosse verde,
a verdade seria incolor.
Porém, como a verdade não é verde,
a verdade é da cor do Homem.

Francisco Carvalho
In Dimensão das Coisas

Picking Daisies by Hermann Seeger

SONETO

Quando eu morrer a morte dos sentidos,
a morte que não ouve e que não fala,
põe sobre mim a paz dos teus vestidos
de algodão, a secreta paz de palha

dos teus seios amados e esquecidos.
Ouvirei os teus passos pela sala,
deserta de esperança e de zumbidos.
Tu me amarás na insólida mortalha,

vendo-me só, na grande noite mansa.
Quando eu morrer a morte dos mais belos
pensamentos que homem algum já teve,

a morte do Desejo e da Esperança,
põe sobre mim a paz dos teus cabelos
e o sol do teu adeus profundo e breve.

Francisco Carvalho
In Dimensão das Coisas

Foto de filodiniz - Veleiro no Tejo

VELEIRO DA DOR

Que anseias, ó alma à-toa?
Não mais velejam barcos.
No Tejo navega esse velho veleiro da dor.

Adormeço em versos vivos
De Pessoa, Espanca e Régio
assombrações bem-vindas.
Mergulho profundo na Lisboa antiga
e na minha história de partidas.
Onde está minha face?

Orismar Rodrigues
In Antologia Poética

Foto de Luis Felipe Luz

TEMPO TEMIDO

O chão frio
A mesa posta

Sobre o móvel o relógio:
é o tempo.

Passou.Fez-se laço de fita azul
Ficou preso nos cabelos de sol
da menina-sonho.

No papel um desenho - uma máscara
Lá fora os homens na rua

No jardim - pássaro sem vôo
Sem canto
brisa desfeita.
Nesse peito magoado, triste, sofrido
uma lembrança-sempre.

A mesa posta
O latido do cão
O tempo temido
E nas mãos
a ternura rejeitada.

Orismar Martins
In Antologia Poética

Foto de Luis Felipe Luz

OFERENDA

Está decidido:
meus são
meu coração
minhas mãos
carícias.

Também:
meu corpo
canção de amor antiga,
sorriso de infância
não fique igual a esse retrato
amarelo
guardado num álbum de família
precioso de lembranças,
hoje distantes...

Dou ainda:
saudade - essa ruga
tristeza que insiste
em ficar
nos meus olhos.

Orismar Rodrigues
In Antologia Poética

Manuel Bandeira


MANUEL BANDEIRA DO BRASIL

Todos fizeram seus versos para o poeta.
Também vou fazer os meus.

Quando um poeta morre
os outros fazem silêncio
ainda que ninguém tome conhecimento.

Onde estiver,
a estrela da tarde
estará no horizonte da palavra,
atrás do teatro Carlos Gomes
de meus pensamentos vãos,
e me lembrarei de ti, Manuel
Bandeira da saudade.

Onde estiver,
estarei na sacada do mundo
esperando a tua bênção
no vento noturno,
na tua galeria intemporal
de poeta que fez versos
como quem ama.

Onde estiver,
sei que pairas
entre o coração que sabe
e o ruído dos automóveis
da rua quinze de novembro e a chuva
de minha cidade temporal,
que visitas sem que ninguém saiba
e abençoas sem resposta esperada.

Todos fizeram seus versos para o poeta.
E o tempo custou a chegar
para meus versos,
afundados que jaziam no rio Itajaí,
antes da estrela da manhã
ainda que tardia,
onde os esqueci.

quando um poeta morre
os outros morrem também.

Mas nasce um canto
que fica
e fica um verso que nasce,
poeta Manuel, Leão leal.
Mas um canto de morte inteira,
Mas um verso da vida inteira.

E eu queria te dizer,
Manuel Bandeira do Brasil
e verde vale de azul anil,
que achei uma palavra fora do dicionário,
uma palavra estrelada de nome:
MANUELANCOLIA.

Lindolf Bell
by Incorporação

07/03/2009


Foto de nicolas valentin

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Este poema é uma paráfrase
do poema 30 d'O Jardineiro
de Rabindranath Tagore


No meu céu, ao crepúsculo, és igual a uma nuvem
e tua cor e forma são como eu as disponho.
És minha, muito minha, mulher de lábios doces,
e vivem na tua vida meus infinitos sonhos.

As luzes da minha alma te avermelham os pés,
o agro meu é mais doce em teus lábios.
Oh ceifeira de minha canção de entardecer,
como te sentem minha meus sonhos solitários!

És minha, muito minha, vou gritando na brisa
da tarde e o vento arrasta a minha voz viúva.
Caçadora do fundo de meus olhos, teu roubo
estanca como as águas o teu olhar noturno.

Prendeu-te minha música em sua rede, amor.
Minhas redes de música são amplas como o céu.
Minha alma nasce à margem de teus olhos de luto.
Em teus olhos de luto o país do sonho espera.

Pablo Neruda
In Vinte poemas de amor